Introdução
"Nem com toda a sede ao pote, nem com toda a fome ao cesto" ditado popular
A cestaria é,
certamente, anterior à olaria e manteve, como seria de esperar, a sua utilidade e, possivelmente,
a sua importância simbólica e social, após a introdução do vasilhame cerâmico.
Utilizo, neste
texto, o termo cestaria, exclusivamente para me referir aos contentores feitos
com fibras vegetais; no entanto, convém ter em mente que a cestaria faz parte
de um vasto conjunto de técnicas que incluem as cordas (fios, tranças...), as esteiras, as redes e os
tecidos, e que designo aqui como artes das fibras; na verdade, existem artefatos que
não encaixam facilmente nestas categorias, como os chapéus, as peneiras, ou
até, em muitos casos, pontes ou casas.
Num trabalho muito atual, uma equipa de investigadores que trabalhou no célebre sítio neolítico de Çatalhöyük, na Turquia, alerta, a propósito, que “os têxteis, as esteiras e a cestaria devem ter sido objetos omnipresentes que tinham uma função essencial na sociedade antiga, embora tanto a sua utilização como a sua produção tenham sido sub-representadas. O foco nas tecnologias líticas e cerâmicas resultou numa visão distorcida da antiga produção e uso da cultura material, na qual a tecnologia têxtil é desconsiderada ou mal compreendida.” Jørgensen et al., 2023: 214
Este capítulo pretende corrigir um pouco esta tendência.
Botanic Age
Evoco, para começar, um livro, tão recente como provocador, que propõe que, antes da Idade da Pedra, muito antes, devemos considerar uma Idade da Botânica, em que os nossos antepassados, anteriores ao H. Habilis, começaram a desenvolver as artes das fibras. Falk, 2025
O ponto de partida da argumentação de Dean Falk é o facto, bem atestado, de os nossos parentes chimpanzés fazerem ninhos nas árvores, entrelaçando, de forma segura, ramagens ancoradas nos troncos. Com base nisto, a autora propõe que, quando os nossos antepassados desceram das árvores, teriam passado a fazer os ninhos no chão; os cestos e sacos seriam o passo seguinte.
Esta hipótese levanta a questão do caráter inato ou cultural, da tecnologia das fibras. Isto é, em vez de os hominídeos terem aprendido a cestaria, como muitos imaginam, observando e copiando os pássaros tecelões ou as aranhas, entre muitos outros exemplos, talvez tenham aprendido do mesmo modo que pássaros tecelões e aranhas.
Tim Ingold, refletindo sobre o tema, dá-nos algumas pistas interessantes.
Começa por descrever a técnica de construção dos ninhos dos pássaros tecelões, nos seguintes termos: “ o ninho é feito de longas tiras arrancadas das folhas das gramíneas, que são entrelaçadas numa treliça regular formada pela passagem sucessiva de tiras por cima e por baixo, e numa direção ortogonal às tiras já dispostas. É mantido unido e preso ao substrato por uma variedade de costuras e fixações” Ingold, 2000: 351
Isto é, usando as técnicas básicas da cestaria.
Segundo ele, as competências da ave, que ele compara às do artesão-cesteiro, não são inatas mas "são incorporadas no modus operandi do organismo – seja aviário ou humano – através da prática e da experiência num ambiente.”Ingold, 2000: 351
Para além do valor pragmático que todos reconhecemos, as artes das fibras desfrutavam, em muitos casos, de um elevado estatuto simbólico, em termos sociais e, sobretudo, magico-religiosos, em sociedades tradicionais. Van Welthem e Linke, 2010; Sellato, 2012; Cranshof et al., 2018; de Groot , 2018.
Um dos exemplos mais notáveis dessa valorização das artes das fibras, nesse tipo de sociedades, encontramo-lo entre os Kogi, um povo indígena da Colômbia, muito populares devido ao alcance de um documentário feita por um antigo jornalista da BBC (Aluna, disponível no YouTube).
Numa brilhante tese de doutoramento, defendida na prestigiada Cambridge University, Falk Witte descreve as várias metáforas desenvolvidas por esta cultura, em volta dos fios, dos sacos, dos chapéus e das roupas Witte, 2017.
