3. A encruzilhada dos três caminhos


Um Alentejo Central

O Alentejo, como região administrativa, divide-se, desde 1976, em Alto Alentejo, Alentejo Central, Baixo Alentejo e Alentejo Litoral; como seria de esperar, os critérios que presidiram a esta organização do território radicam sobretudo em especificidades geográficas, a que se somam algumas especificidades históricas.

Grosso modo, o Alentejo Central corresponde a uma "mesopotâmia", delimitada pelos três maiores rios do Sul de Portugal: o Tejo, o Sado e o Guadiana.

É certo que, em termos administrativos, o Alentejo Central corresponde, efetivamente, aos limites do atual distrito de Évora; porém, em termos de paisagem natural, ele pode ser balizado, a Sul, pela cumeada da Serra do Mendro e, a Leste, pelo rio Guadiana (deixando de fora o concelho de Mourão). Num caso e noutro, trata-se de fronteiras naturais, impostas pela geografia, que, como veremos, parecem ter tido implicações na organização do povoamento, em várias épocas e, em particular, naquela que aqui nos ocupa, isto é, no contexto da instalação das primeiras sociedades camponesas (neolitização) e da construção dos primeiros monumentos megalíticos (megalitização).

Note-se que a Leste do Guadiana e a Sul do Mendro, rareiam quer os menires, quer os sítios do Neolítico antigo. Quanto aos primeiros, as exceções, muito pontuais, são os menires da Horta dos Canos do Meio, em Cuba Mantas, 1986, do Mau Cabrão, Caetano, 1986; Calado, 2004b da Tapada da Morena, Cortes e Calado, 2018  e  das Navalhas Costa e Palhete, 2016, na Vidigueira, assim como o menir da Aldeia dos Testudos, em Serpa Lopes et al., 1997: 34; o povoado da Foz do Enxoé, também em Serpa, localiza-se a menos de 3km daquele menir e inclui, no seu espólio, cerâmicas com decoração impressa e plástica. Soares et al., 1994: 171; Diniz, 1995: 687. Mais a montante, a Leste do Guadiana, temos dois sítios do Neolítico antigo/médio (Fábrica da Celulose e Pipas) Silva, 1989, que, por acaso, foram os primeiros sítios de ar livre identificados, no distrito de Évora.

Quanto ao limite ocidental, temos uma fronteira menos nítida, mas não menos efetiva, formada pelas Bacias Terciárias do Tejo e do Sado; esta extensa área constitui uma verdadeira terra de ninguém, separando (ou ligando) o Alentejo Central e os Estuários do Tejo/Sado.

Porém, do lado Norte, os limites são ainda menos nítidos, em termos paisagísticos, havendo uma certa continuidade que, como veremos, se reflete também nos dados relativos à neolitização e ao megalitismo menírico. Mesmo assim, existem diferenças: por alguma razão, até 1976, o Alentejo estava dividido em apenas duas províncias: o Alto Alentejo, com capital em Évora, e o Baixo Alentejo, com capital em Beja.

É claro que traçar fronteiras e definir regiões, nunca é uma ciência exata e, neste caso, estou consciente de que, para o que aqui interessa avaliar, o Alentejo Central é apenas uma ferramenta de análise e de gestão dos dados e que outras fronteiras poderiam sempre ser traçadas.

                      

Fig.3.1 - Maquete do Alentejo Central, exposta no MEGA- centro interpretativo do megalitismo alentejano (Montado do Freixo do Meio). Pontos vermelhos: Concheiros do Tejo e do Sado. Ponto amarelo: Freixo do Meio 1


Entre Águas

Por outro lado, se temos algumas dificuldades em definir os limites do Alentejo Central, as dúvidas dissipam-se quando se trata de identificar o centro de gravidade da região; de facto, em várias épocas, e particularmente no início do Neolítico, o povoamento do Alentejo Central parece, como veremos, ter-se polarizado nas proximidades do ponto onde se encontram as bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana e as respetivas linhas de festo (ou divisores de águas, isto é,  as linhas que separam as bacias hidrográficas).

Esse ponto localiza-se, concretamente, nos arredores de Évora (junto ao Monte da Oliveirinha).


