5. O Tempo dos menires

Capítulo 5, onde se fala das origens

 Vinte anos depois: mais do mesmo

Há precisamente vinte anos, a interpretação dos dados disponíveis, nessa altura, permitia-nos destacar dois aspetos fundamentais: a excecionalidade do fenómeno menírico centro-alentejano, no contexto da Península Ibérica, e a cronologia recuada destes monumentos, no processo de neolitização do Sudoeste peninsular. Calado, 2004b

A excecionalidade, mesmo se avaliada apenas em termos de dimensões e quantidade de monumentos, não carecia, como não carece ainda, de demonstração, uma vez que as diferenças de escala são muito notórias (Fig. 5.1 e 5.2).

O busílis estava e, infelizmente, continua a estar, na cronologia. 

Convido o leitor interessado a confrontar os principais indícios, de diferentes tipos, que, nessa altura, alinhei sobre o tema e que me permitiram atribuir a maioria dos menires centro-alentejanos, ao Neolítico antigo/médio; anteriores portanto às mais antigos manifestações do megalitismo funerário regional (sepulturas protomegalíticas e antas).

Resumindo, os principais  indícios eram os seguintes;

1. Em termos cronométricos, dispúnhamos apenas de uma datação de 14C, no menir da Meada, no Alto Alentejo (discutível, como habitualmente, por ter sido obtida sobre amostra de carvão de espécie não identificada);

2. Em termos tipológicos, dispúnhamos dos escassos materiais recolhidos nas escavações dos recintos megalíticos dos Almendres, da Portela de Mogos,  do Vale Maria do Meio e do Xarez (cerâmica decorada e indústrias líticas);

3. Em termos "estratigráficos", dispúnhamos de vários exemplos de reutilizações de menires em antas;

4. Em termos de contexto geográfico, dispúnhamos da relação positiva, nas diferentes paisagens centro-alentejanas, entre a presença/ausência  de menires e de sítios do Neolítico antigo.

Também a manifesta relação de proximidade espacial (e provavelmente cronológico-cultural) entre os menires centro-alentejanos e os concheiros do Mesolítico final dos Estuários do Tejo e do Sado, apontava para cronologias antigas, tal como acontecia na Bretanha.

5. Em termos comparativos, dispúnhamos de informação complementar, em diferentes aspetos (nomeadamente cronológicos), sobre os menires bretões, aqueles que, na fachada atlântica europeia (ou fora dela), apresentam maiores semelhanças com os alentejanos. 

Novas descobertas e novas interpretações ocorridas nestas duas últimas décadas vieram, como veremos, reforçar quer a cronologia dos menires, quer a posição privilegiada destes monumentos nas dinâmicas que acompanharam a emergência das primeiras sociedades agropastoris na região.


Quanto?

Para termos uma noção da densidade relativa de menires, no Alentejo Central, face ao resto do país, basta consultar a Base de Dados do Portal do Arqueólogo, recurso que, apesar de algumas lacunas, creio ser idóneo, pelo menos a titulo de amostragem. 

Dos 337 sítios registados, a nível nacional, 172 localizam-se no Alentejo Central. 


Fig. 5.1 - Densidade de menires, por 1000 Km 2.

A discrepância verificada cresce, se em vez dos menires, considerarmos os recintos megalíticos ou "cromeleques". 

Fig. 5.2 - Densidade de cromeleques, por 1000 km2.

É claro que a discrepância ainda seria muito maior se tomássemos em consideração o facto de os cromeleques alentejanos integrarem um número muito superior de menires e estes serem genericamente maiores. Isto é, se ponderássemos, como fiz para o Alentejo Central, estas variáveis (Fig. 5.3). 
Uma discrepância semelhante divide a Bretanha, em particular o Morbihan, dos restantes territórios franceses: existem menires um pouco por todo o lado, mas de dimensões e em quantidades incomparavelmente menores.

     Fig. 5.3 - Distribuição dos menires no Alentejo Central (em função do peso) (Calado, 2004b).

Nuestros hermanos

Existem menires isolados e recintos megalíticos, noutras áreas da Península Ibérica, embora numa escala muito reduzida, quando comparadas com o Alentejo Central. 

Não contabilizo, nesta comparação, os chamados cromlechs, bastante frequentes, no país basco, uma vez que se trata de monumentos funerários da Idade do Ferro que, na melhor das hipóteses, se poderiam comparar com a necrópole da Tera  Rocha, 2000b e devem ser encarados no contexto das sobrevivências tardia do megalitismo europeu.