Destaco, a título de exemplo, o trecho em que se relaciona o saco, que faz parte da indumentária tradicional desse povo, com o cosmos. Segundo eles, o cosmos "é igualmente tricotado a partir de um centro de origem, a posição do Pilar Cósmico, num círculo que se expande gradualmente e que num ponto começa a subir para formar o recipiente, ou seja, os níveis cósmicos". Witte, 2017: 19
A Teoria das Cordas
Podemos considerar, na verdade, que um dos pontos de partida para o desenvolvimento das artes das fibras, foi a chamada “string revolution” Levy, 2000: 161; não há dúvida de que a “descoberta” da corda foi um dos “avanços tecnológicos” mais importantes do Paleolítico Hardy, 2008, embora seja muito difícil precisar, no tempo, esse início. Hardy et al. 2020
De facto, esta descoberta tornou-se "a base tecnológica para a fabricação de têxteis, bolsas, redes, esteiras e cordas.” Bea et al. 2024: 2
A As artes das fibras são, como se sabe, um tema relevante na etnomatemática, uma vez que “a fibra trançada e torcida foi definida como uma tecnologia complexa que utiliza diferentes componentes
(…) e até mesmo uma compreensão matemática de pares, grupos e números. Hardy et al. 2020
E, como seria de esperar, a corda ganhou dimensão simbólica, muito para além do seu valor facial.
O acima citado antropólogo britânico, Tim Ingold, tem escrito, nas últimas duas décadas, sobre a importância das artes das fibras, em vários planos. Ingold, 2000, 2010, 2013, 2023
Num dos trabalhos mais recentes, Ingold teorizou, entre outros aspetos, sobre a relação entre a corda (ou o fio, o cordão, a trança) e a forma como as gerações se entrelaçam, ao longo do tempo, reproduzindo "fielmente os processos da vida social.” Ingold, 2023: 266
Segundo sugere, "com o cordão multifilamentado, assim como com a vida de muitas vidas, as razões são as mesmas. As vidas, como fibras, estão entrelaçadas, ou seja, seu alinhamento é longitudinal. A analogia entre o trançado de cordas e o entrelaçamento de gerações não é vaga, mas exata.” Ingold, 2023: 264
Num livro anterior, o autor tinha já evocado o forte simbolismo das cordas dos Kandinjei, na Papua Nova Guiné, ou dos Khipu dos incas. Ingold, 2007: 65
Podíamos também acrescentar o fio de Ariadne, tema forte da mitologia mediterrânica. Entre os Kogi, acima referidos, os lugares sagrados estavam ligados por um fio negro, fundamental para manter a ordem no mundo. Witte, 2017
A presença da corda, como elemento “decorativo”, na olaria neolítica, e muito para além dela, reflete, provavelmente o prestígio que as cordas terão adquirido, desde épocas antigas, em termos simbólicos.
O valor simbólico das cordas manifesta-se, exuberantemente, no esqueumorfismo de alguns colares de ouro, na nossa ourivesaria antiga Correia, 2013: 65, 66 ou, por exemplo, na arquitetura manuelina, de que destaco a curiosa Porta dos Nós, em Vila Viçosa.
Fig. 10.1- Colares
de ouro imitando cordas (Correia, 2013: 65, 66)
Fig. 10.2 - Detalhe
da Porta dos Nós.
A corda é, como se viu, a base, o ponto de partida para uma parte das artes das fibras. Na verdade, os cordões plásticos (e sobretudo os bordos incisos) que, como referi, ornamentam a olaria neolítica, mesmo quando não estão expressos outros motivos, implicam, possivelmente, por um processo de sinédoque, uma analogia entre o vaso e o cesto.
Por outro lado, é óbvio que, dentro das artes das fibras, são os cestos
(incluindo as bolsas) os artefatos que mais se aproximam das vasilhas de barro (em termos de forma,
de volume e de função como contentores).
Olhando para os dados etnográficos, parece
razoável que a cestaria propriamente dita tenha sido, tal como a cerâmica mais
tarde, um veículo privilegiado de expressão e comunicação de identidades,
crenças e mitos. Van Welthem, 2003
Note-se que a ideia de os vasos campaniformes marítimos poderem ter sido inspirados nos cestos, foi avançada já em 1913, por Luis Siret, tendo em conta as “evidentes semelhanças formais de alguns destes vasos acampanados com as conhecidas bolsas de esparto da Cueva de los Murciélagos”; tendo isto em conta, e considerando também a decoração típica da olaria campaniforme, foi recentemente proposta uma relação com “os cestos de entrançados vegetais utilizados no transporte do sal”.Guerra, 2017: 349
De facto, como sabemos, a
olaria campaniforme deu continuidade a esquemas decorativos que encontramos
logo na olaria do Neolítico antigo e em que predominam motivos que, como
veremos, se inspiram nas texturas (e provavelmente nos motivos “decorativos” da
cestaria).
