14. Arqueologia Pública

Capítulo 14, onde se aplicam, em termos museológicos e pedagógicos, os dados e as interpretações da arqueologia 


Arqueologia e ambiente

No Montado do Freixo do Meio, prospetámos muito, escavámos pouco e, a partir dos dados obtidos e da informação disponível sobre outros sítios, reavaliámos a neolitização do atual território português, do ponto de vista do Alentejo Central. 

Em paralelo, procurámos  investir na divulgação dos resultados e no envolvimento da comunidade, tendo em mente um contributo da arqueologia para a literacia  patrimonial e ambiental.

Trata-se, assumidamente,  de um trabalho de Arqueologia Pública Merriman, 2004, conceito que se desdobra em vários sentidos, e que, para nós, significou sobretudo a criação de conteúdos, tecnicamente válidos e atuais (e, obrigatoriamente passíveis de discussão), sobre os temas da neolitização e do megalitismo da região, dirigidos a vários tipos de públicos escolares e não só.

Os conteúdos incluíram a implantação de estruturas “museológicas”, com uma forte componente de Arqueologia Experimental e usando materiais e métodos ambientalmente sustentáveis. 

É preciso reconhecer que a grande maioria dos arqueólogos, entre nós, desenvolve atividades de sensibilização dos públicos (conferências, exposições, museus) que se enquadram claramente no conceito geral de Arqueologia Pública, embora a designação seja pouco usada, por estas bandas. No Brasil, para além de ser o título de uma revista académica especializada, é uma área com bastante destaque e com uma forte componente social Funari et al, 2008; no Reino Unido, é o título de um Mestrado, no prestigiado University College London...

As interpretações avançadas, no campo da neolitização e do megalitismo alentejanos, tendo em conta, naturalmente, outros contextos e outras escalas de análise, inserem-se, de certo modo, na agenda do Montado do Freixo do Meio, cujo projeto se foca na relação entre o agro-pastoralismo e a floresta, tendo em conta o impacte humano sobre o sistema natural, a partir do início do Neolítico. 

E, na mesma linha, está a interpretação da crise do final do Calcolítico, não por invasões ou crises do modelo político-social, mas como resultado expectável do crescimento demográfico, alargamento e intensificação da área agropastoril, à custa da redução da floresta e, em síntese, do impacte destas mudanças sobre a fertilidade dos solos. 

Não se trata de uma perspectiva meramente funcionalista, embora, neste caso, os fatores ambientais sejam muito relevantes; todavia, há que considerar, sobretudo tratando-se da neolitização, os contextos historico-culturais  e as próprias decisões referentes à relação Homem-Natureza. Cauvin, 1999b

Note-se que o projeto central do Montado do Freixo do Meio se tem focado, nos últimos anos e numa escala crescente, na agrofloresta, ou agricultura sintrópica, procurando formas de articular a atividade humana, nomeadamente a subsistência económica, com a conservação e o restauro da natureza.

Sete mil anos depois, com muitos avanços e recuos, procura-se repensar essa época; quintas familiares, dispersas em núcleos locais/regionais, foram abrindo clareiras e prosperando. Nessa fase inicial, o crescimento demográfico terá sido, desde logo, bastante acelerado; em cerca de 500 anos, o interior peninsular estava cheio destas pequenas quintas, para além das ocupações, mais ou menos estáveis, em grutas e abrigos. 

A concentração das populações em verdadeiros povoados, excetuando alguns exemplares ribeirinhos, como são os sítios do Baixo Vale do Tejo, considerados sazonais ou, no máximo, complementares, só parece ter-se iniciado já no Neolítico médio e ter-se tornado a norma a partir do Neolítico final.


Museologia de ar livre, Museologia da Paisagem

A descoberta do "povoado" neolítico do Freixo do Meio 1 (Capítulo 7), inserido em pleno Montado e relativamente perto do Monte, foi o ponto de partida para a criação de um percurso de Natureza, com cerca de 2km, no total, incluindo a visita ao sítio (talvez o único sítio neolítico antigo, de ar livre, em Portugal, com visitas guiadas e contextualizadas).