Fig.3.2– Menir da Oliveirinha (desaparecido); com 5, 30 m, era o maior menir do concelho de Évora e localizava-se junto ao ponto de encontro das bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana. (Gonçalves, 1975)

As linhas de festo são, evidentemente, vias naturais de trânsito, de primeira grandeza, fundamentais antes da romanização do território, época em que, pela primeira vez, a construção de pontes permitiu fazer estradas menos dependentes das condicionantes da paisagem natural. 

Note-se que, recentemente, alguns autores, em textos sobre a neolitização e o megalitismo, no ocidente peninsular, procuraram estabelecer relações relevantes entre sítios e caminhos naturais.  Gonçalves e Andrade, 2020, Deus, 2002: 92,93; Soares, 2020: 308; Valera et al., 2020: 196

É claro que um exercício desse tipo pode e deve ser efetuado em várias escalas.

Se olharmos para o conjunto da Península Ibérica, vemos que ela apresenta, na sua maior parte, uma pendente Este-Oeste, sendo esta a direção dominante dos principais rios peninsulares e, claro, das respetivas linhas de festo. A principal exceção é o Ebro, que corre em sentido transversal, conectando o Leste peninsular ao Mediterrâneo.

                          

                                                                 Fig. 3.3 - As principais bacias hidrográficas peninsulares e o festo “central”

A linha de festo que acompanha, pelo lado meridional (e oriental), a bacia hidrográfica do Tejo é, claramente, o mais longo caminho "de pé enxuto", em termos peninsulares (na mesma medida em que o Tejo é o maior rio ibérico) e, ao contrário das grandes linhas de festo, mais a Norte, que atravessam orografias mais acidentadas, esta beneficia de uma transitabilidade sem grandes obstáculos.

Curiosamente, ou não, pode dizer-se que este longo caminho termina junto ao Vale de Ambrona, no ponto onde se “tocam” as bacias do Tejo, do Ebro e do Douro (e as respetivas linhas de festo/caminhos), e onde a neolitização, além de particularmente intensa, chegou em datas relativamente precoces. Rojo et al., 2008

No Mesolítico final, quando, à escala ibérica, os concheiros do Tejo e do Sado se destacaram, como veremos (Capítulo 4), em vários aspetos, este era o principal caminho natural, por via terrestre, sem obstáculos de maior, para o interior peninsular. Até que ponto foi mais ou menos usado, nesta fase, é um tema, por ora, em aberto. Cerrillo et al., 2011

Menos duvidoso é o facto de esta ter sido, muito provavelmente, uma das principais vias de penetração do neolítico no interior peninsular, tendo, em última análise, como foco de origem, as populações mesolíticas do Tejo e do Sado, em vias de neolitização; no quadro da interiorização do povoamento neolítico, este caminho entronca, como referi, com um outro, do mesmo tipo, ligando o interior à área valenciana, acompanhando os limites meridionais da bacia do Ebro.

As linhas de festo principais (as que separam as bacias dos rios principais) são, obviamente, a espinha dorsal de uma rede dendrítica de caminhos que seguem as linhas de festo secundárias. 

Claro que, em termos hodológicos, há que acrescentar outros elementos da paisagem natural que dificultam ou facilitam a transitabilidade, nomeadamente montanhas, portelas ou vaus.

Razões de ordem económica e social têm sido invocadas para a existência, historicamente comprovada, de vias transversais às linhas de festo, implicando a travessia de rios com alguma entidade, como é o caso da famosa Via de la Plata, associada, em parte, à transumância, e à qual parece sobrepor-se a dispersão das estelas decoradas da Idade do Bronze. Diaz-Guardamino, 2015

Mas, para além dos caminhos, importa valorizar as encruzilhadas; na perspectiva da hodologia natural que esbocei acima, destacam-se os pontos em que três rios (e as respectivas linhas de festo) se encontram. Em Portugal continental, se considerarmos apenas os maiores rios, temos quatro destas encruzilhadas. 

A identificação e a valorização destas encruzilhadas de três caminhos remonta, certamente, a épocas muito antigas, uma vez que o conceito está claramente na origem dos atributos da deusa grega Hécate Trioditis ou, para os romanos, Trivia. 


  Fig.3.4 – Principais "encruzilhadas de três caminhos", em Portugal continental. 