Seja qual for a relação original entre olaria e cestaria (que, aliás, pode ser vista de várias formas), a ideia encontrou apoio entre os linguistas, que descobriram que, estranhamente, em algumas línguas indo-europeias, as palavras para vime, barro e vaso de barro remontam ao mesmo radical.” Tsetlin, 2018: 194
Fig. 10.3 - À esquerda: um vaso do Jomon Incipiente, de Torihama (Japão), reconstruído (Museu de História e Folclore de Wakasa). À direita: um vaso do Jomon Incipiente, de Kubodera-minami, província de Niigata, Japão (Museu da Cidade de Tokamchi).
Procurando indagar o tipo de relação entre cestos e potes, houve quem tivesse invocado razões técnicas. Nessa perspectiva, os primeiros vasos seriam “construídos”, usando cestos como moldes, muito embora, com base em várias experiências, a proposta se tenha revelado tecnicamente complicada, sobretudo se se tratar, como parece ser o caso, de vasos em forma de saco. Outros viram, nas representações de cordões, reforços estruturais ou representações deles, explicação que, para a maioria dos casos, me parece pouco sustentável. Yanshina, 2017
Assim, excluindo o fabrico de vasilhas moldadas nos cestos e descartado o papel estrutural dos cordões, resta-nos uma relação que parece indicar, com “alto grau de probabilidade, que os primeiros recipientes de barro pudessem ter sido criados para imitar os já familiares recipientes naturais, ou manufaturados, com um novo material”.Tsetlin, 2018: 195
Tsetlin (2018) inclui
entre os objetos que teriam servido de modelo aos vasos cerâmicos, uma gama de
outros recipientes (nomeadamente em madeira, pedra ou cal), sem destacar
propriamente a cestaria; no entanto, a meu ver, as semelhanças entre os cestos
e a as vasilhas de barro superam, de longe, as restantes hipóteses.
É certo que também
podemos encontrar modelos, para as formas mais antigas da olaria, numa gama
razoável de objetos naturais; porém, em todos eles, apenas a forma e,
eventualmente, a função, podem ser comparáveis.
No caso dos cestos, a
comparação mais notável é, a meu ver, a que diz respeito ao próprio modus faciendi: a
técnica da espiral (coil). O fato de a olaria primitiva ser, maioritariamente,
produzida pela técnica do rolo, ou columbina, implica, creio, uma transposição
das técnicas atestadas na cestaria. Cacho et al., 1996 Em ambos, se vão sobrepondo, em
espiral, rolos (de fibras ou de barro), cosidos, no caso dos cestos ou colados
por pressão, no caso dos potes. Ingold, 2000: 341
Sendo a cestaria
indiscutivelmente mais antiga que a olaria, os potes, surgiram, naturalmente,
como “cestos de barro”.
Para além da referida
sequência operativa, apenas os cestos (e não os restantes supostos modelos)
apresentam obrigatoriamente texturas que sugerem motivos angulosos, organizados
em bandas, mesmo nos casos em que não foram usados como suportes de padrões
“decorativos”.
Fig.10.5 - Chã da Rapada (Martins, 2006, fig. 12); note-se que a espiral aparece aqui inserida num círculo e ligada a um objeto que poderia ser um vaso ou um cesto em forma de saco.
Pode admitir-se, como conjetura, que o próprio processo técnico de fabrico dos cestos e dos potes tenha tido implicações simbólicas (quer por estar, eventualmente, na origem da valorização dessas figuras geométricas, quer por constituir uma utilização prática, quotidiana, dessas mesmas figuras, inspiradas na observação da natureza ou, segundo alguns, em experiências psíquicas relacionadas com estados alterados de consciência. Lewis-Williams, 2002; Lewis-Williams; Pearce, D., 2005
No capítulo seguinte, tentaremos aprofundar esta questão.
Sabemos que as peças mais antigas, encontradas na Sibéria Oriental, em contextos ainda paleolíticos, eram “vasos de fundo convexo, com impressões de cordão” Cohen, 2013: 77; na verdade, com notáveis variações, estas características aplicam-se a grande parte da olaria mais antiga, Chi, 2002 um pouco por todo o mundo, nomeadamente daquela que nos ocupa, neste trabalho: o Neolítico antigo alentejano, visto a partir do Freixo do Meio.
