
Há cerca de 7500 anos, por influências recebidas (direta ou indiretamente) do Mediterrâneo oriental (onde se procedeu, pela primeira vez, à domesticação de plantas e animais), essas comunidades entraram em processo de neolitização, isto é, tornaram-se pastores e agricultores, mudando radicalmente a relação Homem-Natureza.
Na prática, a neolitização foi avançando, abrindo e alargando clareiras, reduzindo a biodiversidade, em paisagens cada vez mais domesticadas.
É provável que os primeiros grupos neolíticos, no Alentejo Central (nomeadamente no Freixo do Meio), tenham saído das últimas comunidades de caçadores recoletores do Tejo/Sado.
Para além de muitas semelhanças, no que respeita aos instrumentos de pedra lascada (a cerâmica, a pedra polida e as mós são as principais inovações) é possível encontrar, do domínio do simbólico, sugestivas evidências de continuidade.
O desenvolvimento do modo de vida neolítico deu aso a um contínuo crescimento demográfico que, na região, se traduziu, ao longo de quase 2000 anos (Neolítico antigo e médio), numa época de paz, em que os amplos espaços, no interior, que tinham sido deixados vazios pelos grupos mesolíticos, foram absorvendo os contínuos excedentes demográficos. A colonização agropastoril da Península Ibérica, feita do litoral para o interior, deixou, neste processo, poucos espaços por ocupar.
No final do Neolítico médio (e talvez durante), começaram a ser construídas as primeiras sepulturas protomegalíticas e os menires foram entrando em desuso, alguns deles reutilizados nos novos monumentos funerários.
O êxito do "projeto neolítico" (crescei e multiplicai-vos...), acabou por ter um impacte considerável sobre a paisagem: o alastramento das clareiras para obtenção de combustível (aquecimento, cozinha, cerâmica) e práticas agrícolas pouco sustentáveis, foram empobrecendo o capital natural, degradando os ecossistemas e reduzindo a produtividade.
No limite, o desequilíbrio entre população e os recursos deu origem à guerra.
Fig. 12.8 - Povoamento do Neolítico final
Estes novos assentamentos traduzem, naturalmente, um grande crescimento demográfico e as tensões daí decorrentes, sobretudo se considerarmos, em paralelo, a degradação das paisagens e dos solos, provocada pelo pastoreio e pelas práticas agrícolas/florestais.
Os dados disponíveis sobre esta época espelham, de forma muito sugestiva, a complexificação social e anunciam, aparentemente, as sociedades hierarquizadas que as Idades dos Metais concretizaram.
O Tempo das Pedras Grandes.2
As antas são monumentos funerários coletivos, construídos sobretudo no Neolítico final (segunda metade do IV milénio a. C.), cujo uso (ou reutilização) se estendeu, em muitos casos, ao longo do milénio seguinte e além dele.
Só no Alentejo central, conhecem-se mais de novecentos exemplares, de diferentes tipologias, matérias-primas e dimensões. No entanto, trata-se apenas da ponta do iceberg, uma vez que, em paralelo, foram construídos, na região, monumentos muito mais discretos ou mesmo virtualmente invisíveis, na paisagem atual: fossas ou grutas artificiais, para além dos monumentos de falsa cúpula (que, em geral, parecem ter substituído as antas).
O Freixo do Meio localiza-se junto a uma das áreas mais densas, no que diz respeito ao megalitismo funerário do Alentejo central. Destaca-se, desse conjunto, atendendo à sua monumentalidade, a Anta Grande da Comenda da Igreja (a cerca de 10km).
Originalmente, eram cobertas por um monte de terra e pedras, a mamoa, mas, no Alentejo Central, a maioria das mamoas sofreu alguma erosão e o esqueleto pétreo ficou, frequentemente, a descoberto...
A par da função funerária (e das implicações sociais e religiosas desta função), as antas encerram, entre outras, conotações simbólicas relacionadas com a paisagem, incluindo, neste conceito, as orientações astronómicas.
Para alguns autores, as antas evocariam metaforicamente o ventre grávido da mãe terra, a quem os mortos eram devolvidos, para um dia renascerem, através de uma passagem estreita, em direção ao Nascente...
Porém, as antas (tal como os menires, antes delas) são parte de um fenómeno mais amplo, quase global, de monumentalização das paisagens, relacionável com a implantação do modo de vida agrícola e a reinvidicação da propriedade sobre a terra.
Na mesma época em que se começaram a construir as antas, apareceram grandes povoados rodeados de fossos, muralhas de adobe/paliçadas, que traduzem, a par das antas, o extraordinário incremento populacional a que o desenvolvimento do neolítico conduziu.