Não contabilizo, igualmente, os diferentes tipos de estelas da Idade do Bronze, embora algumas tenham reutilizado menires preexistentes.  Diaz-Guardamino, 2010, 2015; Bueno-Ramirez et al., 2015

Porém, merecem uma referência especial os sítios, recentemente descobertos (e, para já, insuficientemente estudados) nas áreas de Ayamonte (La Torre/La Janera) Linares et al., 2022de Toledo (Totanés). Pereira et al., 2021

No primeiro caso, foram reportadas largas centenas de menires, numa área bastante contida (escassas centenas de hectares); porém, neste caso, estamos perante uma realidade complexa, em que, de acordo com os dados preliminares, os menires “coabitam” com monumentos funerários, de vários tipos, assim como com abundantes afloramentos rochosos; por outro lado, as prospecções intensivas efetuadas permitiram apenas identificar alguns artefatos pouco esclarecedores, em termos cronológicos, nomeadamente percutores e elementos de mós.

Na falta, por ora, de elementos que permitam uma atribuição cronológica sustentada, os autores baseiam-se nas datas disponíveis para os menires do Alto Alentejo, assumindo que “é provável que as primeiras pedras verticais de La Torre-La Janera tivessem sido erigidas durante la segunda metade do VI e/ou V milénios BC, momento que se propõe para o Algarve litoral ocidental e o Alto Alentejo Linares et al., 2021: 125

As plantas em ferradura (assim como as orientações e as posições topográficas) dos presumíveis recintos megalíticos sugerem uma possível relação com os recintos alentejanos. Linares et al., 2021: 126

Além disso, os autores propõem que se trate de um caso de monumentalização da paisagem, correspondendo, os vestígios identificados, a várias épocas, invocando, a propósito, a “reciclagem dos menires nos dólmens, um fenómeno comum no sudoeste peninsular (Linares et al., 2021: 127).

No entanto, a comparação dos vestígios de Ayamonte com os menires alentejanos e algarvios permite, a meu ver, sublinhar algumas diferenças notáveis: na verdade, ao contrário do caso em apreço, os menires portugueses raramente se articulam com monumentos funerários e, sobretudo, foram quase sempre erguidos em áreas sem afloramentos rochosos, implicando muitas vezes, sobretudo no Alentejo, o transporte dos blocos dos seus lugares de origem geológica para lugares isentos de afloramentos. 

Porém, a comparação, neste aspeto, com os alinhamentos de Carnac, é bastante sugestiva e não deixou de ser invocada no referido estudo prévio.

Outra diferença tem a ver com o tipo de matéria-prima; enquanto, no Alentejo, o granito é praticamente exclusivo, no Algarve ocidental, é o calcário e o arenito que dominam. Já os menires de Ayamonte são feitos de grauvaque, material que, até agora, só foi identificado nos menires do Lavajo, igualmente nas proximidades do Baixo Guadiana, e igualmente considerados tardios.

Por último, refira-se que, por enquanto, nas imediações de La Torre-La Janera, se conhece apenas povoamento atribuível ao Neolítico final, ao Calcolítico e à Idade do Bronze. Linares, 2021: 118

Em suma, vamos aguardar os resultados do projeto de investigação que, segundo foi anunciado, ficará concluído em 2027, para uma melhor avaliação deste interessante conjunto megalítico.

No caso do cromlech de Totanés, em Toledo, os blocos são graníticos, de perfis comparáveis aos menires alentejanos, embora a aparente presença de afloramentos integrados no conjunto seja, mais uma vez, um elemento dissonante. Pereira et al., 2021


Por cá

Recapitulando, recordo que a primeira proposta de atribuição cronológica dos menires alentejanos a uma fase que, até então, era considerada como pré-megalítica, Calado, 1990; Calado, 1993b surgiu, nos finais dos anos oitenta, a partir da identificação, a 300 m do recinto dos Almendres, de um sítio com materiais característicos do Neolítico antigo/médio (Fig. 5.4).

Eu coordenava, nessa altura, como técnico de arqueologia, uma pequena equipa de escavação (com, entre outros, o meu amigo Panaiotis Sarantopoulos, recém chegado a Portugal, e que, mais tarde, foi arqueólogo Municipal, na C.M. Évora, e o saudoso António Alegria, que, mais tarde, foi diretor do Museu de Évora), no “cromeleque”, sob a direção de Mário Varela Gomes; nos finais de tarde, enquanto esperávamos que um carro da Câmara Municipal (com o Rui Arimateia) nos fosse resgatar, fui fazendo prospecções nos arredores do monumento e acabei por achar os primeiros materiais de superfície (sílex e cerâmica decorada), a que se seguiram ainda umas breves sondagens, cujos resultados foram entretanto publicados. Gomes, 1994b

Fig. 5.4 -  Cerâmica do "povoado" dos Almendres. Gomes, 1994b: 336


Esse foi, na verdade, o primeiríssimo indício de povoamento do Neolítico antigo, no concelho de Évora, anunciando os muitos que se lhe seguiram, a partir dos inícios dos anos noventa.