Trata-se de uma experiência que se pode relacionar com o conceito de "Museologia informal" Moutinho, 1996, e, dentro desta, com a ecomuseologia ou a museologia da Paisagem. Demos, intencionalmente, preferência ao uso dos materiais naturais, reduzindo aos mínimos as soluções tecnologicamente complexas, evitando novo-riquismos inúteis e valorizando, dentro do possível, um certo caráter artesanal. Feito à mão.  

Ao longo do percurso, para além dos aspetos relacionados exclusivamente com a Paisagem (em franco processo de restauro ecológico), foram criadas estruturas "museológicas" de apoio ao discurso arqueológico, centrado nas origens do megalitismo alentejano, nomeadamente a réplica de um cromeleque, à escala 1:1; essa réplica reproduz, em termos de implantação, planta e altura dos menires, o recinto de Vale d'El Rei, em Pavia, o único deste tipo de monumentos que chegou aos nosso dias intacto (após restauro, em 2002). Calado, 2004b 

Outra estrutura instalada neste percurso, foi o "meniródromo", dois pequenos "menires" preparados para que os visitantes possam experimentar, na prática, todo o processo de transporte e ereção dos monólitos, usando toros, alavancas e cordas, atividade que costuma ser vivenciada com muito entusiasmo.

Porém, a principal estrutura implantada foi a reconstituição  do "povoado" neolítico (Arrife do Moital);  esta baseou-se, dentro do possível, nos dados e interpretações disponíveis sobre o neolítico regional ou, em alguns detalhes, alargando a contextos mais amplos. Por exemplo,  no que diz respeito aos materiais de origem orgânica (sobretudo as cordas de tília e de urtiga), usámos, como referência, sobretudo os extraordinários sítios de La Draga e da Cueva de Los Murciélagos)

A decisão de construir duas cabanas inspirou-se na proposta apresentada pelos autores  da escavação do sitio de El Prado (Burgos, Espanha), alegadamente o único sitio de ar livre, do Neolítico antigo, escavado integralmente, na Península Ibérica. Alonso-Fernandez, 2017

Junto às cabanas, foram abertos três silos, dois deles forrados com barro cozido, evocando os exemplares muito bem preservados, do sítio reguenguense de Xarez 12 Gonçalves et al., 2013

Como é habitual, neste tipo de reconstituições, foram também usados dados etnográficos e interpretações testadas na arqueologia experimental. 

Porém, a técnica usada na construção das paredes assentou nos resultados da escavação do sítio do Freixo do Meio 1, em que foram encontrados vestígios do chamado "barro de cabanas". 

Na reconstituição, o barro utilizado no reboco foi recolhido nas margens da linha de água mais próxima.

Nas coberturas, à falta de elementos arqueológicos, usámos materiais e técnicas diferenciadas, nas duas cabanas; quanto aos materiais, usámos dois tipos de caniço, atabua e palha de centeio, tudo materiais autóctones, disponíveis nas proximidades. No madeirame, recorremos ao material disponível nas imediações, nomeadamente azinho (Quercus ilex), sobro (Quercus suber), freixo (Fraxinus excelsior), pinheiro manso (Pinus pinea), medronheiro (Arbutus unedo), sanguinho (Rhamnus alaternus), aderne (Phillirea latifolia) e zambujeiro (Olea europaea, var. sylvestris). 

Quanto aos artefatos do quotidiano, foram executadas cerâmicas, replicando as formas e as decorações das peças recolhidas na escavação do Freixo do Meio 1, assim como as técnicas de fabrico (columbinas) e o método de cozedura (em soenga). 

No que diz respeito à pedra polida, foram elaborados machados e enxós em anfibolito, pela técnica da picotagem, com percutor de quartzo, sobre polidor também de anfibolito.

Quanto à pedra lascada, em sílex, foram produzidas lascas e lamelas que serviram de base à produção de uma foice, um trado e pontas de seta (segmentos).

Foi feito um dormente de mó, em granito, com o respectivo movente.

Foram produzidos arcos, um deles de teixo, e flechas de caniço e oliveira, com armadura de sílex (segmentos). 

Em armação de gamo, foram produzidas picos e percutores brandos. Em osso, agulhas. 

Foram produzidos cestos de vime (Salix) e atabua (Typha).