Alentejo Estuarino

É evidente que o caráter "interior" do Alentejo Central é uma ilusão provocada pelas atuais fronteiras administrativas. Para uma contextualização adequada da região, é preciso prolongar, até ao litoral, o respetivo enquadramento cartográfico, incluindo, por isso, os estuários do Tejo e do Sado e, naturalmente, a Península de Setúbal, cuja ligação ao interior alentejano coincide, como se viu, com a linha de festo Tejo-Sado.

           Fig.3.5 – Distribuição dos menires no Alentejo Central. A traço negro, os limites administrativos; a traço interrompido, as linhas de festo principais. (Calado, 2004b)

A


                                BC

Fig. 3.6 – A: Europa mesolítica: 1. Tejo/Sado; 2. Bretanha; 3. Região valenciana (Adaptado de Grünberg, 2016). B: Distribuição do povoamento do Mesolítico final, no Centro-Sul de Portugal (Araújo, 2003: 103); : C: Relação entre os territórios do Mesolítico Final e o Alentejo Central. (Adaptado de Peyroteo, 2016)

Um indício de uma relação privilegiada entre a Península de Setúbal e o Alentejo Central, embora de uma época mais tardia, é o facto de Sesimbra concentrar o maior conjunto de placas de xisto alentejanas, fora do Alentejo propriamente dito… Calado et al., 2009

À parte constituir uma via natural de trânsito que axializa a região estuarina, a linha de festo Tejo/Sado pode ter desempenhado igualmente o papel de fronteira (ou de "ponto" de encontro) entre os territórios explorados pelas comunidades mesolíticas do Tejo e do Sado.

Esta conexão incontornável entre os Estuários e o Alentejo Central, apoia-se, sobretudo, na geografia, mas também, como tentarei demonstrar, na arqueologia.

No caso do Estuário do Tejo (no do Sado, temos uma situação algo diferente), os concheiros localizam-se todos na margem esquerda, sugerindo que, apesar de certamente permeável (o sílex era provavelmente obtido na Estremadura), o Estuário parece ter funcionado como fronteira natural.

Essa separação física foi, aliás, um dos argumentos que levaram João Zilhão, e seguidores, a considerar que os supostos “colonos pioneiros” neolíticos, vindos de fora da região, se instalaram, na Alta Estremadura, em “enclaves” estrategicamente afastados dos territórios dos últimos caçadores-recoletores.

Para além da relação mais que provável, entre os concheiros mesolíticos e o seu hinterland imediato, há que considerar os já mencionados “povoados” sazonais (muitos e muito extensos, descobertos nos últimos anos) do Neolítico antigo/médio, também na margem esquerda do Baixo Tejo, cuja complementaridade com os “povoados” dessa época, no Alentejo Central, me parece expectável e a que voltarei mais à frente, com mais detalhe.


Há mapas e mapas...

Se dermos uma volta, não exaustiva, pela cartografia utilizada, nos últimos tempos, para representar o povoamento neolítico antigo/médio, em Portugal, apercebermo-nos de até que ponto os mapas podem distorcer ou escamotear os dados que se pretendem relacionar espacialmente.

Por um lado, esse enviesamento resulta da seleção dos sítios a representar; no Alentejo Central, o silenciamento cartográfico da grande maioria dos sítios publicados, como adiante veremos, tem reduzido, com frequência, a neolitização da região, ao sítio da Valada do Mato e ao do Xarez 12, na melhor das hipóteses.

Fig. 3.7 - 1: Cardial e boquique no Neolítico antigo português: Mapa A: sítios cardiais 12. Gruta do Escoural (Montemor-o-Novo); Mapa B: sítios com boquique  24. Valada do Mato (Évora); 25. Xarês 12 (Reguengos de Monsaraz). Carvalho, 2019: 12

António Faustino de Carvalho, num trabalho relativamente recente Carvalho, 2019, sobre a cerâmica do Neolítico antigo, publicou dois mapas (Fig. 3.7) (um com a cerâmica cardial e outro com a cerâmica de tipo “boquique”, ambas típicas do Neolítico antigo regional). Num e noutro, o destaque vai todo para a Alta Estremadura, enquanto o Alentejo Central aparece como região marginal.