Certamente por lapso, apesar de ter sido escavado e publicado, o sítio não costuma constar dos inventários sobre o Neolítico antigo/médio regional.

Como pano de fundo, o modelo partilhado, mesmo que tacitamente, pelos neolitistas portugueses, implicava que, no Neolítico antigo, estávamos perante sociedades simples, com uma base agropecuária rudimentar, ainda não plenamente neolíticas e, por definição, sem capacidade para obras monumentais de grande envergadura. O que, provavelmente, se aplica a quase todas as regiões ibéricas, exceto o Algarve ocidental e, por maioria de razão, o Alentejo central.

Entre nós, a neolitização "obrigava" os investigadores a olhar para Sul e Oriente, de onde vieram indiscutivelmente as novidades económicas e tecnológicas, que a arqueologia documenta, e se presume que tenham vindo também as novidades ideológicas. 

Já a monumentalidade, nomeadamente megalítica, não parece ter origens nas mesmas fontes. 

Quanto aos megalitistas, de entre os raros que olharam para lá da fronteira nacional Gomes, 1982, 1986, 1994b, 2000b,  o foco ditigiu-se naturalmente para Norte, nomeadamente para as Ilhas Britânicas, com cronologias tardias e onde megalitismo e neolitização são praticamente sinónimos. 

A Bretanha não deixou de ser destacada, embora com poucas consequências práticas.

Duas teses de doutoramento seminais, produzidas, nos anos 80 do século passado, nas Universidades de Lisboa e do Porto Gonçalves, 1989; Jorge, 1982, trataram do Megalitismo, no Sul e no Norte de Portugal, respetivamente.

Com perspectivas distintas, concentraram-se ambas no megalitismo funerário, assumindo que era nesta família de monumentos, que se encontrava a génese do fenómeno megalítico. Os menires, tal como na obra clássica do casal Leisner, foram deixados à margem, colados à reconhecida monumentalidade dos grandes dolmens do neolítico final.

A partir da descoberta do povoado dos Almendres, a revisão dos dados publicados, um extenso programa de prospecções, à escala regional, e a escavação de alguns monumentos e sítios, a par da comparação com outras regiões (mais uma vez, com destaque para a Bretanha), vieram, nos anos seguintes, contribuir para a solidez genérica do modelo cronológico apresentado. Calado, 2004b


Atrás dos tempos, vêm tempos

Como seria de esperar, nos últimos vinte anos, houve notáveis avanços, em várias frentes, no que diz respeito à cronologia dos menires alentejanos.

Em termos de cronologia absoluta, destaca-se o menir de Patalou, no Alto Alentejo, onde foi datada “uma amostra de madeira carbonizada obtida no interior do alvéolo (…) que calibrada resulta em Cal BC 4340” Oliveira, 2016 e que, levada à letra, implica uma cronologia dos inícios do nebuloso Neolítico médio.

Novidade foi também, no Alto Alentejo, a descoberta dos primeiros povoados com materiais atribuíveis, sem reservas, ao Neolítico antigo/médio Oliveira, 2006, confirmando a reiterada relação espacial entre as áreas onde existem menires e o povoamento dessa época. E confirmam, igualmente, o padrão identificado no Alentejo Central, no que diz respeito à relação entre os “povoados” e os afloramentos graníticos, Calado, 2002d ou entre os menires e o festo Tejo-Guadiana, caminho que, como vimos, se prolonga, para Leste, até ao interior peninsular. Cerrillo, 2008

Já em Reguengos de Monsaraz, foram concluídos os trabalhos de campo e gabinete e está entregue para publicação, a respetiva Carta Arqueológica; sem surpresa, surgiram novos menires e novos sítios do Neolítico antigo Mataloto et. al., no prelo.

Nos arredores de Évora, onde se concentram os três maiores recintos megalíticos da Península Ibérica, foram descobertos e mais ou menos intervencionados, mais alguns sítios do Neolítico antigo Santos e Carvalho, 2007; Gaspar, 2009b; Gaspar et al., 2009; Albergaria, 2007, todos eles do tipo que designei como “povoados megalíticos”, por se implantarem sistematicamente adossados a afloramentos graníticos destacados e, claro, por serem, na minha perspectiva, genericamente contemporâneos dos mais antigos monumentos megalíticos.

