Para começar
“Cada panela tem seu testo” (ditado popular)
A olaria surgiu, na Europa, integrada no chamado “pacote neolítico”, embora
ocasionalmente tenha sido adotada por alguns grupos mesolíticos que, como vimos,
coabitaram, durante alguns séculos, com os primeiros agricultores-pastores, mantendo,
mesmo assim, uma economia de caça-recolecção.
Porém, no Mediterrâneo oriental, de onde o Neolítico europeu parece ter sido
importado, a cerâmica fez a sua entrada já numa fase avançada do processo de
neolitização, precedida pela domesticação (agricultura, primeiro, e pastorícia, depois).
Em contrapartida, no Japão, na China ou na Rússia (Cohen 2013: 57), a olaria parece ser
bastante mais antiga, tendo sido “inventada” e usada ainda em contextos de caça-
recolecção. Convém observar que, na Europa, a tecnologia cerâmica (terracota) era conhecida, pelo
menos, em algumas regiões, desde o Paleolítico superior, embora rara e usada, quase
exclusivamente, na produção de figurinhas (sobretudo as famosas Vénus), objetos que, como é óbvio,
costumam ser inseridos no domínio do simbólico.
A aplicação da tecnologia cerâmica na produção de vasilhas teve, pelo contrário,
um objetivo indiscutivelmente prático (aliás, notável): para além do uso como
recipientes para consumo, transporte ou armazenamento (fáceis de conseguir com
recurso a outros materiais), os vasos cerâmicos vieram permitir, pela primeira vez, de
forma prática, levar líquidos ao fogo (Budja, 2007: 45), o que teve como resultado uma
alteração drástica na culinária e, logo, na gastronomia.
Porém, a questão que tentarei colocar, neste texto, é, até que ponto, para além do lado
funcional, a olaria mais antiga, entre nós, funcionou como suporte e veículo de
elementos simbólicos.
Não cabe aqui teorizar, em termos gerais, sobre a dimensão simbólica da cultura
material, assunto que tem tido particular expressão na literatura arqueológica anglo-
saxónica (Hoddder, 2011), a partir dos anos 80; tentarei, apenas, procurar elencar e, se
possível discutir, partindo de um universo concreto – a olaria do Neolítico antigo, no
Alentejo Central e, em particular, no sítio do Freixo do Meio 1 - os diversos aspetos
(matéria-prima, técnicas de produção, formas, decorações e usos) em que se podem
discernir, ou entrever, implicações de caráter simbólico.
Este exercício parte do reconhecimento de que “os artefatos e as estruturas conectáveis
com as práticas simbólicas não constituem materialidades quase anedóticas, e de
interesse sobretudo museográfico, mas desempenharam um papel estruturante na
definição destas primeiras sociedades neolíticas” Diniz, 2009: 157).
Convém, desde já, observar que a literatura arqueológica portuguesa tem vindo a usar o
conceito de “cerâmica simbólica”, no Neolítico antigo, mas incluindo, nesta categoria,
apenas os casos em que, na forma ou na decoração, aparecem expressos motivos
reconhecíveis, nomeadamente antropomorfos ou zoomorfos Fernandes, Sousa e
Carvalho, 2016; Carvalho, 2019, Diniz, 2007); todos os restantes motivos (impressos,
incisos ou plásticos), que constituem, aliás, o grosso das evidências, são tratados como
puramente decorativos (talvez, como veremos, com exceção da motivo “em espiga”).
Em paralelo, a literatura antropológica/etnográfica é pródiga em exemplos sobre o caráter eminentemente simbólico da olaria, em sociedades ditas primitivas Lévi-Strauss, 1985; Recchia, 2017; Tsetlin, 2018.
Terra a terra: matéria-prima e tecnologia
Eu sou filho da Terra. A Terra é minha Mãe.” Atharva Veda VII
És pó e em pó te hás-de tornar (Génesis 3, 19)
A cerâmica usa, como matéria-prima básica, o barro, material natural que está
presente, em abundância, em quase todo planeta e que é, na verdade, o principal
constituinte mineral dos solos.
A noção de que os solos “geram” a vegetação e de que esta constitui a base vital
de uma infinidade de seres vivos, esteve provavelmente na origem de uma certa “sacralização” da
terra, presente, sob várias formas, em muitos mitos, em praticamente todos os
continentes (Lévi-Strauss, 1985; Tsetlin, 2018).
