1. Introdução: um itinerário arqueológico pessoal


InIntrodução 

Este livro não pretende ser um trabalho académico, apesar de, nos primeiros capítulos, ter como ponto de partida, uma tese de doutoramento, praticamente inédita, defendida há precisamente 20 anos (2005). Calado,2004b; 2020

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Fig.1.1 - Capa do volume 1 (Calado, 2020)

Simetricamente, esse trabalho académico teve, a montante, cerca de 20 anos de atividade arqueológica, concentrada quase exclusivamente na Pré e Proto-história do Alentejo Central e baseada muito mais na prospecção arqueológica do que na escavação. Gonçalves, 1989b; Gonçalves et al, 1992; Calado, 1992; 1993a; Calado e Bairinhas, 1994; Calado, 1994-1995; 1995a; 1995c; 1995-1996; Calado e Sarantopoulos, 1997; Calado, 1997a; Calado e Rocha, 1996-1997; Calado e Mataloto, 1999; 2001; Calado, 2001a; 2001b; 2001c; 2003a; 2003b; Calado et al., 2004

O grande filósofo e sociólogo Edgar Morin, a propósito das lições da História, defendeu recentemente que "não existe observação válida sem auto-observação" Morin 2025: 17 e que "tudo deve ser contextualizado, e historicizado, incluindo o contextualizador e o historiador". Morin 2025: 20

Como o leitor terá oportunidade de verificar, nas páginas que se seguem, a perspectiva assumidamente aqui adotada, implica uma região concreta (o Alentejo Central) e um certo protagonismo da paisagem (geologia, hidrografia, topografia, solos, água), tendo em conta que se trata de uma época (a transição Mesolítico-Neolítico), em que a relação Homem-Natureza sofreu profundas alterações. Esta agenda implica naturalmente escolhas e posicionamentos que têm muito a ver com o tempo presente e os problemas ambientais que enfrentamos. E, neste contexto, não há como escamotear as preocupações e convicções do autor.

Escrevi, em tempos, num texto ligeiro, um breve “Ensaio de ego-arqueologia” Calado, 2006b; nesse exercício, tentei responder à pergunta clássica, com que muitas vezes me confrontei, sobre por que razão decidi tornar-me arqueólogo.

No meu caso, a aproximação à arqueologia teve, na verdade, vários momentos.


O pecado original

O primeiro contato surgiu, de uma forma muito vaga, graças a um povoado fortificado da II Idade do Ferro (o Castelão de Rio de Moinhos), localizado numa propriedade da minha família, onde nasci (no mesmo quarto, aliás, onde nasceram a minha mãe e a minha avó materna).


Fig. 1.2 - Castelão de Rio de Moinhos

Como é da praxe, existem, à volta desse sítio arqueológico, algumas lendas populares que envolvem tesouros e mouras encantadas, e que toda a gente (sobretudo os mais velhos) conhecia e ensinava aos mais novos. In illo tempore.

O Castelão e a Pedra da Moura (rochedo de xisto, com uma cavidade natural, localizado na base do cabeço onde se implanta o Castelão) Calado, 2017, fazem parte das minhas fantasias de infância, antes da chegada intempestiva dos sonhos fabricados pela Disney/Marvel…

Muitos anos mais tarde, por obra do acaso, o Castelão foi o primeiro sítio onde, três dias depois de concluir a licenciatura em arqueologia, iniciei a direção da minha primeira escavação, em Agosto de 1990.


A primeira pedra

Porém, foi a visita à Anta Grande do Zambujeiro e, sobretudo, ao Cromeleque dos Almendres, ainda nos anos 70 do século passado, depois de ter visto, na montra da Livraria Nazareth, em Évora, e consultado na Biblioteca Pública, uma separata de um texto de José Pires Gonçalves, Gonçalves, 1975 que constituiu, para mim, uma verdadeira epifania.