Em Mora, foi entretanto publicada a Carta Arqueológica concelhia Calado et al., 2012; como seria de esperar, surgiram finalmente os sítios do Neolítico antigo/médio, equilibrando a balança com os menires e recintos que já eram conhecidos e com novos menires entretanto descobertos .

Convém referir que um dos povoados descobertos (Fanica) se localiza a escassos 3km de um conjunto de menires, o provável recinto do Alto da Cruz. Alvim e Rocha, 2011; Calado, 2015

Também em Arraiolos, novos trabalhos de prospecção acrescentaram, para além de alguns menires inéditos (um deles, segundo parece, reutilizado numa anta), três “povoados megalíticos” que foram atribuídos ao Neolítico antigo/médio, para além de uns quantos que, por limitações da amostra, foram classificados como Neolítico/Calcolítico. Rocha e Santos, 2015

Importante, mas no capítulo da longevidade dos menires, foi a escavação do menir da Caeira, identificado por Rui Mataloto, nos finais dos anos noventa do século passado. Calado, 2004b 

A descoberta de um conjunto de taças votivas da Idade do Bronze, depositadas sob o menir tombado, Rocha, 2022a veio confirmar e esclarecer  os resultados obtidos na escavação dos menires de S. Sebastião Calado, 2004b  ou na revisão dos materiais do Arneiro dos Pinhais. Mataloto, 2017

No Redondo, ainda inéditos, surgiu um novo menir, junto à Courela do Zambujeiro e um novo sítio do Neolítico antigo, escavado no contexto da obra do TGV, próximo do sítio dos Atalhos Calado e Mataloto, 2002. O menir dista cerca de 3km dos “povoados”.


Fig. 5.5 - Menir da Courela do Zambujeiro (substituir imagem)


Outra confirmação, mas pela negativa, resultou do desenvolvimento de novas prospecções, bastante intensivas, nos concelhos de Borba e Vila Viçosa Calado e Mataloto, 2020, tendo em vista a publicação das respetivas Cartas Arqueológicas; no primeiro caso, os trabalhos de campo estão concluídos e a publicação está em preparação.

Em ambos os concelhos, estão, até à data, ausentes os menires. Do Neolítico antigo, apenas se conhece um sítio Calado, 1995-1996 e um ou outro achado avulso Calado e Mataloto, 2020.

Também no Alandroal, de que tinha sido feita uma primeira Carta Arqueológica Calado, 1993a, em 1993, foi produzida uma nova versão, atualizada com os dados das prospecções e escavações no Alqueva e de novas prospecções. Calado e Roque, 2014 O resultado confirma, mais uma vez, a relação entre menires e povoamento do Neolítico antigo, estando ausentes os primeiros e muito vestigiais os segundos. 

A única exceção é o povoado de fossos de Juromenha 1, do Neolitico final, onde se recolheu um pequeno conjunto de fragmentos, muito rolados, de cerâmica decorada, tipologicamente atribuível ao Neolítico antigo. Mataloto et al., 2018 

Uma situação comparável, aparentemente, ao sítio da Foz do Enxoé, em Serpa, também junto ao Guadiana. 

Em suma, nos últimos 20 anos, acentuou-se a imagem que, na verdade, já era perfeitamente perceptível muito antes: menires e neolítico antigo ocupam, no Alentejo Central e no Alto Alentejo, nichos coincidentes.

Um indicador cronológico mais direto resultou das escavações no recinto das Fontaínhas, em Mora. Calado, Rocha e Alvim, 2007 Junto aos menires, foram recuperadas cerâmicas claramente atribuíveis ao Neolítico antigo (decoração plástica, incisa e impressa), para além de indústria microlaminar, incluindo trapézios (Fig. 4.5). Quanto aos trapézios, apesar das dúvidas sobre a posição cronológica destes artefatos face aos segmentos, na transição Mesolítico-Neolítico, recordo que estão presentes nos níveis mais antigos do Neolítico da Gruta do Caldeirão.  Zilhão, 2021: 754, Fig. 7, nº 5

No que diz respeito às cerâmicas, destaca-se, em termos do potencial de datação relativa, a presença de asas bífidas. Simões, 1999; Sousa e Carvalho, 2015; Carvalho, 2019; Valera et al., 2020: 190. Este tipo de elemento de preensão está abundantemente registado em estações da Estremadura (nomeadamente Furninha ou S. Pedro de Canaferrim) e está igualmente bem representado no povoado, recentemente publicado, da Senhora da Alegria, com datas do terceiro quartel do 6o milenio AC (5470-5310 cal AC a 2σ). Valera et al. 2020: 63

        
   Fig.5.6 - Materiais da escavação do recinto megalítico das Fontaínhas (Calado, Rocha e Alvim, 2007)

Outro recinto megalítico, entretanto objeto de escavações, foi o do Alminho, em Ponte de Sor, localizado, aliás, nas proximidades do sítio neolítico do Bernardo, também intervencionado. Em ambos os casos, foram recuperados artefatos atribuídos ao Neolítico antigo/médio Deus, 2008 e, como hipótese, também ao Mesolítico.