O mais conhecido desses mitos aparece, como sabemos, expresso no livro
sagrado judaico-cristão, segundo o qual Deus criou o Homem a partir do barro
da terra (Gn 2,4b-7).
É certo que a Bíblia não explica o processo, mas sabemos que, para produzir
cerâmica, é preciso lidar, por esta ordem, com os quatro elementos do pensamento clássico: a
terra, a água, o ar e o fogo.
Trata-se, por outro lado, do primeiro material sintético, obra especificamente humana,
que se generalizou e ganhou importância, num contexto em que o papel do Homem face
à Natureza foi profundamente redefinido.
O Homem neolítico começou a ver-se a si próprio como o Dono Disto Tudo, domesticando plantas e animais, mas também as paisagens, incluindo, neste caso, os materiais que nós classificamos como inertes.
As formas: o outro lado do espelho
“O homem é a medida de todas as coisas”. Protágoras de Abdera
“At least since the very beginnings of the usage of containers made of burned clay,
vessels have been associated with the general shape and the parts of the human body.
And even in today’s terminology they are divided into elements like neck, shoulder and
body, which is true for almost any language.” Schwarzberg and Becker, 2017
À epígrafe acima, acrescentaria apenas que, na terminologia arqueológica portuguesa,
para além dos termos colo, ombro e pança, se usam também outros termos como boca,
lábio e, sobretudo, mamilo.
Com raras exceções, as vasilhas cerâmicas têm formas baseadas em sólidos de
revolução; quanto ao processo de fabrico, sabemos que, na grande maioria dos casos, as
peças mais antigas eram feitas pela técnica do rolo, ou columbina. Isto quer dizer que, desde a base,
as vasilhas iam crescendo em espiral e que, depois de rematado o bordo, se
apresentavam, vistas em planta, como uma série de círculos concêntricos, tanto na forma como na decoração. Na maioria dos casos, o alisamento das paredes eliminava a
evidência das espirais; isto é, as espirais só eram visíveis durante o processo de fabrico
das peças, embora, certamente, estivessem bem presentes, antes e depois da obra, na
cabeça da oleira.
É voz corrente que, morfologicamente, na cerâmica neolítica (aspeto que pouco mudou até
hoje), as vasilhas se baseiam em (ou evocam) volumes arredondados, mais ou menos abertos, como os que encontramos, com frequência, na natureza (a concha das mãos, as conchas
de bivalves, as cabaças, os cochos, os ovos, etc.).
Porém, na maioria dos casos, a principal referência é o próprio corpo humano.
Nas palavras de Chris Scarre, "vasos e pessoas são, certamente, por vezes, confundidos em comunidades etnograficamente documentadas" Scarre, 2017: 891.
Um trabalho recente sobre as cerâmicas do Neolítico antigo do Mediterrâneo ocidental
(Recchia, 2017), publicado nas atas de um Congresso, realizado em 2013, titulado
expressivamente “Bodies of Clay: On Prehistoric Humanised Pottery” Schwarzberg
e Becker, 2017, explorou essa possibilidade, com exemplos e argumentos
interessantes.
Johanna Recchia classificou, naquele trabalho, as alusões, mais ou menos explícitas, ao
corpo humano, na olaria neolítica do ocidente mediterrânico, em três categorias: o corpo
inteiro (em que, geralmente, o vaso foi usado como suporte para a execução de uma
figura antropomórfica), a cara ou outras partes do corpo.
Limitando o nosso olhar ao material disponível, no Sudoeste peninsular, verifica-se que as duas
primeiras categorias são muito raras.
No que diz respeito à primeira, destaco aqui, tendo em conta, sobretudo, a proximidade
geográfica, em relação ao Freixo do Meio 1, o fragmento de vaso com representação de antropomorfo esquemático, proveniente da Valada do Mato (Évora) Diniz 2007: fig. 82, e os dois fragmentos, muito semelhantes ao exemplar da Valada do Mato, provenientes do Castelo dos Mouros, Sintra Sousa e Carvalho 2015: fig. 2; Carvalho, 2019.
Fig. 9.1 - 1. Fragmento com antropomorfo da Valada do Mato (Diniz 2007: fig. 82); 2. Fragmentos com antropomorfos do Castelo dos Mouros (Sousa e Carvalho 2015: fig. 2; Fernandes et al., 2016: 37; Carvalho, 2019: 14).