Porém, o facto é que a cerâmica cardial está presente, no Alentejo Central, para além da Valada do Mato, em vários outros sítios publicados Calado, 2004b, e, como veremos, também no Freixo do Meio 1, numa percentagem semelhante ao sítio de Casas Novas que, esse sim, mereceu ser cartografado (suponho que, basicamente, por ter uma data antiga).

É estranha a inclusão da Gruta do Escoural, atendendo às circunstâncias e à dimensão do achado.

Fica difícil também entender a inclusão de Vale Pincel 1, onde a cerâmica cardial, segundo parece, é apenas vestigial (mais uma vez, esta inclusão deve-se provavelmente às datações radiocarbónicas.

Fig. 3.8 - Circulação de cerâmica cardial no VI milénio a.C., entre o Algarve ocidental (Vaso 1 do Padrão; Carvalho 2008: est. 73, n.º 1, adapta­da) e a Estremadura Portuguesa (Vaso XXI da Galeria da Cisterna da Gruta do Almonda; Carvalho 2008: est. 39, n.º 2, adaptada). Carvalho, 2019: 19

No mesmo trabalho, foi publicado outro mapa, ainda mais radical, que traça a linha de circulação da cerâmica cardial, no VI milénio a.C., entre o Algarve e a Estremadura (Fig. 3.8). Carvalho, 2019: 12

O Alentejo Central, nesta visão, desaparece literalmente do mapa, mantendo uma persistente tradição. Zilhão, 1998

                                                Fig. 3.9 – Cartografia da neolitização do centro-Sul de Portugal (Zilhão, 1998) 

Um outro exemplo, um pouco mais equilibrado, na perspectiva do Alentejo Central, foi o mapa que contempla os dados sobre o Neolítico antigo/médio, no Sul de Portugal, publicado em 2014. Neves et al, 2015)

Fig. 3.10 – Cartografia do povoamento neolítico antigo/médio, no Sul de Portugal (Neves et al, 2015)

No entanto, esse mapa inclui cerca de dezena e meia de sítios, cujos critérios de seleção são difíceis de discernir, uma vez que inclui sítios escavados, mas não todos (falta o “povoado” dos Almendres, e os recintos dos Almendres, do Xarez e das Fontainhas, entre outros) e sítios não escavados (como a Carrascosa Calado, 2004b ou as Casas Velhas do Coelheiro Neves et al., 2015), outros com escavações minimalistas (como a Vala Real) Aldeias et al. 2007 ou ainda outro em que os materiais apareceram descontextualizados, resultantes de escavações antigas (Gruta do Escoural) Santos, 1971.

A comparação visual resultante sugere que, por exemplo, no Baixo Tejo, o número de sítios é semelhante ao do Alentejo Central. Não é, nem de perto, nem de longe.

Muito interessante, também, é a cartografia que tem sido, com algumas variantes, usada pelos vários autores que, nos últimos anos, escreveram sobre a neolitização, no Centro/Sul de Portugal e, sobretudo, os que publicaram os  já mencionados sítios do Neolítico antigo/médio, da margem esquerda do Baixo Tejo.

Nesses casos, a margem esquerda do Baixo Tejo foi desmembrada do Alentejo Central e, com ligeiras variações, anexada à Estremadura.

Ora, esta opção deixa, como veremos, de fora, as presumíveis bases residenciais permanentes, complementares dos sítios  neolíticos do Baixo Tejo, que têm sido interpretados como sazonais... 

E separa igualmente os Estuários do Tejo e do Sado dos respetivos  hinterlands...

 
  
                                                                                               
 
  

Fig. 3.11 - O Baixo Tejo na cartografia neolítica recente (Neves et al., 2015: 38;  Neves, 2023: 31;    Gonçalves e Sousa, 2018; Andrade, 2015: 199)

Cada terra com seu uso

Estabelecendo uma relação entre a distribuição dos sítios do Neolítico antigo, em Portugal, e os diferentes substratos geológicos, Mariana Diniz identificou três grupos genéricos: areias, calcários e granitos, exemplificando este último grupo com os raros sítios escavados no Alentejo Central (Valada do Mato, Patalim, Laginha 8, Defesa de Cima, Xarez 12, Xarez 4, Carraça 1 e Fonte dos Sapateiros).