Fig. 5.7 - Cerâmica do Alminho. (Deus, 2008: 111) 

Refiro, finalmente, a descoberta, em Viana do Alentejo, de dois menires decorados, ambos de grandes dimensões, relacionados, como habitualmente, com manchas graníticas Galamba e Baião, 2022. Nas imediações, identifiquei recentemente um sítio do Neolítico antigo (Monte das Pedras), ainda inédito.

B

                                Fig. 5.8 – A: Joaquim Fonseca e o menir de Álvaro Afonso; B: pormenor de gravura em baixo-relevo


Is there anybody out there?

Já fora da nossa área geográfica, em Freixo de Numão, destaca-se a presença de um possível menir, aparentemente descontextualizado, na mesma a área onde foi identificado (por baixo dos restos de uma villa romana) o já mencionado povoado neolítico antigo do Prazo, também com uma possível génese mesolítica e um dos escassos sítios de ar livre, dessas épocas, conhecidos, na região. Monteiro Rodrigues, 2011; Calado, 2015: 245

 

Fig. 5.9 - Menir do Prazo (Vieira, 2015: 318)

Outro dado relevante, surgido nos últimos anos, foi a identificação de menires pré-existentes, inseridos na construção de dolmens, em vários monumentos da Andaluzia e Extremadura. Gavilán e Vera, 2005; Vera et al., 2010; Bueno Ramírez e Balbín Behrmann, 2004;  Bueno Ramirez et al., 2007; Bueno Ramírez et al. , 2019

 Por exemplo, “os resultados da escavação do dólmen de Casas de Don Pedro confirmaram as teorias de Calado, uma vez que se trata claramente de menires erguidos antes da construção do túmulo megalítico, e que muito possivelmente funcionavam como marcos de espaços com carácter sagrado que, com o passar do tempo, se tornaram locais funerários após a adição de novos ortóstatos para configurar o túmulo megalítico.” Gavilán e Vera, 2005: 538-53

Note-se que, já sem surpresa, na Bretanha, a reutilização dos menires na construção de dolmens, implicando uma clara anterioridade relativa, para os primeiros, foi sendo, nos últimos anos, ampliada, com novas observações. Scarre, 2015: 79  

Sublinho que Serge Cassen sugeriu, baseado nos temas iconográficos, uma ligação entre os grandes menires decorados e o Mesolítico ou, no mínimo, uma economia (e uma mitologia) de caça-recoleção, fortemente ligada aos recursos marinhos e ao mar propriamente dito, numa época em que a transgressão flandriana invadia os litorais. Cassen e Vaquero-Lastres, 2003, 2004; Cassen et al., 2019


Tanto mar...

Na verdade, a comparação entre os menires alentejanos e os grandes menires bretões Cassen et al., 2019: 316, assim como entre os recintos de ambas as áreas Large e Mens, 2017: 53, é muito sugestiva, em vários aspetos, nomeadamente:

- na matéria-prima maioritariamente utilizada (rochas granitóides), nas formas (tendencialmente arredondadas), na técnica de execução das gravuras (em baixo-relevo) e nos motivos representados (em particular, os báculos e a associação entre o crescente lunar e o quadrilátero). Calado, 2004b; Cassen, 2009; Cassen et al., 2019

- na descontextualização geológica 

- na planta dos recintos megalíticos (em ferradura, aberta da Nascente)

 

Fig. 5.10 - Comparação entre os motivos gravados nos menires bretões e alentejanos (Cassen et al., 2019: 316)

 

 B

          Fig. 5.11 – A: Os recintos de Er-Lannic (Gouezin, 1998: 6, 7, adaptado); B: Plantas dos recintos alentejanos melhor conservados (Calado, 2004b)

 


Fig. 5.12 - Plantas de quatro recintos megalíticos alentejanos (Portela de Mogos, Vale Maria do Meio, Tojal  e Vale d’El Rei), sobrepostas à planta dos Almendres, com manipulação das escalas (Calado, 2015)