Estes exemplares, para além da raridade, têm sido, naturalmente, usados para questionar as relações inter-regionais e/ou as cronologias; interessa, porém, reter a eventual relação com grafismos executados sobre outros suportes, nomeadamente na arte rupestre ou na cestaria, mas também na arte móvel, em geral, em que o tema dominante é a figura humana, representada de forma esquemática. Abstenho-me, naturalmente, de desenvolver a dimensão simbólica destes vasos por ser um tema bastante consensual.
Quanto às caras (também ausentes da arte rupestre regional), creio que, até à data, não
foram identificados exemplares, em vasos do Neolítico antigo do Sudoeste; conhecem-se,
em todo o caso, alguns raros exemplares, mas, tanto quanto sei, apenas a partir do
Neolítico final.
Corpo a corpo
Porém, a terceira categoria analisada por Johanna Recchia - partes do corpo- pode,
logicamente, aplicar-se a praticamente todas as vasilhas e não apenas àquelas que
apresentam desenhos ou detalhes antropomórficos mais reconhecíveis.
Assim, se reduzirmos o corpo ao torso, os elementos mais óbvios são, claramente, os
mamilos, presentes, com diferentes arrumações, e em percentagem significativa, na
olaria do Neolítico antigo regional.
A questão de saber se os mamilos são funcionais ou decorativos é um lugar-comum, na
literatura arqueológica. Em alguns casos, nomeadamente o dos mamilos perfurados, é
clara a dimensão funcional. Noutros, esta não faz qualquer sentido, pelo que, nesses
casos, costumam ser, mesmo que por defeito, considerados decorativos. Todavia, tem-
nos escapado a dimensão simbólica.
Os pares de seios (muito bem representados no povoado do Neolítico final de
Juromenha 1 Calado e Roque, 2014, mas também em contextos funerários alentejanos,
genericamente contemporâneos Andrade, 2016, ou apenas os mamilos, quase sempre aos pares, implicam um corpo humano e, mais concretamente, feminino; creio que o sentido metafórico destes elementos não parece muito difícil de descortinar, uma vez que a olaria se destinava, para além da confecção e armazenamento, ao consumo de alimentos e, neste sentido, comparável à mama/mamilo feminina.
Fig. 9.2 - 1. Vaso mamilado do povoado Neolítico final de Juromenha 1 (Calado e Roque, 2014);
2. taças carenadas mamiladas do grupo Crato-Nisa (Andrade, M., 2016)
Fig. 9.3 - Jarro cicládico da Idade do Bronze (Tyler, 2012: 80)
No Neolítico antigo regional, os mamilos sobre o bordo são muito frequentes, mas,
curiosamente, estão completamente ausentes, em épocas posteriores. Um interessante exemplar, recolhido no Freixo do Meio 1 e reconstituível integralmente, apresentava originalmente uma dezena de
mamilos sobre o bordo, cuja funcionalidade prática, a meu ver, não se coloca.
Porém, tratando-se, como parece, de um recipiente para beber, tipo copo, o utilizador
tinha que colocar os lábios junto aos mamilos (sobre ou entre), num gesto que evoca a
amamentação...
Uma ideia semelhante surge aplicada num cálice da Idade do Bronze, de contexto
funerário, interpretado como parte de um ritual que incluía libações Vico et al 2020 337.
Fig. 9.4 - Vaso mamilado do povoado neolítico do Freixo do Meio e cálice argárico de Peñalosa (Jaén) (Vico et al., 2020: 337).
No mesmo sentido, em África, entre os Fur (Sudão), os potes de cerveja “podem ser
chamados de mãe (eja) e às vezes são decorados com duas protuberâncias chamadas
seios (nansu). Haaland, 2006: 249; também entre os Karanga do Zimbabwe, certos
tipos de vasos são explicitamente associados com o seio materno Recchia, 2017: 103.
Na verdade, a antropologia mostra-nos uma infinidade de mitos que revelam essa
relação. Claude Lévi-Strauss, focado sobretudo no contexto amazónico, analisou e
comparou muitos desses mitos Lévi-Strauss, 1985.