A impressão de cordões, a aplicação de cordões plásticos ou ainda a representação daquilo que designo como “cordões esquemáticos” (impressos ou incisos), são, segundo parece, os elementos mais inequívocos que persistentemente, no tempo, e globalmente, no espaço, exibem essa relação original entre cestos e potes. Nieuwenhuys et al, 2013: 66; Gibbs, 2015: 347; D´ Ercole 2021: Fig 2 e 3
Fig. 10.6 - Cerâmica neolítica do Próximo Oriente (Jordânia), com “cordões esquemáticos” (Gibbs, 2015: 347).
Fig. 10.7 - Cerâmica decorada, dos povoados lacustres
do Neolítico antigo, de La Draga (Barcelona) (A) e la Marmotta (Roma) (B); inclui, entre outros motivos
esqueumórficos, os “cordões esquemáticos”
Fig. 10.8 - Exemplos de cerâmica pré-histórica europeia: decoração cordada (plástica, impressa e esquemática)
Fig. 10.10 - Cerâmica
pré-colonial (Norte do Brasil) (Saldanha, 2016)
Fig. 10.11 - Vaso da Cultura Valdivia (3.800 a.C - 1.500 a.C). Museo Nacional, Quito: Ministerio de Cultura.
As imagens acima apresentadas foram selecionadas, a título de
exemplo, de entre muitas outras possíveis, abrangendo a Eurásia, a África e as
Américas.
Entre nós, a representação mais ou menos explícita de
cordões, incluindo bordos segmentados, é também frequente nos finais da Idade
do Bronze e Idade do Ferro e resistiu, em alguns casos, até à atualidade,
nomeadamente nas talhas vinárias alentejanas.
Fig. 10.12 - Cerâmicas decoradas do Bronze Final/Ferro (Calado e Roque, 2014)
É importante destacar o facto de padrões semelhantes estarem também muito bem representados na ourivesaria arcaica portuguesa, e não só, desde o calcolítico até aos finais da Idade do Bronze, sobretudo Correia, 2013; Murillo-Barroso, 2016.
Recordo, em primeiro lugar, as placas de ouro da Anta Grande do Zambujeiro, depositadas no Museu de Évora Murillo-Barroso, 2016, mas podemos enumerar muitas mais em que os temas lineares geométricos estão presentes. Correia, 2013: Fig. 5, 6, 11, 17, 35, 36, 38, 39
Fig. 10.13 - Placas de ouro da Anta Grande do Zambujeiro, em Évora (Murillo-Barroso, 2016). Com motivos ditos “em espiga”. (Murillo-Barroso, 2016: 290)
Merece, igualmente, menção especial, a sandália votiva do contexto de Valencina de la Concepción, Sevilla, peça que reúne vários dos motivos lineares geométricos mais frequentes Murillo-Barroso et al., 2015.
Fig. 10.14 - Sandália votiva de ouro, decorada, de Valencina de la
Concepción (Sevilla), com soliformes e diversos tipos de motivos lineares
geométricos (Murillo-Barroso et al., 2015).
Dentre os motivos mais
frequentes e universais, na olaria antiga, destaca-se o “cordão esquemático”, basicamente formado por duas linhas paralelas,
preenchidas, geralmente, por traços perpendiculares ou oblíquos ou ainda por
aspas e que, entre nós, tem sido usado como fóssil diretor de um suposto Horizonte Furninha, em Peniche.
Trata-se, a propósito,
do motivo mais frequente nas conhecidas cascas de ovo de avestruz de Diepkoloof, na África
do Sul, datadas de há cerca de 70000 anos, naquele que, junto com Blombos Cave
é um dos testemunhos mais antigos de grafismos claramente intencionais.
Fig. 10.15 - Cascas de ovo de avestruz, decoradas, do abrigo de Diepkoloof (Almeida, 2020: 81)
Na arte rupestre europeia, nomeadamente nas grutas franco-cantábricas, em contexto pictórico do Paleolítico Superior, aparece recorrentemente este motivo, geralmente designado de escaleriforme Von Petzinger, 2016; Madariaga, 2014; num ambiente já holocénico, vejam-se, por exemplo, as pinturas da serra de Passos Sanches, 1990 ou as gravuras do Alqueva Batista e Santos, 2013.
