12. Alentejo Central, uma breve história ilustrada: do Mesolítico à romanização





Fig. 12.1 - Mesolítico estuarino

Os últimos caçadores-recoletores (Mesolítico final)

O Mesolítico final, no nosso território, concentrou-se, há cerca de 8000 anos, em zonas de ecótono, particularmente ricas, em termos de recursos aquáticos, sobretudo nos limites superiores dos estuários do Tejo e do Sado, onde a pesca e, sobretudo, o marisqueio, garantiam, a par da caça e da recolecção, a segurança alimentar.

Estes grupos desenvolveram, naturalmente, competências náuticas notáveis, relacionadas com a pesca, mas que, por outro lado, lhes facilitaram a mobilidade e o estabelecimento de redes de relações, consideravelmente amplas, ao longo das costas atlânticas e do mediterrâneo ocidental.

Foi, provavelmente, a dinâmica destas redes, num processo relacionado com práticas exogâmicas, que fez chegar, ao nosso território, os genes e as inovações neolíticas (agricultura, pastorícia, pedra polida, cerâmica...) oriundas, em última análise, do mediterrâneo oriental.

Foi um tempo de paz, num ambiente de abundância alimentar, que alguns autores sugerem ter inspirado o paraíso bíblico.

Do ponto de vista da relação com a Natureza, estes grupos conviviam, sem a alterar, com uma paisagem exuberante e impoluta.

Foi também um tempo que anunciou algumas das transformações que se seguiram: eram sociedades em vias de sedentarização e provavelmente de complexificação social.

Criaram concheiros funerários (montes de terra, carvões e conchas, cobrindo enterramentos) e estruturas semicirculares de postes de madeira, que são os primeiros monumentos construídos, no nosso território, e que, possivelmente, são os antepassados ​​das mamoas e dos cromeleques neolíticos alentejanos.


Fig. 12.2 - O Freixo do Meio e as relações com os estuários e o Alentejo Central.

Os limites superiores dos estuários do Sado e do Tejo eram áreas privilegiadas do ponto de vista da disponibilidade de recursos naturais: para além dos ecossistemas estuarinos, as comunidades que erigiram os concheiros desfrutavam dos recursos fluviais, imediatamente a montante, e dos recursos marinhos, descendo até à foz dos respetivos rios; os recursos terrestre estavam, por sua vez, disponíveis no interior.


Fig. 12.3 - As últimas florestas pristinas e alguns dos principais elementos faunísticos.

Todo o mundo é feito de mudança

Há cerca de 7500 anos, por influências recebidas (direta ou indiretamente) do Mediterrâneo oriental (onde se procedeu, pela primeira vez, à domesticação de plantas e animais), essas comunidades entraram em processo de neolitização, isto é, tornaram-se pastores e agricultores, mudando radicalmente a relação Homem-Natureza. 

Na prática, a neolitização foi avançando, abrindo e alargando clareiras,  reduzindo a biodiversidade, em paisagens cada vez mais domesticadas. 

É provável que os primeiros grupos neolíticos, no Alentejo Central (nomeadamente no Freixo do Meio), tenham saído das últimas comunidades de caçadores recoletores do Tejo/Sado.

Para além de muitas semelhanças, no que respeita aos instrumentos de pedra lascada (a cerâmica, a pedra polida e as mós são as principais inovações) é possível encontrar, do domínio do simbólico, sugestivas evidências de continuidade. 


Fig. 12.4 - Menires isolados, pares de menires e recintos megalíticos


O Tempo da Pedras Grandes.1
O início do megalitismo relaciona-se diretamente com o início da agricultura/pastorícia.

Provavelmente inspirados nos postes de madeira mesolíticos e/ou ecoando influências anatólicas, os menires funcionam, desde logo, como âncoras simbólicas numa paisagem cuja propriedade começa a ser reivindicada, como consequência da sedentarização e do investimento necessário para o arranque da economia neolítica, nomeadamente a abertura de clareiras, para construção das cabanas ou para cultivo e pastoreio, abertura de poços, etc.

Para além desta função prática, os menires evocam supostamente os antepassados ​​comuns, criando espaços de sociabilidade, lugares centrais, que funcionaram provavelmente como focos de rituais religiosos, reuniões políticas, celebrações festivas, trocas de bens e informações, entre os membros de comunidades dispersas nas áreas envolventes.