Em jeito de síntese, o autor d’A Oleira Ciumenta, citando Karsten (1935), observou
“a interessante conexão entre a mulher, de quem a cerâmica é uma das atribuições, e
a terra ou argila que ela utiliza. No pensamento dos índios, o vaso de argila é uma
mulher." Lévi-Strauss, 1985: 33
Note-se que na língua dos Jívaros, a proximidade fonética entre as palavras nui,
argila, e nua, mulher, são bastante reveladoras dessa identificação. Lévi-Strauss,
1985: 33; Rcchia, 2017: 100
Também na língua dos Tiriyó, um povo indígena com quem trabalhei no Tumucumaque
brasileiro, e que pertence a outro tronco linguístico (carib), os termos erï , vagina, eri,
barro ou pote e wëri, mulher, têm igualmente, todos eles, a mesma raíz...
As decorações
Na olaria do Neolítico antigo regional, mais do que os temas acima comentados
(material, técnica, forma, uso) tem sido a decoração o aspeto que, naturalmente, mais
tem atraído o interesse dos arqueólogos, até porque (ou sobretudo) lhe reconhecemos
um elevado potencial, como marcador cronológico e cultural.
Todavia, com raríssimas exceções, o potencial simbólico dessas “decorações” não tem
merecido grandes comentários; pelo contrário, a regra tem sido, “reduzir o estudo destes
vasos a simples análises cronoculturais e tipomorfológicas” Recchia, 2017: 83.
Excetuando os temas antropomórficos já mencionados e mais um punhado de possíveis
zoomorfos, a maior parte dos motivos presentes na olaria do Neolítico antigo (impressos,
incisos e plásticos) são, como salientei, considerados puramente decorativos.
Para dar um exemplo, note-se que nem os mamilos (designação que a maioria dos
arqueólogos utiliza, apesar de algumas tentativas púdicas para a substituir por algo mais
politicamente correto) têm ganho o estatuto simbólico que, a mim, me parece tão óbvio e
que, como vimos acima, a etnografia nos permite entrever.
O único motivo que, tanto quanto julgo saber, mereceu uma tentativa de interpretação (atendendo à forma, mas também ao contexto), foi o chamado motivo “em espiga”, que antes costumava, entre nós, ser designado como “falsa folha de acácia” e alguns referem como "em espinha".
Apesar de sugestiva (uma vez que o cultivo dos cereais era um dos ingredientes do pacote neolítico), esta proposta não me parece, ainda assim, a melhor, como adiante se verá. Como, de resto, acontece com as decorações, mais tardias, ditas “em folha de acácia”, as quais podem ser consideradas como uma variante do mesmo motivo.
Se assumirmos a possibilidade, sugerida pela etnografia, de potes serem vistos como corpos, as decorações corresponderiam, naturalmente, às pinturas corporais ou às tatuagens/escarificações de que podemos, razoavelmente, suspeitar mas de que, infelizmente, só temos, até agora, evidência direta, na Europa, a partir do Calcolítico, embora existam evidências mais recentes, um pouco por todo o lado Samadelli et al., 2015; Deter-Wolf, 2016.
A cerâmica lisa (rara ou inexistente, no Freixo do Meio 1 e, no Neolítico antigo, em geral) seria, nessa perspectiva, um corpo nu, sem adornos; efetivamente, as únicas peças inequivocamente lisas são mamiladas.
Mas claro que as pinturas corporais ou as tatuagens se integram, sem dificuldade, no estilo que podemos designar como a "arte linear geométrica" e, tal como nos restantes suportes, foram usadas, conscientemente ou não, como marcadores de identidades.
Mas vejamos, com mais detalhe, alguns destes motivos "decorativos".
Colares e luas
No caso das “grinaldas”, como são frequentemente designados os motivos,
dispostos em semicírculos pendentes, penso que a iconografia pré-histórica e proto-
histórica tem bastantes paralelos que permitem alguma reflexão. Desde logo, se pensarmos
que os vasos são, metaforicamente, corpos humanos, esses cordões podem, com vantagem,
ser interpretados como colares, adereços de adorno, usados ao pescoço, cujo significado, tal como as pinturas corporais, ultrapassa o simples valor estético. E contas de colar não faltam, no registo arqueológico (nem etnográfico) Carrasco et al., 2009.
Em paralelo, uma curiosa analogia formal entre o colar e o crescente lunar talvez mereça
ser considerada, tanto mais que a Lua e os seus ciclos foram certamente observados e
valorizados, pelo menos a partir do Neolítico, e algumas dessas observações simples,
fenomenológicas, ficaram registadas na disposição cenográfica dos nossos megálitos Silva, 2010;
Silva e Calado, 2003.