Fig. 12.10 - Povoados fortificados e monumentos funerários calcolíticos (antas em ruinas e tholos).
Na primeira metade do III milénio a.C. (Calcolítico) o Alentejo central viu surgir um número elevado de novos povoados fortificados, desta vez com potentes muralhas de pedra e implantados em locais com elevada defensabilidade natural.
A fundação desses "castros" corresponde a um enxameamento para fora dos melhores solos agrícolas, ocupados extensivamente a partir da segunda metade do IV milénio (Neolítico final) e onde alguns dos povoados de fossos parecem ter desempenhado o papel de lugares centrais.
O pastoreio e, em alguns casos, a exploração do cobre parecem ter sido a base económica destes novos povoados, geralmente muito pequenos quando comparados com a maioria dos povoados de fossos.
No Calcolítico começaram a ser construídos os tholoi, sepulturas coletivas, cujas plantas se assemelham às das antas, mas que, em vez das lajes megalíticas, usaram pedras de dimensões modestas. A cobertura era, na maior parte dos casos, feita com a técnica da "falsa cúpula". O tholos mais próximo do Freixo do Meio localiza-se nas imediações da Gruta do Escoural, embora existam indícios, ainda pouco explícitos, de monumentos deste tipo, nas imediações.
Uma guerra generalizada, envolvendo todos contra todos, fez certamente estragos.
A guerra, as epidemias, as migrações para zonas mais tranquilas, são os fatores mais razoáveis para explicar o forte declínio demográfico, no Alentejo Central (mas não só), de que a região não viria a recuperar nos milénios seguintes.
Sem excluir liminarmente a possibilidade de a crise do terceiro milénio a. C. ter sido provocada por invasões bélicas, como alguns sugerem, note-se que o registo arqueológico não sustenta a descontinuidade cultural que essa leitura exigiria.
Seja como for, o certo é que, sobre as ruínas de muralhas, no exterior das muralhas ou em pequenos povoados, fundados de novo, mas sem muralhas, instalaram-se os prováveis remanescentes das guerras fratricidas, inseridos em redes de troca em que circulavam certos bens de prestígio, incluindo a cerâmica dita campaniforme, assim como artefatos metálicos de cobre arsenical, nomeadamente pontas de projétil e punhais, e ainda alguns objetos de adorno.
São frequentes os enterramentos desta época em monumentos mais antigos, no Alentejo central.
Na área do Freixo do Meio, não se conhecem, até à data, vestígios de época "campaniforme".
Fig. 12.11 - Crise do povoamento calcolítico, em época campaniforme.
Fig. 12.12 - Crise demográfica do Bronze inicial.
A população, porém, não voltou a atingir os níveis do Neolítico final/Calcolítico. E a floresta autóctone beneficiou naturalmente desta redução.
O Bronze final foi a época em que, por toda a Europa, surgiram sociedades cada vez mais complexas, hierarquizadas e eventualmente proto-estatais, dominadas por guerreiros profissionais, uma elite dispondo de armas poderosas... e jóias de ouro maciço.
A par dos grandes povoados de altura, que emergiram na parte final da Idade do Bronze, existe uma rede de pequenos sítios, sem muralhas, cuja cronologia parece, em muitos casos, anteceder a fase de acastelamento e, em outros, ser contemporânea.
Nos arredores do Freixo do Meio não se conhece, até à data, nenhum povoado fortificado desta época. O mais próximo, com os dados atualmente disponíveis, é o Alto do Castelinho da Serra, a cerca de 20 km.
Porém, existem algumas evidências de comunidades da Idade do Bronze, no raio de 10 km: um pequeno povoado aberto, na Courela da Freixeirinha (inédito) e um depósito ritual no cromeleque do Arneiro dos Pinhais e, eventualmente, algumas sepulturas individuais no Barrocal das Freiras/Lobeira.
A deposição ritual, nesta época, de pequenas taças, junto de menires neolíticos, verificou-se igualmente nos menires de S. Sebastião e do Mauriz, em Évora, e no menir da Caeira, em Arraiolos.
No Bronze Final foram produzidas, no Sudoeste peninsular, as chamadas estelas de guerreiro, algumas das quais reutilizaram menires neolíticos. Conhecem-se igualmente materiais da Idade do Bronze no espólio de algumas antas e sepulturas protomegalíticas, implicando uma reutilização desses monumentos.
Fig. 12.15 - Chegada do comércio fenício e impacte orientalizante.
Nas proximidades do Freixo do Meio não se conhece, até à data, nenhum sítio da 1ª Idade do Ferro.
Fig. 12.17- A segunda Idade do Ferro.
Os Célticos
















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