 

Já vimos, no Capítulo anterior,  algumas analogias genéricas, entre o Mesolítico final do Alentejo Central e da Bretanha. Essas analogias, sobretudo no que respeita às indústrias líticas, explica, aliás, a razão pela qual importantes mesolitistas franceses se interessaram pelos concheiros do Tejo/Sado Marchand, 2001b, 2001c; Roche, 1960, 1962, 1964, 1989

Ao contrário do Alentejo Central, na Bretanha dispomos atualmente de várias séries de datações radiocarbónicas, relacionáveis com a transição Mesolítico-Neolítico, nomeadamente em Locmariaquer, Carnac, Hoedic e Beltz. Cassen et al., 2009: 747; Blanchard et al, 2025; Large, 2014Hinguant e Boujot, 2009; 26; Scarre, 2015

Estas datações colocam os primeiros menires bretões algures entre os finais do VI e a segunda metade do V milénios a.C., dentro da baliza cronológica do nosso Neolítico antigo, tal como acontece com os menires do Alto Alentejo.


Mais Alentejo

Como vimos, existem novos dados arqueológicos indiretos que permitem, razoavelmente, considerar, para o arranque do megalitismo não funerário, no Alentejo Central, uma cronologia dentro do Neolítico antigo tout court (5500-4500 a.C.); é provável que os pequenos recintos megalíticos e alguns menires isolados, na periferia ocidental da região, correspondam às fases mais iniciais do processo; em contrapartida, os grandes recintos de Évora, sobretudo os Almendres, devem ter cronologias mais baixas, aceitando, claro, que a dimensão e o grau de dificuldade envolvido na construção,  refletiu o crescimento demográfico e o aumento da complexidade das primeiras sociedades agro-pastoris.

Em termos cronológicos, sublinho a ausência de cerâmica com “sulco abaixo do bordo” (o fóssil-diretor mais citado, a propósito do Neolítico médio regional) Diniz, 2003c, 2009; Carvalho, 2008; Neves, 2010, 2015, 2019; Neves e Diniz, 2014, de entre os materiais recolhidos em escavação e prospecção, nos menires e recintos megalíticos centro-alentejanos.

Até à data, no Alentejo Central, estão presentes, em associação com os menires, apenas as cerâmicas com decoração impressa, incisa e plástica (Almendres, Xarez, Fontaínhas), nomeadamente as asas bífidas, acima comentadas.

Quanto aos materiais líticos associados nos menires centro-alentejanos (lamelas e geométricos, de entre os melhor representados), vale a pena destacar a flecha transversal do Vale Maria do Meio, artefato claramente vinculado ao Neolítico antigo regional (e muito bem documentado no Mesolítico bretão), também presente nos "povoados" eborenses da Valada do Mato e do Penedo do Ouro mas, sobretudo, muito bem representado no espólio do extraordinário sítio neolítico das Casas Novas (Coruche), com uma data radiocarbónica da primeira metade do VI milénio a.C..

Fig. 5.13 - Pontas de flechas transversais das prospecções da Valada do Mato e do Penedo do Ouro (Évora) (Calado, 2004b: 359)

Os responsáveis pela escavação das Casas Novas, observaram que “face aos indicadores artefactuais recuperados, pode­mos afirmar que a principal ocupação remonta ao Neo­lítico antigo cardial” o que “corresponde aos primeiros momentos da neolitização da fachada atlântica da Península Ibérica.” Gonçalves e Sousa, 2018: 254

Na mesma obra, anotaram que é "nas áreas de maior concentração de cerâmica decorada cardial que se concentram as pontas de seta transversais" Gonçalves e Sousa, 2018: 221

A propósito, convém não esquecer que, na Valada do Mato, foram datadas três amostras, das quais apenas uma (a mais recente) foi considerada segura; porém, esta data (na transição do VI para o V milénios) corresponderia, segundo Mariana Diniz, à fase final da ocupação do sítio, ficando, naturalmente, em aberto, a data de fundação; por outro lado, as datações descartadas, feitas sobre osso humano carbonizado, a serem válidas, apontariam para meados do VI milénio a.C. Diniz, 2007

No capítulo seguinte, voltarei mais demoradamente a esta questão, fundamental para o posicionamento relativo do Alentejo Central, no processo de neolitização do SW peninsular.