A autora interpreta os sítios alentejanos como o resultado de “um episódio de cresci­mento demográfico e expansão para novos territórios que implica, para além da permanência nas areias e nos calcários, a ocupação de outras litologias, nomeada­mente os substratos graníticos, e que se traduz numa colonização efectiva e selectiva de algumas áreas, do interior do atual território português.” Diniz, 2015: 291

Noutro texto, a mesma autora sublinha que "para além das areias e dos calcários, a ocupação dos granitos parece um dos elementos decisivos, desta primeira fase, do povoamento neolítico." Diniz, 2017: 69

O único aspeto, nesta proposta, que, a meu ver, necessita ser revisto, é a sequência temporal; efetivamente, a autora relega a neolitização das áreas graníticas do Alentejo Central para uma fase posterior à das areias e dos calcários. 

Esta interpretação ajusta-se, curiosamente, quer aos modelos indigenistas (que vêem, nas areias da Costa Sudoeste, os sítios neolíticos mais antigos) quer aos colonialistas (que propõem a anterioridade da neolitização dos calcários da Alta Estremadura). Nos próximos capítulos, discutirei uma interpretação alternativa e, a meu ver, mais adequada à informação disponível, em que os granitos têm outro protagonismo.

É nítida, hoje, a preferência, quase exclusiva, no interior alentejano, pela ocupação das manchas de rochas granitóides, no Neolítico antigo/médio.

E, dentro desta região, é no Alentejo Central que vamos encontrar a maior extensão desse tipo de terrenos, seguido do Alto Alentejo e, em muito menor grau, do norte do Baixo Alentejo (Fig. 3.12).

Fig. 3.12 - Mapa geológico do Sul de Portugal, Esc. 1: 500 000

Em contrapartida, os vestígios do Neolítico antigo estão, até à data, ausentes nas vastas áreas de depósitos detríticos, terciários, mas igualmente das grandes manchas de rochas metamórficas (sobretudo xisto e gnaisses) que representam uma boa parte da região centro-alentejana. Calado, 2001a

Quanto aos calcários (dolomitos e mármores), o povoamento do Neolítico antigo, embora exista, é muito escasso. Calado, 1995-1996; Calado e Mataloto, 2020

A preferência do primeiros neolíticos pelos terrenos graníticos repete-se igualmente, fora do Alentejo Interior, nomeadamente em Sintra (S. Pedro de Canaferrim), Freixo de Numão (Prazo), ou Cáceres (Los Barruecos). Simões, 2001; Monteiro-Rodrigues, 2011; Cerrillo, 2008

Finalmente, por distante que pareça, podemos ainda incluir neste conjunto, a própria Bretanha francesa cuja “geminação”, naquela época, com o Alentejo Central, tem várias "camadas" (Capítulo 4).

A análise dos mapas de capacidade de uso dos solos (Fig. 3.13), descontando uma boa parte de anacronismo, permite observar que, nas areias (incluindo aqui apenas as margens dos estuários e a Costa Sudoeste), o potencial agrícola é baixo, aspeto que vários autores têm admitido, no contexto da neolitização, sugerindo ou não o caráter sazonal dos sítios neolíticos identificados nessas áreas. Diniz e Neves, 2018; Gonçalves e Sousa, 2018; Neves, 2018; Silva, 1981

é sobretudo na parte Sul, de terrenos calcários, que se encontram os escassos sítios neolíticos conhecidos. Calado et al., 2009 

Também na Estremadura ou na Península de Setúbal, com solos maioritariamente calcários, encontramos sítios do Neolítico antigo, embora em quantidade moderada, sendo que uma boa parte do que se conhece, desta época, são necrópoles, em grutas, e a maior concentração de sítios de ar livre se localiza na Baixa Estremadura e, provavelmente, muito relacionada com as rochas granitoides da Serra de Sintra e com a própria foz do Tejo, dois elementos incontornáveis e certamente diferenciadores, na paisagem do Sul do país; a esta especificidade, a Baixa Estremadura acrescenta os solos relacionados com os basaltos.

Quanto ao Alentejo Central, descontando as partes a que já fiz referência, com substratos não granitoides, os solos com maior potencial agrícola coincidem com as maiores densidades de sítios do Neolítico antigo/médio, como teremos oportunidade de avaliar, com mais detalhe, no Capítulo 6.