E as ondas de choque desse contacto, em primeiro grau, continuam a fazer-se sentir até hoje. A leitura dos belíssimos textos do Henrique Leonor Pina Pina, 1969, 1971, 1986 (o descobridor dos Almendres e da Anta Grande do Zambujeiro) que, mais tarde, tive o gosto de conhecer pessoalmente, marcaram-me; a noção da excecionalidade dos Almendres, no contexto peninsular, espicaçou esse arqueólogo verdadeiramente amador (tomaram muitos profissionais…), a esforçar-se por estudar e divulgar essas jóias do megalitismo português.

Só temos que dar humildemente continuidade ao seu trabalho. 




Fig. 1.3 - Henrique Leonor Pina, entre o autor e Cândido Marciano da Silva.

Finalmente, a decisão de estudar arqueologia chegou tardia, já com 30 anos e duas filhas; antes dessa decisão, os meus interesses andaram muito mais por terrenos da Ecologia e acabaram por se concretizar em quatro anos de agricultura biológica, numa pequena quinta familiar, numa época em que esse movimento dava os primeiros passos, em Portugal.

Pelo meio, empenhei-me no ativismo ambiental, de que destaco a participação, em Madrid, com o saudoso Afonso Cautela (fundador e animador do Movimento Ecológico Português e da revista Frente Ecológica), num encontro de organizações ambientalistas ibéricas, ou a participação numa mesa-redonda sobre agricultura biológica, no festival antinuclear de Ferrel, ao lado de figuras como Camilo Mortágua, Boaventura Sousa Santos e Deodato Santos Mantas, 2024.

Na verdade, quando decidi regressar a sério à Universidade (depois de uma breve passagem, anos antes, pelo curso de História da FLUL e de ter desfrutado, através da companhia do António Telmo, dos prazeres da filosofia), pensei, em primeiro lugar, estudar biologia/ecologia; porém, por razões burocráticas e alguma ingenuidade, acabei por escolher arqueologia.

Para além de ter sido uma segunda escolha, devo confessar que, de início, fiquei muito desiludido com a arqueologia que encontrei. A disciplina de Pré-História, na Universidade de Évora, foi um balde de água fria. Desde logo, porque, tendo lido os “Tristes Trópicos”, Lévi-Strauss, 1957 no Verão imediatamente anterior, descobri, com alguma surpresa e desencanto, que, na Universidade portuguesa, a Arqueologia estava totalmente divorciada da Antropologia. Depois, quando tive a minha primeira experiência de escavação, num castelo medieval, voltei a achar que aquilo era demasiado “quadrado” para mim.


Prospectar é preciso!

Ganhei finalmente algum entusiasmo quando me apercebi da enorme lacuna, na arqueologia portuguesa (e, nomeadamente, alentejana), no que diz respeito à prospecção arqueológica e vi, nesse vazio, uma oportunidade para fazer alguma coisa interessante, praticando e aperfeiçoando uma arte que já conhecia de outras andanças: andar a pé pelo campo, a corta-mato, sentir a natureza, interpretar a paisagem. 

Beneficiei, naturalmente, de um bom conhecimento, por dentro, do mundo rural alentejano, pelo facto de ter vivido a infância e a adolescência, entre os montes e a aldeia.

Recordo, desse tempo, as caminhadas solitárias, de vários quilómetros, entre casa e a escola e, sobretudo, o regresso a casa, como os melhores momentos do dia. 

Na juventude, já um pouco mais “urbanizado”, acrescentei aos campos que me eram familiares, os interesses e as preocupações ambientais. Mantive ambos intactos até hoje.

Com os Almendres em pano de fundo, tentei olhar diacronicamente e ver, nas paisagens de hoje, as pegadas dos construtores e utentes desse extraordinário monumento, assim como a ausência delas.  

O recinto dos Almendres foi, metaforicamente, a pedra de fundação deste trabalho. As evidências (que, como veremos, começaram a surgir nos finais dos anos oitenta) de uma cronologia recuada para os menires alentejanos e a identificação de um povoamento Neolítico antigo particularmente intenso, em articulação espacial com eles, conduziram a uma revisão dos modelos de neolitização do território português.