Os menires e, mais tarde, as antas, são, em última análise, formas de comunicação (escultura e arquitetura), integráveis ​​nos comportamentos simbólicos comuns à arte rupestre (pintura e gravura).

Foram erguidos menires isolados, pares de menires e pequenos recintos megalíticos (cromeleques), nas fronteiras do Alentejo Central, ao longo do Neolítico antigo.

A concentração, nos arredores de Évora, dos maiores recintos megalíticos (e a maior anta) da Península Ibérica, coincidente com o divisor de águas entre o Tejo e o Sado (a mais importante via natural de trânsito, entre o litoral e o interior alentejano) é, claramente, relacionável, pelo menos em termos geográficos, com os concheiros mesolíticos do Tejo/Sado e parece corresponder a um crescimento demográfico e, eventualmente, a uma fase de apogeu do Neolítico antigo regional.

Nesta óptica, é provável que o Freixo do Meio tenha feito parte dessa primeira vaga de neolitização do Alentejo Central, num movimento mais geral de expansão do fenómeno, a partir do litoral, para o interior da Península.


            Fig. 12.5 - As primeiras instalações agropastoris, no interior alentejano.

Os primeiros pastores e agricultores (5500 a.C. - 4500a.C.)

    Há cerca de 7500 anos, chegaram ao Freixo do Meio, os primeiros colonos, vindos provavelmente do estuário do Tejo, empenhados em lançar as primeiras sementes do modo de vida agropastoril.

    Esses grupos fundaram pequenas quintas, de base familiar, aparentemente organizadas em grupos de vizinhança, que se instalaram sistematicamente em locais marcados pela presença de grandes afloramentos graníticos.

  A escolha das paisagens graníticas, nesta fase inicial, pode relacionar-se com o tipo de solos (relativamente ligeiros), com a disponibilidade de água superficial ou com a topografia suave. No entanto, como foram estes mesmos grupos que iniciaram, entre nós, a ereção dos primeiros menires, talvez esta escolha se relacione também com o possível significado simbólico/mítico atribuído às sugestivas formações rochosas, típicas dos granitos.


                                Fig. 12.6 - O quotidiano do neolítico inicial

Em termos técnicos, as grandes inovações neoliticas fora o machado de pedra polida, fundamental para a abertura de clareiras na floresta, e a cerâmica, que veio mudar radicalmente a culinária/gastronomia.

Em termos económicos, estes primeiros grupos de pioneiros continuaram provavelmente a usar os recursos disponíveis na floresta (bolota, caça, fruta, cogumelos...), a par da criação de cabras/ovelhas e de uma agricultura, ainda incipiente, de slash and burn, focada nos cereais e nas leguminosas.
Porém, estes grupos nunca abandonaram definitivamente os recursos estuarinos; 
O Freixo do Meio localiza-se a meio dia de marcha do Estuário do Tejo, através de uma área de fácil transitabilidade, o que permitia que, regular ou sazonalmente, essas comunidades (todas ou parte delas),  se deslocassem até lá para desfrutar daqueles recursos (pesca, marisqueio, recoleção e talvez pastoreio).

                
                                Fig. 12.7 - O Neolítico médio

O desenvolvimento do modo de vida neolítico deu aso a um contínuo crescimento demográfico que, na região, se traduziu, ao longo de quase 2000 anos (Neolítico antigo e médio), numa época de paz, em que os amplos espaços, no interior, que tinham sido deixados vazios pelos grupos mesolíticos, foram absorvendo os contínuos excedentes demográficos. A colonização agropastoril da Península Ibérica, feita do litoral para o interior, deixou, neste processo, poucos espaços por ocupar.

No final do Neolítico médio (e talvez durante), começaram a ser construídas as primeiras sepulturas protomegalíticas e os menires foram entrando em desuso, alguns deles reutilizados nos novos monumentos funerários.

O êxito do "projeto neolítico" (crescei e multiplicai-vos...), acabou por ter um impacte considerável sobre a paisagem: o alastramento das clareiras para obtenção de combustível (aquecimento, cozinha, cerâmica) e práticas agrícolas pouco sustentáveis, foram empobrecendo o capital natural, degradando os ecossistemas e reduzindo a produtividade.