Para as pinturas, foram utilizados ocres de ferro, fixados com ovo ou cal. Apesar da falta de evidências, no Neolítico peninsular, no que respeita à decoração das paredes das cabanas, decidimos pintar, no interior, motivos copiados da decoração das cerâmicas exumadas na escavação do Freixo do Meio 1; no exterior, usámos motivos da arte rupestre neolítica regional.

No que diz respeito à materialidade, praticamente todos os recursos utilizados estão disponíveis nas proximidades: as madeiras acima listadas, os caniços (Phragmites australis), a atabua (Typha latifolia) , a urtiga (Urtica dioica), a casca de tília (Tilia sp.), o barro, o ocre, o granito e o anfibolito. A únicas exceções foram o sílex, que trouxemos de Rio Maior, e o teixo, proveniente da Beira Alta. 

Aquilo que, provavelmente, se destaca mais, neste exercício de reconstituição, é a própria implantação na paisagem, uma vez que foi possível replicar, com bastante verossimilhança, o modelo verificado no "povoado" do Freixo do Meio1 que, aliás, constitui a norma no Neolítico antigo regional: uma plataforma, aberta a nascente/sul, delimitada por afloramentos graníticos, com os blocos mais monumentais, no lado Noroeste. 

O contexto paisagístico atual, o Montado de sobro e azinho, pontuado por arrifes com uma razoável biodiversidade, evoca, até certo ponto, a paisagem no Neolítico antigo, em que a floresta foi sendo reduzida, pela abertura de clareiras. O primeiro montado alentejano. 

  

 


14.1 - Reconstituição das estruturas da "quinta neolítica" do Arrife do Moital, baseada no sítio do Freixo do Meio 1

14.2 - As decorações no interior das cabanas





Fig. 14.3 - Representações artísticas do making off do "povoado" neolítico do Arrife do Moital (Grupo do Risco)

   C
Fig. 14.4 - Maquetes pedagógicas. Esc. 1: 10


Fig. 14.5 - Cozedura de cerâmicas
Fig. 14.6 - Meniródromo

     
Fig. 14.7 - - Original (à esquerda) e réplica do recinto de Vale d'El Rei


Museologia feita à mão


Como Plano B, tendo em conta a imprevisibilidade das condições meteorológicas, foi  criado o MEGA - Centro Interpretativo do Megalitismo alentejano. Trata-se de um edifício, em madeira, concebido inicialmente como aviário e, entretanto, desativado.
O edifício, de planta hexagonal e com a entrada orientada a Nascente, foi dividido em duas metades. O lado Norte, com cores frias, aborda um tema local, isto é, o megalitismo e a paisagem centro-alentejana, do Mesolítico à Romanização  (Capítulo 12); o lado Sul, em cores quentes, aborda um tema global, isto é, a arte rupestre, no mundo.
O conjunto é complementado com maquetes dinâmicas que permitem explicar, de forma simples, os processos de construção dos menires e das antas. 
Tendo em conta as diferentes tipologias das visitas (Escolas, de diferentes níveis, ou outros grupos), foram elaborados conteúdos adaptados aos diferentes públicos. 
Para os mais novos, criámos a Companhia dos Bosques, marionetes que permitem abordar a neolitização, de formas simples, focadas na domesticação e na importância da floresta.
Reutilizar e reciclar foram conceitos estruturantes, neste projeto. Por exemplo, as caixas de madeira destinadas, originalmente, à postura dos ovos, no aviário, foram transformadas em bancos e bancadas. 
O recurso à pintura manual para a elaboração dos painéis, contornando as óbvias vantagens da ilustração digital, foi outra opção básica. 
As novas tecnologias digitais foram, no entanto, adotadas na elaboração do mapa do Alentejo Central (impressão 3D, com base em cartografia digital, Fig. 3.1.), assim como nas legendas, feitas em QRcode. Esta solução implica uma notável economia de espaço, além de permitir incluir informação virtualmente ilimitada e atualizável.



Fig. 14.8 - Réplicas de artefatos neolíticos 


Fig. 14.9 - Visita de estudo no MEGA centro interpretativo do Megalitismo alentejano




Fig. 14.10 - Personagens da Companhia dos Bosques


Sem comentários:

Enviar um comentário