Esses foram os principais incentivos. de natureza arqueológica, para uma caminhada, muito literal e quase contínua, por este Alentejo Central e arredores, onde inevitavelmente, entre cacos e pedras, fui testemunhando as agressões da modernidade ao património cultural e natural alentejano. Para além dos eucaliptais e do crescente agronegócio, plantando, nos melhores solos, monoculturas superintensivas, acresce agora a praga dos painéis solares e as ameaças da mineração.

O Montado do Freixo do Meio, que é o ponto de partida deste livro, é também o ponto de chegada dessa caminhada e, na minha perspectiva, um oásis de esperança, num deserto que se espalhou como lepra e que não dá sinais de abrandar.


Navegar contra a maré 

Convém acrescentar que a minha opção pela prospecção arqueológica implicou, claro, resistir a um cliché muito popular, que identifica arqueologia com escavação e que, infelizmente, não se aplica apenas ao grande público; a maioria dos arqueólogos, por várias razões, não se interessa pela prospecção e o prospetor tende a ser visto um pouco como o “coletor” na geologia, isto é, alguém que faz um trabalho básico, e que, supostamente, não necessita de grandes conhecimentos “científicos”.

Nessa perspectiva, o verdadeiro trabalho de campo do arqueólogo seria, um pouco à moda do século XIX, escavar os sítios que são já conhecidos ou que são descobertos, por obra do acaso ou por prospetores amadores ou, na melhor das hipóteses, arqueólogos principiantes.

E pouco mais. Vamos vendo, aqui e ali, raros projetos de prospecção arqueológica, independentes da arqueologia de salvamento, muitos deles, sem apoios ou quase.

Essa atitude de desinteresse face à prospecção arqueológica, quando assumida pela tutela, tem sido indiretamente responsável pela destruição, sem qualquer registo, de um número incalculável de sítios arqueológicos, sobretudo os mais frágeis e discretos.

E essa tem sido, infelizmente, sobretudo desde os finais da década de noventa, a política seguida pelas entidades responsáveis; nos anos anteriores, tinha existido um projeto de Carta Arqueológica nacional que, em vez de extinto, deveria ter sido reforçado. A cartografia arqueológica foi, na prática, entregue às autarquias, responsáveis pelas elaborações dos Planos Diretores Municipais; à partida, parecia uma boa política de distribuição de competências embora, como todos sabemos, algumas autarquias tenham capacidade para cumprir, a maioria nem por isso.

Em termos gerais, todos estarão de acordo que, para além da salvaguarda do património arqueológico (não se pode proteger o que não se conhece), a prospecção tem um papel único, no que respeita ao estudo da dimensão territorial e paisagística do povoamento humano, em praticamente todas as épocas. Nesse sentido, as Cartas Arqueológicas concelhias, não dependentes das agendas e geografias das grandes obras públicas, nem de temas académicos muito específicos, deviam ser incentivadas e suportadas, não apenas pelas autarquias, mas também pelas várias instituições públicas com responsabilidade na gestão do património histórico-arqueológico.


Boots on the ground

Os avanços notáveis que a fotografia aérea (e outros meios de teledetecção) têm produzido na cartografia arqueológica de várias épocas (com destaque para o Neolítico final e Calcolítico), não são aplicáveis à identificação de sítios do Neolítico antigo, atendendo sobretudo aos fenómenos tafonómicos e às próprias características estruturais dos sítios. Gonçalves e Sousa, 2018: 39

Já agora, sublinhe-se que, nas áreas onde, há trinta anos, foram, como veremos, identificados muitos dos sítios do Neolítico antigo, nos arredores de Évora, hoje a prospecção de superfície tornou-se muito mais difícil e exigente, desde que, nos finais dos anos noventa, a visibilidade dos solos se reduziu drasticamente, devido a vários fatores.