Por outro lado, é notória a semelhança geral, no que respeita ao mosaico de solos, entre o Alentejo Central e o Alto Alentejo; quanto aos vestígios do Neolítico antigo/médio ou aos menires, esta última área apresenta, até agora, uma menor densidade relativa.

Finalmente, no Baixo Alentejo, toda a área meridional, vazia de sítios neolíticos, tem baixo potencial agrícola, relacionado, mais uma vez, com os terrenos de rochas metamórficas; porém, a parte Norte, onde se localizam algumas pequenas manchas de rochas granitoides (e, concomitantemente, alguns menires e sítios do Neolítico antigo), é maioritariamente composta pelos fertilíssimos barros de Beja, relacionados com um substrato de gabros, onde o Neolítico antigo (ou os menires) não foram, até hoje, identificados, mas que, como se sabe, tiveram uma ocupação preferencial, a partir do Neolítico final.

Em suma, na ótica dos primeiros agricultores e pastores, os melhores solos eram, em primeiro lugar, os que se relacionam com os granitos, seguidos dos solos calcários; isto tendo em conta a quantidade de sítios de ar livre até à data identificados, apesar das intensas (e, indiscutivelmente, competentes) prospecções desenvolvidas, na Estremadura, por investigadores como João Zilhão, António Faustino de Carvalho, Ana Catarina Sousa ou  Marco Andrade.

Perante estes dados, importa questionar quais as vantagens relativas dos solos graníticos, para as primeiras comunidades agropastoris, no nosso território.

Um dos fatores mais imediatos foi, provavelmente, a disponibilidade de água doce que, nos granitos, se obtém, no subsolo, a escassa profundidade.

Também é um facto que a topografia dos terrenos graníticos, no Alentejo Central e Alto Alentejo, é pouco movimentada, logo, fácil de transitar; por outro lado, entre os afloramentos, mais ou menos destacados, encontramos áreas muito aplanadas, de solos relativamente leves, em que o substrato granítico garante, como referi, uma razoável retenção da água. 

Quer as areias, quer os calcários, são geralmente menos competentes, neste aspeto. Note-se que, no caso dos calcários, os "povoados" se concentraram frequentemente nas proximidades das nascentes, na periferia dos Maciços.  Nas areias, os únicos vestígios neolíticos localizam-se em ambientes litorais, fluviais ou estuarinos, com escasso potencial agrícola, sugerindo um uso sazonal focado nos recursos aquáticos. E onde, até agora, apesar de se tratar de ocupações que se prolongaram ao longo de todo o neolítico, não se registaram evidências funerárias. 

Fig.3.13 - Mapa de capacidade de uso dos solos. 1. Estuários do Tejo e do Sado; 2 Alentejo Central; 3. Alto Alentejo; 4. Península de Setúbal; 5. Estremadura; 6. Costa Sudoeste; 7. Baixo Alentejo.


Porém, talvez não se trate apenas da seleção “de paisagens geologicamente favoráveis, em função da tecnologia disponível”, Diniz, 2015: 292 na perspectiva de uma economia agropastoril; na verdade, se aceitarmos que os neolíticos alentejanos migraram para o interior, a partir dos estuários, a escolha poderia, por hipótese, ser, antes de mais, em função da proximidade e contiguidade geográfica.

Fosse qual fosse a origem geográfica dos primeiros neolíticos, é razoável supor que tenham testado os diferentes tipos de solos disponíveis e que, com base nessas experiências, tenham dado preferência aos granitos. 

Isto pode significar que o Alentejo Central, mesmo que não tenha sido o palco privilegiado dessas primeiras instalações neolíticas, foi provavelmente a área onde elas tiveram maior sucesso.

Para além das explicações de ordem económica, que acima tentei esboçar, creio que a implantação dos “povoados”, em pequenas clareiras, encostados aos afloramentos rochosos mais destacados, pode remeter também para a dimensão cultural, eventualmente num complexo mitológico/simbólico que incluía os menires. 

Chris Scarre, numa reflexão sobre esta eventual relação, coloca as seguintes questões: "Será que a veneração dos rochedos naturais está na origem das tradições megalíticas? Será que as tradições megalíticas são um resultado direto da vida em paisagens repletas de blocos e afloramentos rochosos?” Scarre, 2022: 94

Para concluir, sejam quais foram os motivos que estiveram na base destas escolhas, o que, por ora, parece certo, é que o Alentejo Central foi, no Neolítico antigo/médio, intensamente povoado, sendo que o sinal mais notório desse intensidade é, segundo creio, a densidade e a dimensão dos menires e recintos centro-alentejanos, cuja cronologia neolítica será discutida no próximo capítulo.