Parece-me relevante o facto de que a atribuição dos menires alentejanos, ao Neolítico antigo/médio, já há muito se tornou consensual, entre os escassos megalitistas ibéricos que, nas últimas décadas, se têm dedicado ao tema, embora, como seria de esperar, com algumas nuances. Bueno Ramirez et al., 2015a; Gomes, 2002; Oliveira, 2016; Rocha, 2005; Alvim, 2021; Prada e Cerrillo, 1996-2003

Anoto, além disso, a posição de notáveis megalitistas europeus, que se têm esforçado por obter uma visão de conjunto, nomeadamente Serge Cassen, acima referido, e Chris Scarre. Este último escreveu que, no noroeste da França e no sudoeste da Península Ibérica, as limitadas evidências cronológicas disponíveis sugerem que os menires podem ter sido os mais antigos monumentos megalíticos, anteriores às primeiras câmaras funerárias.” Scarre e Torben, 2016: 237


Ordenar o Caos, no Alentejo Central

A falta de datações absolutas torna difícil ordenar, no tempo, a construção dos menires e recintos megalíticos do Alentejo Central.

Há vinte anos, baseado nas diferenças observadas entre a área de Évora (e considerando a sua centralidade, na geografia regional) e as zonas periféricas, optei por propor uma concentração inicial do povoamento neolítico, naquela área e, numa segunda fase, uma dispersão pelas periferias.

Porém, tendo em conta os novos dados, entretanto surgidos, em particular no Baixo Tejo, creio que faz mais sentido interpretar a colonização neolítica do Alentejo Central, como uma “onda de avanço”, a partir da periferia, terminando numa concentração diferenciada nos arredores de Évora e eventualmente, dispersando, a partir daí para outras áreas interiores. A quantidade e a dimensão dos menires e recintos, nesta área, exige que se considere um sólido crescimento demográfico e uma certa concentração do povoamento.

Se nos focarmos especificamente na área de Évora, e tomarmos em consideração um gradiente de dificuldade técnica, tendo em conta a distância (e o declive) entre os monumentos e as fontes de matéria-prima (os granitos), assim como a dimensão dos conjuntos, a sequência temporal lógica seria Vale Maria do Meio, Portela de Mogos e Almendres.

Por outro lado, podemos considerar alguma diacronia entre os grandes menires isolados (alguns decorados) e os recintos, supondo que a ereção de novos monumentos, ou a complexificação dos existentes, deve corresponder ao presumido crescimento demográfico, teríamos primeiro os menires isolados e, só depois, os recintos. O facto de se destacar, nos recintos melhor conservados, um menir de maiores dimensões, permite conjeturar um fenómeno de complexificação, transformando alguns menires, originalmente isolados, em recintos. Todas estas conjeturas ficam, entretanto, em aberto, aguardando novos dados.


Ordenar o Caos, na Europa atlântica

Para além destas dúvidas,  persistem, no atual estado dos nossos conhecimentos, muitas incertezas a respeito da antiguidade relativa dos menires, entre a Bretanha e o Alentejo Central ou o Algarve.

Defendi, há uns anos, a hipótese de um gradiente cronológico, de Sul para Norte, em que o Algarve ocidental teria os menires mais antigos, seguido pelo Alentejo Central e, logo depois, pela Bretanha; a par da cronologia, teríamos também um gradiente, no que respeita ao número e dimensão dos menires. Calado, 2006b

Na comparação entre o megalitismo menírico, no Alentejo Central e na Bretanha, convém, em todo o caso, anotar, para além da escala, algumas diferenças, cujo significado, por ora, nos escapa, mas em relação às quais talvez se deva considerar, entre outros, o fator tempo. Creio ser o caso dos grandes alinhamentos bretões, aparentemente mais tardios que as grandes estelas e que não têm correspondência no Alentejo Central; nestes monumentos, os menires apresentam formas menos regulares e, em alguns casos, foram retirados da geologia local. Chauris, 2020; Sellier, 2023

De resto, quanto ao povoamento do Neolítico antigo, com cronologias que arrancam na segunda metade do VI milénio a.C., segundo G. Marchand,  "coincidiria com o impacto da Cerâmica Impressa sobre o Retziano, por volta de 5400 a.C." Marchand, 2003: 193

De fato, a neolitização da Bretanha é tradicionalmente considerada devedora do encontro entre a corrente reno-danubiana e  a corrente mediterrânica, Jorge, 1982com diferenças que se manifestam, na cultura material, nomeadamente na arquitetura e no urbanismo. 

Quanto à ligação ao mundo mediterrânico, tendo em conta a presença de cerâmica impressa, incluindo cardial, no Sudoeste francês, a tendência da maioria dos autores é aceitar uma rota terrestre, a partir do Sul de França; de facto, a partir da área de Montpellier arranca um desses grandes caminhos de pé enxuto que segue o festo entre o Rhone e o Gironde, pelo Maciço Central, numa primeira parte e, entre o Loire e o Charente, no troço final.   Não se pode, porém, excluir liminarmente a rota atlântica, passando pela Península Ibérica.