Para minimizar este problema, seria necessário adotar protocolos de prospecção invasivos e expeditos, do tipo test pit ou carotage, sem grande tradição na arqueologia portuguesa…

No entanto, apesar de tudo, continua a ser possível identificar novos sítios e as prospecções recentes, no Montado do Freixo do Meio (Capítulo 8), são uma prova disso.

Na prática, a prospecção arqueológica foi a base fundamental, sem a qual, por exemplo, não "existiriam", ainda hoje, a Valada do Mato, o Patalim ou o Freixo do Meio 1, para além da escassa meia dúzia de sítios, atribuíveis ao Neolítico antigo regional, que foram, até à data, objeto de escavações .

Uma parte do esforço enorme que, na maior parte das teses académicas, é investido a desenhar plantas de estruturas (em boa parte, incompreensíveis e descritas genericamente como empedrados) e centenas de cacos e pedras (muitas vezes, mais do mesmo), ou a tirar medidas a tudo, a torto e a direito (só para dar exemplos que bem conheço, por experiência própria Calado, 2004b), bem podia ser investido na prospecção de superfície, o único método que, tanto para os sítios de ar livre do Neolítico antigo, como para os menires, permitiu, até hoje, identificá-los.  

Porém, o facto de a prospecção ser geralmente subvalorizada, face às escavações, não atrai, à partida, os jovens arqueólogos. Nos curricula académicos, incluindo os créditos de trabalho de campo exigidos aos alunos, a prospecção é irrelevante; todo o foco aponta para as escavações ou o estudo dos materiais.

Por outro lado, a origem urbana da maioria dos arqueólogos não favorece o “apetite” pela prospecção, tanto mais que, em muitas regiões, o acesso aos campos é cada vez mais dificultado por cercas, portões e proibições.

Quanto às apregoadas vantagens da escavação face à prospecção, tomemos, uma vez mais, como exemplo, o caso paradigmático da Valada do Mato. O sítio foi descoberto no âmbito de um projeto de prospecções raisonéesFerdiére e Zadora-Rio, 2022 de âmbito regional, que procuravam, especificamente, localizar o povoamento  contemporâneo dos grandes recintos megalíticos eborenses; este assentou numa estratégia de prospecção seletiva, baseada na análise paisagística e na identificação de padrões locativos específicos.

Neste caso, como não passava por lá nenhuma autoestrada, nem se previa nenhuma barragem, ainda hoje este sítio seria, muito provavelmente, um ilustre desconhecido.

Note-se que a descoberta da Valada do Mato “custou” um passeio de Primavera, numa manhã de caminhada solitária, por uma área de montado, desfrutando de uma paisagem belíssima, pulando cercas clandestinamente e, depois de identificado o sítio, uma dúzia de horas de recolha de materiais de superfície, em meia dúzia de visitas pontuais.

Em contrapartida, a escavação do sítio ocupou uma equipa, em cinco campanhas anuais, de trabalho duro, no braseiro do Verão alentejano.

No primeiro caso, o trabalho de gabinete resumiu-se ao desenho de duas dúzias de peças cerâmicas e outras tantas líticas, enquanto, no segundo, se traduziu em meses ou anos de desenhos, medidas, tabelas e outros "artefatos", como é de uso nesses casos.

Porém, excetuando um detalhe ou outro, os dados artefatuais mais relevantes, para uma atribuição cronológica e cultural, já estavam presentes no conjunto recolhido nas prospecções de superfície (Fig. ). Diniz e Calado, 1997

De resto, a primeira campanha de escavações (apenas 12m2), de que fui corresponsável, Diniz e Calado, 1997 “forneceu (...) um conjunto artefatual significativo, composto por mais de três centenas de registos de material lítico e cerâmico pertencente ao Neolítico Antigo.” Diniz, 2001: 46-47

A meu ver, a atribuição cronológica então proposta (Neolítico Antigo), era mais precisa do que a cronologia 14C, baseada numa única data, que acabou por ser usada como a data incontestável da Valada do Mato, uma vez que, apesar de parecer mais vaga, reflete melhor, como veremos, a provável longa duração da ocupação do sítio. 