Fig. 9.5 - Luas e colares pré e proto-históricos
Fig. 9.6 - Menires do Sul de França, com colares.
Acrescente-se, no entanto, que este motivo, presente em diversas culturas, tem sido objeto
de outras leituras alternativas e igualmente sugestivas; propôs-se, nomeadamente, que
representasse um barco ou que fosse a figuração de um dos motivos
geométricos, relacionados com os estados alterados de consciência, denominado
“navicular entoptic phenomenon” Lewis-Williams, 2002.
Outro motivo, recorrente no nosso Neolítico antigo, é o dos “cordões plásticos” (lisos ou
segmentados) que evocam, sem qualquer dúvida (como se deduz imediatamente da própria
designação corrente), as artes das fibras.
Não há dúvida de que os “cordões plásticos” aparecem, milhares de anos antes, no
SE asiático, nomeadamente, na olaria Jomon, uma das fontes de onde a olaria do
Mediterrâneo oriental, muito provavelmente, foi importada, antes de navegar até nós. Note-se
que o próprio termo Jomon, significa padrão de corda, em japonês.
Por outro lado, os “cordões plásticos” parecem ter desaparecido depois do Neolítico antigo
regional, mas reapareceram, em força, nas Idades do Bronze e do Ferro e chegaram até
praticamente aos nossos dias, como um dos temas mais persistentes nas olarias tradicionais.
Este motivo (e a respetiva dimensão simbólica) merece uma reflexão mais aprofundada,
no capítulo seguinte, em que se falará de "cestos de barro".
Potes e conchas
Antes de avançar para o tema das cordas (e das artes das fibras, em geral) recordo que, dentro
da cerâmica com motivos impressos, se destaca, no Mediterrâneo ocidental, a chamada
cerâmica cardial, em que diversos tipos de conchas, com destaque para o berbigão
(Cerastoderma edule), foram usados como matrizes.
Esta utilização das conchas, no início do Neolítico, remete-nos, de algum modo, para os
contextos económicos, sociais e simbólicos, imediatamente anteriores, isto é, do
Mesolítico final. De facto, as economias de largo espectro, praticadas pelos últimos
caçadores-recolectores, assentavam, em boa parte, no consumo de recursos aquáticos,
em que o marisco teve um papel fundamental. Recorde-se, mais uma vez, a cerâmica
Jomon, em que a decoração cardial está bem representada, num contexto que, com as devidas distâncias, é comparável ao nosso Mesolítico. Nukushina, 2013
É razoável assumir que “a existência de conchas de Cardium edule perfuradas, em depósitos de caçadores-recolectores do Mediterrâneo Ocidental, (...), nas mesmas áreas em que a cerâmica cardial aparecerá mais tarde, é um indício do seu valor simbólico pré-cerâmico.” Ruiz, 2009: 120
De facto, para além disso, a valorização simbólica das conchas manifesta-se no seu uso
como material de “construção” dos concheiros, grandes amontoados de conchas (e não
só) que foram, nomeadamente nos casos do Tejo e do Sado, usados para proteger as
estruturas funerárias. Os presumíveis antecedentes das mamoas neolíticas (Bicho et al.
2013: 65).
É óbvio que as conchas, pelas suas formas geometricamente perfeitas, desde cedo
atraíram o sentido estético dos nossos antepassados, um pouco por todo o mundo.
(Rybska 2014).
Por outro lado, sendo percebidas como esqueletos, podem ter ganho um valor simbólico
relacionado com as velhas questões da Morte/Eternidade. Por acaso, se hoje podemos
estudar centenas de esqueletos humanos mesolíticos, face à manifesta escassez de restos
neolíticos, isso deve-se ao facto de os cemitérios mesolíticos terem sido cobertos por
conchas, como elementos maioritários, criando, assim, um ambiente básico, propício à
conservação das ossadas.
Por outro lado, fosse qual fosse o valor simbólico das conchas, é também plausível que, na olaria, elas
tenham sido utilizadas por serem matrizes naturais, fáceis de obter e muito eficazes para
reproduzir as texturas de cestos.
Note-se que, em alternativa às conchas e, provavelmente, com o mesmo objetivo (imitar
as texturas dos cestos) foram usadas frequentemente matrizes artificiais (tipo pente) ou
certas formas de aplicar matrizes simples, como acontece com o chamado boquique, entre outros.