É possível que, em alguns casos, esses motivos representes, de facto, escadas; porém, na etnografia, encontramos muitos exemplos de escadas de corda, com degraus de madeira (que têm, de facto, um aspecto escaleriforme) ou apenas com “estribos” de corda. Também na iconografia levantina, existem figurações de cenas com esse tipo de escadas flexíveis, de corda. Isto é, o chamado escaleriforme evocaria, de um modo ou do outro, as cordas.
Em Espanha, o estudo e publicação dos materiais vegetais da Cueva de los Murciélagos e do povoado lacustre de La Draga trouxeram, para a arqueologia neolítica peninsular, o tema da cestaria.
Na Cueva de los Murciélagos foi estudado, em particular, um conjunto excecional, de que se destacam os “cestos pequenos com bocas geralmente estreitas, cuidadosamente confeccionados.”
Cacho, C. et al., 1996: 107Quanto à decoração destes cestos, “baseada em linhas, faixas, losangos, ziguezagues (…) foi obtido após imersão de algumas fibras vegetais num pigmento colorido (…). A disposição destas fibras previamente tingidas e a sua acertada combinação com fibras naturais deram origem aos motivos decorativos.” Cacho et al., 1996: 118
Fig. 10.16 - Cestos decorados da Cueva de los Murciélagos (Cacho et al., 1996).
Fig.10.17 - Cestaria indígena da América do Norte. Navajo School of Indian
Basketry (1903)
Numa revisão relativamente recente sobre o tema das Vénus paleolíticas, sugeriu-se que “as peças de vestuário retratadas eram feitas de fibras vegetais” e que “o seu requintado detalhamento reflete o importante papel desempenhado pelos têxteis nas culturas do Paleolítico Superior” Soffer et al., 2000: 511
Em abono desta tese, recordam-nos que “locais como Dolni Vestonice I e III e Pavlov I, na Morávia (…), documentaram a existência de tecnologias têxteis altamente diversificadas e sofisticadas”, destacando “a delicadeza de muitos dos produtos finais” e o facto de “algumas destas peças” apresentarem “mesmo decoração estrutural intencional”.
E concluem que “o alto nível observado de processamento padronizado de urdidura e trama, sugerem um desenvolvimento antecedente considerável tanto para estes itens como para a indústria de fibras em geral” Soffer et al, 2000: 511-513.
“Os próprios motivos geométricos podem representar têxteis e podem ser comparados com a famosa estela decorada de Sion-Petit Chasseur, ou mesmo com os desenhos encontrados na cerâmica do Vaso Campaniforme Ibérico." Bueno Ramírez 2010: 45–6; Scarre, 2017: 890
Fig. 10.18 - Decoração cerâmica e padrões de tecelagem (Rozzi, 2018, fig. 6); 2
No
Tumucumaque brasileiro, onde, lado a lado com os Tiriyó, já aqui referidos, vivem também os Wayana, encontramos
um exemplo muito interessante, para pensar a relação entre cestaria e olaria.
A cestaria
wayana ocupa um lugar cimeiro, no que toca à valorização e à dimensão simbólica da cultura
material deste povo, quer pela evocação de seres mitológicos, quer pela posição
que estes objetos ocupam na ordem social e económica.
De resto, entre os ameríndios, como noutras paragens, “os utensílios (e não só os cestos) são pensados, descritos e frequentemente decorados como corpos.” Taylor e Viveiros de Castro, 2006
Vejamos, a propósito, uma síntese do mito wayana da criação da Mulher.
Segundo as tradições orais deste povo, o demiurgo começou por
fazer a primeira mulher em cera, mas este protótipo não aguentou o calor; fez,
em seguida, uma segunda versão em barro, mas ficou muito pesada e frágil. À terceira,
experimentou fazer com arumã (a fibra mais usada na cestaria) e, finalmente,
deu certo.
Convém observar que estas matérias-primas apresentam, aos olhos dos Wayana, um gradiente, em termos de dificuldade técnica, de tempo de aprendizagem necessário e de tempo de execução dos objetos; assim, a cera é o material usado para as crianças brincarem, a cerâmica é o material exclusivo das mulheres, enquanto a cestaria é específica dos homens Van Welthem, 2009.