Com isto, não pretendo desvalorizar o trabalho dos escavadores; precisamos, evidentemente de escavações e datações; mas precisamos igualmente, e muito, de projetos de investigação virados para a prospecção.

Em termos "científicos", prospecção e escavação respondem a questões diferentes e complementares.

Arqueologia Pública

Em 2020, o convite para fazer prospecções arqueológicas na Herdade do Freixo do Meio, da parte do proprietário, Alfredo Cunhal Sendim, pareceu-me, desde logo, uma excelente oportunidade para retomar os temas da neolitização  regional e da emergência do megalitismo.  Pessoalmente, tratava-se de aprofundar o trabalho realizado 15 anos antes, numa área específica que, à partida, tinha um potencial notável, dentro daqueles temas.

Note-se que o interesse dos pré-historiadores portugueses pela área onde se localiza a Herdade do Freixo do Meio (genericamente, a extremidade NW do Alentejo Central), vem, pelo menos, desde o fabuloso projeto, quase centenário, de Manuel Heleno, antigo diretor do Museu Nacional de Arqueologia e Professor na Faculdade de Letras de Lisboa; a relativa proximidade desta área, em relação aos concheiros do Tejo, esteve certamente na mente de Manuel Heleno, na sua busca pelas origens do megalitismo alentejano, como esteve, assumidamente, na de outros pré-historiadores que se lhe seguiram. Rocha, 2005

Seguindo esse filão, Victor S. Gonçalves e Marco Andrade fizeram, há poucos anos, uma revisão aprofundada do megalitismo das Herdades do Deserto e Barrocal das Freiras; trata-se de um território, adjacente à Herdade do Freixo do Meio, que os autores relacionaram, e bem, com a transitabilidade regional entre o Baixo Tejo e o Maciço Antigo. Gonçalves e Andrade, 2020: 7 

Note-se que a Herdade do Deserto, em particular, apresenta a maior concentração de sepulturas protomegalíticas, em Portugal, peculiaridade já intuída desde Manuel Heleno, mas que trabalhos posteriores tornaram mais nítida. Rocha, 2005

Porém, apesar de essas sepulturas serem tidas genericamente como as mais antigas, dentro do megalitismo funerário alentejano (numa delas foi recolhido um fragmento de cerâmica decorada), as datas absolutas disponíveis para esse tipo de monumentos são demasiado tardias para poderem imbricar-se com os concheiros do Tejo, mesmo na sua reta final. Mataloto et al., 2016-2017


Fig. 1.5 - Fragmento de cerâmica decorada  de sepultura do Deserto (Gonçalves e Andrade, 2020: 15)

Mas a grande novidade, neste contexto geográfico, foi a descoberta recente, no Baixo Vale do Tejo, de uma série de sítios do Neolítico antigo e médio que, como veremos, é difícil não relacionar com o interior alentejano (Alto Alentejo e Alentejo Central).

Por outro lado, com base nos dados disponíveis, era perfeitamente previsível, neste “bordo ocidental do extenso leito rochoso granitóide da peneplanície do Alentejo Central”, Gonçalves e Andrade, 2020: 7 a existência de povoamento do Neolítico antigo/médio.

                         

                                        Fig. 1.6 - Megalitismo Alentejano (Gonçalves e Andrade, 2020: 7)

 

De facto, mesmo no limite da Herdade, eu tinha já identificado, uns bons anos antes, alguns sítios vagamente atribuíveis ao Neolítico, nomeadamente o par de menires do Álamo que, entretanto, veio a ser intervencionado por Pedro Alvim. Calado, 2004b

Como resultado das prospecções agora levadas a cabo, a descoberta de evidências de povoamento do Neolítico antigo, no Freixo do Meio, veio trazer mais uma algumas peças para o puzzle da neolitização e da megalitização e, sobretudo, foi pretexto para uma revisão dos dados entretanto vindos a lume, que foram a principal base para uma avaliação crítica dos principais modelos interpretativos, vistos a partir do Alentejo Central e desenvolvida nos capítulos 2 a 8.