Fig. 9.7 – 1. Cerâmica cardial do Freixo do Meio, com a matriz aplicada na vertical, mas organizada em bandas horizontais;
2. Cerâmica cardial do Freixo do Meio, com a matriz aplicada na horizontal.
Os usos: cada roca com seu fuso
Tudo indica, como já referi, que a olaria foi, de certo modo, uma aplicação da
tecnologia cerâmica, já testada anteriormente na produção de figurinhas, à
produção de recipientes capazes de levar líquidos ao fogo.
Na verdade, a sedentarização veio facilitar o uso da olaria para outros fins, nomeadamente o armazenamento e o consumo de alimentos, em que, antes, se usavam apenas contentores produzidos noutros materiais (cestaria ou madeira, por exemplo).
Parece-me razoável assumir que a cerâmica, sendo relativamente pesada e frágil,
seja pouco compatível com o nomadismo e que as raras primeiras experiências
documentadas, em contextos de caça e recoleção, correspondam a contextos de
semi-nomadismo.
A função culinária, distinguindo-a dos outros tipos de contentores, pode ter
contribuído para a referida valorização simbólica da olaria, metaforicamente relacionável
com o corpo humano, nomeadamente feminino.
Essa função básica aplica-se, por extensão, à elaboração (e uso) de bebidas
medicinais, mas também, por exemplo, de bebidas capazes de induzir estados
alterados de consciência e, portanto, valorizadas, em termos sociais ou mágico-
religiosos. Na mitologia ocidental, temos os caldeirões das bruxas ou os crisóis dos alquimistas, por exemplo.
Neste aspeto, a propósito da olaria campaniforme, que foi moda na Europa
ocidental, há mais de 4000 anos, é interessante anotar que a análise dos vestígios de conteúdos de alguns vasos revelou que se tratava de cerveja “juntamente com a hiosciamina, um
alcaloide alucinogénico encontrado em várias espécies da família das
solanáceas” Delibes e Guerra, 2019: 230.
Com base nesses dados e em comparações com dados históricos da Grécia antiga,
esses autores interpretaram a baixela cerâmica campaniforme como parte de
rituais de libações, praticados pelas elites; curiosamente, procurando
interpretar a decoração cordada, presente, mais ou menos explicitamente, naquele
tipo de produção cerâmica, sugerem a possibilidade de que “também fosse
adicionada marijuana” e, por isso, esses grupos teriam optado “simbolicamente
por decorar os seus vasos de cerâmica com estampas de fibras têxteis (feitas com
cânhamo?),” Delibes e Guerra, 2019: 226.
A ser assim, teríamos, naturalmente, que aplicar esta leitura às muitas cerâmicas cordadas documentadas, em várias épocas e lugares, incluindo, como vimos, a cerâmica Jomon...
Por graça, recordo que o vinho de talha (que, entre nós, ganhou um certo
prestígio, nos últimos tempos), era produzido em vasilhas frequentemente
ornamentadas com cordões...mas, claro, sem marijuana.
Mais seguro, no que diz respeito aos usos não culinários da olaria é o seu uso,
em muitas culturas, como urnas funerárias, de que são exemplo mais próximo
(no tempo e no espaço) os chamados pithoi, vasos de dimensões consideráveis,
usados para inumação Vico et al 2020; Barroso et al.2018; Bacvarov, 2008.
Em todo o caso, “os enterros em vasilhas (...) são conhecidos desde o início do
Neolítico no sudeste da Europa, prevalecendo a ideia do seu legado do Próximo
Oriente como mais um elemento no processo de neolitização do continente.”
Bacvarov 2008; Barroso et al. 2018: 23.
Convém acrescentar que esta prática se verifica igualmente em algumas culturas
africanas (Boeyens et al., 2009) e americanas (Schaan, 2007; Rafferty, 2015).
Fig. 9.8 - Urnas funerárias antropomórficas do Norte do Brasil, Ilha de Marajó (Schaan, 2007)
Para além deste uso, os vasos cerâmicos foram extensivamente usados, em algumas épocas, como urnas cinerárias; mais frequente ainda, a partir do Neolítico, é o uso desses artefatos, como oferendas funerárias, eventualmente acondicionando alimentos rituais.
Claro que, na maior parte destes casos, é tentador admitir que o contentor cerâmico era, simbolicamente, interpretado como um corpo feminino (ou um útero) onde o defunto era recolhido e protegido à espera do renascimento, tal como as mamoas (incluindo os concheiros) representariam o ventre grávido da mãe terra.
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