Muita gente, pouca árvore

Por outro lado, não custa acreditar que os primeiros grupos agropastoris, acabados de se instalar em clareiras, dotadas de solos completamente virgens, rodeadas de florestas abundantes em recursos diversos, organizados em unidades familiares, com vizinhos nas proximidades, sem violência, nem escassez, e recorrendo regularmente aos recursos aquáticos, tenham acelerado ainda mais a taxa de crescimento que já se fazia sentir nas últimas sociedades de caçadores-recoletores…

Na verdade, a fazer fé nos estudos palinológicos sobre a evolução da paisagem, no vale do Sizandro (Torres Vedras), ficamos certamente surpreendidos porque entre aprox. 5400 ‑ 5200 cal. BC dizimaram‑se tanto as florestas de carvalho nas colinas como as flo­restas que circundavam o percurso do rio e dos ribeiros. No seu lugar desenvolveu‑se uma vegetação sem árvo­res, constituída por ervas e arbustos, ocupando áreas de grandes dimensões.” Dambeck et al., 2015: 392

Conclusões semelhantes foram obtidas para o Alentejo Litoral e genericamente extrapoláveis para o interior da região. Queiroz, 1999; Mateus e Queirós, 1994

É claro que esta deflorestação acelerada, no contexto de uma economia camponesa em expansão, baseada na agricultura e na pastorícia, se deve relacionar diretamente com um crescimento demográfico explosivo o qual, em poucos séculos, povoou, com núcleos de pequenas dimensões, a partir do litoral, largas áreas do interior da Península.

Foi, muito possivelmente, a redução da fertilidade dos solos, a razão pela qual, em boa parte, os sítios do Neolítico antigo/médio centro-alentejanos foram sendo abandonados, deles saindo um novo modelo de povoamento, cada vez mais concentrado, ocupando finalmente, sobretudo no Baixo Alentejo, os melhores solos agrícolas e onde surgiram as primeiras estruturas delimitadoras/defensivas (fossos, muralhas de adobe); na fase seguinte, antes da derrocada, entraram em cena as fortificações em pedra e a ocupação estende-se até às áreas menos férteis, nomeadamente os xistos.

Voltaremos, com mais detalhe, a estes temas.


A Oeste de Évora

O Alentejo Central engloba paisagens distintas e, em vários casos, com fronteiras indefinidas. Os menires e a neolitização, na fase inicial, ocorreram, como veremos, quase exclusivamente na metade mais ocidental (a que contacta diretamente, através das linhas de festo e dos afluentes, com os estuários do Tejo e do Sado). A esta mancha de povoamento neolítico,  há que acrescentar uma extensão, junto ao Guadiana (Reguengos de Monsaraz), numa relação muito clara com a maior mancha de rochas granitoides, atravessada por esse rio, ao longo do seu percurso, em território português.

As manchas de rochas metamórficas (xistos, gnaisses, mármores) ou as vastas áreas sedimentares que fazem parte da estrutura paisagística do Alentejo Central foram ocupadas sistematicamente apenas a partir do Neolítico final e Calcolítico.

Note-se que, para além dos quatro maiores cromeleques da Península Ibérica, é no Alentejo Central que vamos encontrar também as antas mais monumentais, no nosso país, nomeadamente as Antas Grandes do Zambujeiro (Évora) e da Comenda da Igreja (Montemor-o-Novo).

Nos capítulos seguintes, sobre o megalitismo e sobre o mesolítico/neolitização, serão apresentados os dados que, atualmente, nos permitem atribuir os menires centro-alentejanos ao Neolítico antigo (e extrair daí as consequências) e, por outro, atribuir a neolitização desta região a uma fase muito inicial do processo, concretizada a partir das comunidades dos últimos caçadores-recoletores mesolíticos dos Estuários do Tejo e do Sado. E concluir que, em termos ibéricos, foi no Alentejo Central que os primeiros agricultores/pastores encontraram as melhores condições para um crescimento demográfico excecional,  traduzido na construção dos menires e cromeleques.



 

 

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