Contabilizações efetuadas na Papua Nova Guiné, indicam que, incluindo o processamento dos fios, a feituras dos sacos tradicionais (bilum), rondava as 200 horas de trabalho, Hardy, 2008: 275 o que, só por si, nos dá uma ideia do valor desses objetos.
Entre os kogi, na Colômbia, as bolsas que fazem parte da indumentária do dia a dia, são feitas pelas mulheres. Esse trabalho é "realizado constantemente, mesmo quando se percorrem caminhos íngremes e rochosos com um bebé às costas" Witte, 2017:19
Voltando aos Wayana, convém lembrar que alguns
dos artefatos mais complexos, como o cesto cargueiro ou o tipiti (cesto
cilíndrico alongado, indispensável no processamento da mandioca), desempenham
funções económicas básicas. Tradicionalmente, um jovem estava pronto para
casar, apenas depois de aprender a fazer o tipiti.
De facto, a cestaria wayana (como, em geral, a cestaria
amazónica) inclui um conjunto diverso de objetos, que apresentam motivos
geométricos simbólicos, conseguidos, durante o processo de confeção,
entrelaçando fibras brancas e pretas (tingidas) de arumã.
Em termos técnicos, são análogos aos cestos votivos da Cueva de los Murciélagos e, na verdade, na sua confecção, seguem o processo descrito para estes artefatos pré-históricos.
Para além dos aspetos que, até certo ponto, poderíamos classificar como económicos e à parte a carga simbólica transmitida pelos motivos usados, parece-me importante realçar a dimensão estética. Gosden, 2001
De facto, apesar da potencial plástico da cerâmica que, com o tempo, ganhou um estatuto muito próprio, a perfeita regularidade geométrica que era possível obter através da cestaria (visível na estrutura, mas também nos motivos que pode ostentar) era, claramente, superior àquela que encontramos na olaria neolítica ou, sobretudo, na arte rupestre.
Na verdade, se consideramos a hipótese de que as primeiras
vasilhas cerâmicas vieram, de certo modo, competir com o prestígio simbólico da
cestaria, talvez se compreenda melhor o facto de uma boa parte da decoração,
nas olarias mais antigas, reproduzir texturas e decorações da cestaria, de que
os chamados cordões plásticos e, sobretudos, os bordos incisos, são certamente os mais
evidentes.
A meu ver, os bordos incisos são o melhor exemplo de esqueumorfismo, uma vez que os cordões poderiam, em princípio, ser técnica ou simbolicamente estruturais. Na verdade, nos cestos, o remate dos bordos é tecnicamente, incontornável; nos vasos, não.
Trata-se, obviamente, de uma “escolha deliberada" Cranshof et al., 2018: 189, na qual não se vislumbra nenhuma função prática..
«
Fig. 10.19 - Comparação entre um bordo de cesto e um bordo inciso, em cerâmica..
Muito evidentes são também, a meu ver, os motivos ditos em “espiga”, que traduzem, de forma muito realista, o “entrançado” ou “encanastrado”, da cestaria
Fig. 10.20 - Comparação entre texturas de cestos e motivos ditos “em espiga”
O tema da corda, para além de ser representado, em relevo
(como em FM [16] 15), pode também, como
já vimos, ser simplesmente sugerido por duas linhas paralelas preenchidas por
impressões ou incisões, verticais ou oblíquas, que designei como “cordões
esquemáticos”(como em FM [2] 1, ou FM [10] 5).
Fig. 10.21 - Cordão
plástico inciso e “cordões esquemáticos”.
Em síntese, uma grande parte da decoração da nossa olaria neolítica parece-me evocar a(s) textura(s) dos cestos, usando diferentes soluções plásticas que parecem, elas próprias, ter-se inspirado nas diferentes texturas e decorações, próprias da cestaria.
Fig. 10.22 - A. Exemplos de texturas resultantes de diferentes materiais e técnicas. (Rodrigues, 2020: 90); B. Decoração de tecido, com base apenas na textura (Levy, 2020: 139)
Numa primeira fase, no Neolítico antigo regional, encontramos uma notória prevalência do uso de motivos impressos, com recurso a um variado leque de matrizes, incluindo as conchas, aplicadas de diversos modos; paulatinamente, os motivos impressos foram sendo substituídos por motivos incisos e, estes, finalmente, reduzidos a uma única linha sob o bordo, antes de se imporem as cerâmicas lisas, no Neolítico médio/final. Neves, 2019; 2023; Mataloto et al., 2018.
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