No limite, o desequilíbrio entre população e os recursos deu origem à guerra.

                        Fig. 12.8 - Povoamento do Neolítico final


Castelos de areia: os primeiros povoados fortificados

    As primeiras evidências de conflitualidade, no seio dos antigos camponeses alentejanos, aparecem no Neolítico final, na segunda metade do IV milénio a.C., e traduzem-se sobretudo na fundação de povoados delimitados por sistemas de fossos que eram, certamente, acompanhados por muralhas de terra, provavelmente de adobe, e/ou paliçadas.

    Alguns destes povoados extinguiram-se, ainda no Neolítico final, enquanto outros cresceram e perduraram até aos finais do III milénio a.C..

    Estes, atingiram, em alguns casos, dimensões da ordem de uma ou mais centenas de hectares e constituíram-se, naturalmente, como centros económicos, políticos e cerimoniais, em cuja órbita se organizaram povoados de menor entidade. 
Convém acrescentar que a existência de fossos não implica necessariamente povoados fortificados; na verdade, trata-se apenas de uma técnica construtiva que tanto poderia ser usada para construir uma fortificação, como para construir um espaço público com outras funções. E tudo indica que temos os dois casos.

    Ao contrário da fase anterior (Neolítico antigo e médio), estes grupos praticavam, a par da pastorícia, uma agricultura em larga escala (cereais e leguminosas), ocupando finalmente os melhores solos da região que, como vimos, inicialmente, foram preteridos a favor das áreas graníticas, menos interessantes, em termos de potencial agrícola.

    Estes novos assentamentos traduzem, naturalmente, um  grande crescimento demográfico e as tensões daí decorrentes, sobretudo se considerarmos, em paralelo, a degradação das paisagens e dos solos, provocada pelo pastoreio e pelas práticas agrícolas/florestais.

    Os dados disponíveis sobre esta época espelham, de forma muito sugestiva, a complexificação social e anunciam, aparentemente, as sociedades hierarquizadas que as Idades dos Metais concretizaram.

    Note-se que estes povoados foram contemporâneos da construção das largas centenas de antas que pontuam, ainda hoje, o Alentejo Central.


                Fig. 12.9 - Monumentos funerários do Neolítico final (antas).

O Tempo das Pedras Grandes.2

As antas são monumentos funerários coletivos, construídos sobretudo no Neolítico final (segunda metade do IV milénio a. C.), cujo uso (ou reutilização) se estendeu, em muitos casos, ao longo do  milénio seguinte e além dele. 

Só no Alentejo central, conhecem-se mais de novecentos exemplares, de diferentes tipologias, matérias-primas e dimensões. No entanto, trata-se apenas da ponta do iceberg, uma vez que, em paralelo, foram construídos, na região, monumentos muito mais discretos ou mesmo virtualmente invisíveis, na paisagem atual: fossas ou grutas artificiais, para além dos monumentos de falsa cúpula (que, em geral, parecem ter substituído as antas).

O Freixo do Meio localiza-se junto a uma das áreas mais densas, no que diz respeito ao megalitismo funerário do Alentejo central. Destaca-se, desse conjunto, atendendo à sua monumentalidade, a Anta Grande da Comenda da Igreja (a cerca de 10km).

Originalmente, eram cobertas por um monte de terra e pedras, a mamoa, mas, no Alentejo Central, a maioria das mamoas sofreu alguma erosão e o esqueleto pétreo ficou, frequentemente, a descoberto...

A par da função funerária (e das implicações sociais e religiosas desta função), as antas encerram, entre outras, conotações simbólicas relacionadas com a paisagem, incluindo, neste conceito, as orientações astronómicas.

Para alguns autores, as antas evocariam metaforicamente o ventre grávido da mãe terra, a quem os mortos eram devolvidos, para um dia renascerem, através de uma passagem estreita, em direção ao Nascente...

Porém, as antas (tal como os menires, antes delas) são parte de um fenómeno mais amplo, quase global, de monumentalização das paisagens, relacionável com a implantação do modo de vida agrícola e a reinvidicação da propriedade sobre a terra.