Comparativamente, a densidade de sítios habitacionais, atribuíveis ao Neolítico antigo, é muito inferior à do Alentejo Central. Porém, tendo em conta os padrões de povoamento comuns no mundo reno-danubiano, tudo indica que estamos, na Bretanha, perante verdadeiras aldeias, enquanto no Alentejo Central o povoamento, muito menos concentrado, se organizava em quintas familiares.

É certo que a maioria dos povoados bretões tem sido identificada em trabalhos de salvamento, sendo difíceis de descobrir, devido a condições pós-deposicionais, relacionadas com o tipo de implantação paisagística. Tinevez et al., 2013; Tinevez, 2018

Considerando as diferenças atestadas na cultura material neolítica e as semelhanças, em termos de megalitismo menírico, entre o Alentejo Central e a Bretanha,  somos tentados a atribuir estas semelhanças ao universo cultural dos últimos caçadores-recoletores. Até porque os menires estão virtualmente ausentes das áreas consideradas, por razões geográficas, como "focos emissores" da neolitização, quer na Bretanha (Bacia de Paris), quer no Alentejo Central (Valência). 

Na verdade, a diferença mais notória entre os menires bretões e alentejanos tem a ver com a escala. Esta diferença remete, à partida, para o potencial de mão de obra disponível, em ambas as regiões, compatível com os tipos de povoamento acima referidos.

Em todo o caso, a própria geologia pode ser, parcialmente, responsável pela impressionante dimensão dos grandes menires bretões: os granitos aparecem expostos, sobretudo na linha de costa, em blocos sólidos que podem atingir grandes dimensões. Chauris, 2020

Já no Alentejo Central, onde a atividade de extração de pedra foi, em épocas históricas, aparentemente, menos intensa que na Bretanha, não é fácil encontrar, à superfície, blocos, sem diaclases, superiores aos 7 m, isto é, as dimensões dos dois maiores menires, na Península ibérica. O famoso Grand Menhir Brisé mede cerca de 20 m.

Quanto ao Algarve, região em que os menires têm uma personalidade muito própria, podemos apoiar-nos, desde logo, nas datações OSL obtidas na Quinta da Queimada, Calado et al., 2004 (dados que necessitam certamente de confirmação) para sustentar uma anterioridade relativa do fenómeno.

Por outro lado, convém tomar em conta o facto de que " um dos pequenos menires da Caramujeira (m19) foi descoberto assente numa superfície argilosa e coberto por uma camada arqueológica que continha (...) material datável do Neolítico Antigo". Gomes 1997 : 175

Esta observação pode implicar, de facto, uma anterioridade do menir em relação ao povoado, dando razão a David Calado que sugeriu uma origem mesolítica para os menires algarvios. D. Calado, 2000a, 2000b

Na Costa Sudoeste, foram, entretanto, publicadas referências aos pequenos menires registados em Vale Pincel 1, que, segundo os responsáveis pelo seu estudo, integrariam um “alinhamento em arco destinado, por hipótese, a delimitar simbolicamente um dos núcleos de habitat.” Silva e Soares, 2015: 657

No que diz respeito a estes menires, a única possibilidade de atribuição cronológica, atendendo à polémica sobre a cronologia do sítio, Zilhão, 1998 seria o Neolítico antigo ou o Mesolítico e, de certo modo, esta disjuntiva aplica-se igualmente ao caso do Prazo, a não ser que se admita que o menir é de época romana... Monteiro-Rodrigues, 2011

Para tentar colocar alguma ordem na caserna, Chris Scarre e Marta Guardamino-Uribe, da Universidade de Durham, puseram em marcha um projeto internacional, cujo objetivo é obter datas OSL (Luminescência Óptica Estimulada) de menires de várias regiões megalíticas europeias.

No Alentejo Central, foram recolhidas amostras no menir do Mauriz (Évora) num dos menires do recinto megalítico do Tojal (Montemor-o-Novo), Calado, 2004b monumentos que, aparentemente, conservavam intactos os alvéolos e as estruturas de implantação e que, por isso, eram, à partida, idóneos para aplicação desse método. 

Os resultados serão apresentados num Congresso Internacional a realizar em Durham, em Agosto de 2027. Aproveito para agradecer aos organizadores o convite para apresentar os resultados referentes ao megalitismo e à neolitização do Sul de Portugal.

 

 

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