Na mesma época em que se começaram a construir as antas, apareceram grandes povoados rodeados de fossos, muralhas de adobe/paliçadas, que traduzem, a par das antas, o extraordinário incremento populacional a que o desenvolvimento do neolítico conduziu.


     Fig. 12.10 - Povoados fortificados e monumentos funerários calcolíticos (antas em ruinas e tholos).

Na primeira metade do III milénio a.C. (Calcolítico) o Alentejo central viu surgir um número elevado de novos povoados fortificados, desta vez com potentes muralhas de pedra e implantados em locais com elevada defensabilidade natural.

A fundação desses "castros" corresponde a um enxameamento para fora dos melhores solos agrícolas, ocupados extensivamente a partir da segunda metade do IV milénio (Neolítico final) e onde alguns dos povoados de fossos parecem ter desempenhado o papel de lugares centrais.

O pastoreio e, em alguns casos, a exploração do cobre parecem ter sido a base económica destes novos povoados, geralmente muito pequenos quando comparados com a maioria dos povoados de fossos.

As muralhas destes povoados refletem, de forma muito evidente, o ambiente de insegurança generalizada, provavelmente relacionada com a competição por recursos básicos; o extraordinário crescimento demográfico, patente a partir do Neolítico final, teve inevitavelmente, um impacte ambiental severo, nomeadamente na redução das florestas e, em última análise, na redução da fertilidade dos solos.

Neste quadro, a ocupação de territórios com menor potencial agrícola, parece ter sido um último esforço para sustentar o crescimento demográfico, num contexto de crise anunciada.

Esse esforço fracassou, claramente, em meados do III milénio, altura em que se observa já o declínio demográfico que vai caracterizar os séculos seguintes, ao longo de boa parte do II milénio a. C.

Na área do Freixo do Meio, conhecem-se, por ora, dois povoados fortificados desta época: o Castelo Velho, junto ao Almansor, a cerca de 3 Km, e um outro na Herdade do Vidigal, a cerca de 7 km.

No Calcolítico começaram a ser construídos os tholoi, sepulturas coletivas, cujas plantas se assemelham às das antas, mas que, em vez das lajes megalíticas, usaram pedras de dimensões modestas. A cobertura era, na maior parte dos casos, feita com a técnica da "falsa cúpula". O tholos mais próximo do Freixo do Meio localiza-se nas imediações da Gruta do Escoural, embora existam indícios, ainda pouco explícitos, de monumentos deste tipo, nas imediações.

Uma guerra generalizada, envolvendo todos contra todos, fez certamente estragos.

A guerra, as epidemias, as migrações para zonas mais tranquilas, são os fatores mais razoáveis para explicar o forte declínio demográfico, no Alentejo Central (mas não só), de que a região não viria a recuperar nos milénios seguintes.

Sem excluir liminarmente a possibilidade de a crise do terceiro milénio a. C. ter sido provocada por invasões bélicas, como alguns sugerem, note-se que o registo arqueológico não sustenta a descontinuidade cultural que essa leitura exigiria.

Seja como for, o certo é que, sobre as ruínas de muralhas, no exterior das muralhas ou em pequenos povoados, fundados de novo, mas sem muralhas, instalaram-se os prováveis remanescentes das guerras fratricidas, inseridos em redes de troca em que circulavam certos bens de prestígio, incluindo a cerâmica dita campaniforme, assim como artefatos metálicos de cobre arsenical, nomeadamente pontas de projétil e punhais, e ainda alguns objetos de adorno.

São frequentes os enterramentos desta época em monumentos mais antigos, no Alentejo central.

Na área do Freixo do Meio, não se conhecem, até à data, vestígios de época "campaniforme".

            Fig. 12.11 - Crise do povoamento calcolítico, em época campaniforme.


                            Fig. 12.12 - Crise demográfica do Bronze inicial.

Mil anos de crise

    São muito raros os povoados atribuíveis, no Alentejo Central, ao Bronze antigo e médio, confirmando uma tendência que já era notória na segunda metade do III milénio a.C.. 
    Isto significa que, durante perto de mil anos, a região esteve quase deserta, dando, à Natureza, a oportunidade de regenerar os solos esgotados, voltando os arvoredos a recobrir as paisagens desarborizadas, anteriores à crise demográfica.

    São também muito raras as sepulturas (tipo cista), típicas desta época e relativamente frequentes, noutras áreas do Sul de Portugal; em contrapartida, conhecem-se bastantes casos de reutilização de monumentos mais antigos (antas e sepulturas protomegalíticas).

    Por outro lado, estes grupos fizeram deposições votivas junto a menires e recintos megalíticos, como parece ter sucedido no Arneiro dos Pinhais, a cerca de 10 km do Freixo do Meio. Eles andaram por lá..


                        Fig. 12.13 - Povoados de cumeada, no Bronze Final.

O Tempo dos Guerreiros

Nos finais da Idade do Bronze, por volta do ano mil a.C., o Alentejo Central volta a assistir à fundação de novos povoados fortificados (alguns sobre as ruínas de povoados calcolíticos), a maioria dos quais ocupando os pontos mais elevados da região (povoados de cumeada).
Na região, a maior concentração deste tipo de sítios, vamos encontrá-la nos três pontos mais elevados da serra d'Ossa: Evoramonte, S. Gens e Castelo.

No que diz respeito à paisagem, depois da recuperação das florestas (e dos solos) proporcionada pela crise demográfica que, iniciada no terceiro milénio, atravessou boa parte do segundo, voltamos, logicamente, a ter algum impacte; porém, até à implantação do domínio romano, nunca mais a pressão humana atingiu, nem de longe nem de perto, os valores imediatamente anteriores àquela crise.

Se considerarmos que, só a partir do final do primeiro milénio a. C., com a romanização, a economia agropastoril passou a produzir excedentes para exportação, é razoável que o impacte se tenha exercido apenas nas proximidades imediatas dos povoados e a maior parte do Alentejo central se tenha mantido bastante selvagem.


                Fig. 12.14 - Figura de guerreiro do Bronze final e estrela do Sudoeste. 

Resultando de movimentos de povos ou apenas do reagrupamento do povoamento remanescente, estes novos povoados representam, na verdade, um novo paradigma. São sociedades hierarquizadas, onde se impuseram elites com acesso a armas de bronze, sobretudo espadas, mas também elmos e escudos, assim como a cavalos e carros de guerra...

Em muitas estelas funerárias dessa época, os guerreiros foram representados com a parafernália bélica, acompanhada quase sempre por um espelho e um pente.

A população, porém, não voltou a atingir os níveis do Neolítico final/Calcolítico. E a floresta autóctone beneficiou naturalmente desta redução.

O Bronze final foi a época em que, por toda a Europa, surgiram sociedades cada vez mais complexas, hierarquizadas e eventualmente  proto-estatais, dominadas por guerreiros profissionais, uma elite dispondo de armas poderosas... e jóias de ouro maciço.

A par dos grandes povoados de altura, que emergiram na parte final da Idade do Bronze, existe uma rede de pequenos sítios, sem muralhas, cuja cronologia parece, em muitos casos, anteceder a fase de acastelamento e, em outros, ser contemporânea.

Nos arredores do Freixo do Meio não se conhece, até à data, nenhum povoado fortificado desta época. O mais próximo, com os dados atualmente disponíveis, é o Alto do Castelinho da Serra, a cerca de 20 km. 

Porém, existem algumas evidências de comunidades da Idade do Bronze, no raio de 10 km: um pequeno povoado aberto, na Courela da Freixeirinha (inédito) e um depósito ritual no cromeleque do Arneiro dos Pinhais e, eventualmente, algumas sepulturas individuais no Barrocal das Freiras/Lobeira.

A deposição ritual, nesta época, de pequenas taças, junto de menires neolíticos, verificou-se igualmente nos menires de S. Sebastião e do Mauriz, em Évora, e no menir da Caeira, em Arraiolos.

No Bronze Final foram produzidas, no Sudoeste peninsular, as chamadas estelas de guerreiro, algumas das quais reutilizaram menires neolíticos. Conhecem-se igualmente materiais da Idade do Bronze no espólio de algumas antas e sepulturas protomegalíticas, implicando uma reutilização desses monumentos.

                Fig. 12.15 - Chegada do comércio fenício e impacte orientalizante.


Ex Oriente Lux

O impacte do comércio fenício, no Alentejo central, começou a fazer-se sentir, a partir do sec. VIII a.C., com a introdução da arquitetura quadrangular, da escrita, da metalurgia do ferro, do torno de oleiro, de uma ourivesaria sofisticada e, em termos mais gerais, com a chegada de novas ideias e valores.

O resultado traduziu-se em cerca de 300 anos de paz, durante os quais muitos castros foram abandonados, dando lugar a um povoamento rural disperso, de base agropecuária, em que a oliveira e a vinha parecem ter sido as principais inovações.

A maior concentração de sítios desta época (sec. VIII-V a.C.) foi, até ao momento, identificada na bacia do Guadiana.


Fig. 12.16 - Os últimos monumentos megalíticos (I Idade do Ferro)

O último dos monumentos megalíticos alentejanos foi construído algures pelos sec. VII-VI a.C...

Na verdade, por enquanto, apenas se conhece, de forma inequívoca, um exemplar deste tipo, o alinhamento da Tera, em Pavia.

É constituído por uma linha de menires de dimensões escalonadas, apontando para uma área com enterramentos em urnas cinerárias, delimitada, por sua vez, por pequenos monólitos,

Note-se que este monumento se localiza numa área muito próxima de um recinto megalítico neolítico que, de algum modo, pode ter inspirado os construtores (o recinto de Vale d'El Rei).

De qualquer modo, não deixa de ser curiosa a semelhança entre o Alinhamento da Tera e o monumento de La Fossa, em Itália, mais ou menos contemporâneo.

Por último, é interessante observar que os menires que compõem o Alinhamento da Tera se distinguem bastante dos congéneres neolíticos, por serem manifestamente mais esguios e angulosoв,

Nas proximidades do Freixo do Meio não se conhece, até à data, nenhum sítio da 1ª Idade do Ferro.


Fig. 12.17- A segunda Idade do Ferro.

Os Célticos

No séc. Va. C, voltaram as muralhas, numa nova tipologia de povoados fortificados, relacionável aparentemente com a chegada de povos guerreiros, de matriz indo-europeia, geralmente referidos como celtas (no Alentejo Central, os Célticos)

Estes novos povoados instaram-se, não nas cumeadas, como aconteceu na Idade do Bronze, mas em esporões mais ou menos agrestes, junto aos cursos de água (castros de ribeiro).

Foram estes os povos que os romanos encontraram na sua expansão para ocidente e, que, na sequência das Guerras Lusitanas, acabaram por conquistar, em meados do sec. II a.C.

A escrita parece ter regredido, mas continuaram as arquiteturas ortogonais, trazidas, séculos antes, pelos fenícios e que, no Alentejo central nunca mais foram abandonadas.

Na área do Freixo do Meio, como, na verdade, em toda parte NW do Alentejo central, não se conhecem vestígios desta época.


Alentejos Centrais

Da breve síntese, acima apresentada, é fácil concluir que, ao longo dos seis milénios considerados, a paisagem centro-alentejana foi sendo ocupada (e, consequentemente, moldada) de modos bastante diversos. 
No final do Mesolítico, a concentração populacional nos estuários do Tejo/Sado, mesmo que não absoluta, implica um uso esporádico, sem impacte considerável na paisagem holocénica que, após a última glaciação, prosperou com as melhorias climáticas.
No Neolítico antigo e médio, o desmatamento inerente à "frente neolítica" afetou quase exclusivamente as áreas graníticas, deixando de fora as extensas áreas de xisto e de calcário, nomeadamente nos concelhos de Estremoz, Borba, Vila Viçosa e Alandroal e revelando uma concentração muito diferenciada na área de Évora
A partir do Neolítico final, a distribuição dos povoados de fossos e das antas permite-nos encarar um crescimento demográfico explosivo, com óbvias concentrações em áreas com solos agrícolas de melhor qualidade, nomeadamente os férteis  barros de Beja.
Nesta fase, o Alentejo Central tornou-se certamente uma paisagem fortemente antropizada, com campos agrícolas e pastagens, ficando, porém, ainda de fora,  os xistos e os calcários.
O auge deste processo foi atingido, na região, no Calcolítico pleno, em que mesmo essas áreas menos interessantes, foram ocupadas; o potencial das rochas metamórficas, em termos de defensabilidade natural 
 



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