Enquanto se foi processando a análise dos dados obtidos, quer nas prospecções na Herdade e arredores, quer na escavação do “povoado” neolítico do Freixo do Meio 1, avançámos para a musealização da paisagem arqueológica, assente num percurso de ar livre, no meio do montado, denominado "Um Lugar na Pré-História" (vocacionado para os públicos escolares), e "Origens" (para os restantes públicos) e num espaço construído (MEGA- centro interpretativo do megalitismo alentejano). Sobre esta musealização, assente nos princípios gerais da chamada Arqueologia Pública, trataremos parcialmente no  capítulo 12.


Educação ambiental e arqueologia

O Montado do Freixo do Meio, entretanto classificado como Área Protegida Privada, é um projeto com mais de três décadas, focado na regeneração da paisagem natural e humana, com uma componente de agricultura biológica e agrofloresta, mas que foi assumindo, em diversos domínios ligados à Natureza e à Cultura, uma vocação experimentalista e, ao mesmo tempo, pedagógica.

A arqueologia desempenhou, neste contexto, um papel complementar, em relação aos principais objetivos do referido projeto.

1.  Desde logo, através do levantamento e da análise dos dados disponíveis, aprofundados com novas prospecções, procurámos ir desenhando um quadro geral sobre a presença ou ausência de povoamento humano, nesta área, em cada uma das épocas e, a partir desses dados, extrapolar o maior ou menor impacte da atividade humana sobre a paisagem (Capítulo 12) Este exercício procura, em última análise, dar profundidade temporal a um projeto bem atual, que, tal como no Neolítico, se foca na relação entre a paisagem natural e a atividade humana (agrofloresta).

2.    Por outro lado, a descoberta e estudo do “povoado” neolítico antigo do Freixo do Meio1, serviram de base para a reconstituição de um povoado dessa época, que batizámos de Arrife do Moital (em homenagem ao saudoso Fernando Moital), e que funciona como âncora, no percurso de ar livre; nesse percurso, foram criados outros pontos de apoio (nomeadamente uma réplica, à escala 1:1, do cromeleque de Vale del Rei) Calado, 2004b, sendo que, a arqueologia, neste caso, serve também como atrativo para convidar os visitantes a desfrutar da qualidade de uma paisagem antiga, em processo de recuperação adiantado… 

     Retomando o itinerário da peregrinação que me trouxe do Castelão de Rio de Moinhos ao Montado do Freixo do Meio, fica claro que estudar os menires e, com eles e através deles, colaborar no estudo da neolitização do Alentejo Central, usando, como metodologia prioritária, a prospecção arqueológica de superfície, resume, de certo modo, uma boa parte do meu trabalho, como arqueólogo do tipo “bones and stones” ou, no meu caso, “cacos e pedras”.

Mas, claro, calcorrear os campos não é apenas uma operação mecânica, nem serve só para achar sítios arqueológicos; antes pelo contrário, implica uma atenção à paisagem,  com uma abordagem fenomenológica, participativa e dinâmica. Talvez daí, a importância que atribuo aos caminhos naturais que, como veremos, são a espinha dorsal capítulo 3.   

Termino, assumindo que, quando foi a construção da barragem do Alqueva, nos inícios dos anos 2000, perante o entusiasmo da arqueologia portuguesa, quase em bloco, face à "inundação" iminente (na expressão certeira de Gonçalo Ribeiro Teles), eu estive assumidamente do lado dos ambientalistas, o que, objetivamente, conduziu à descoberta das gravuras rupestres do lado português (com Teresa Mateus), aventura em que o biólogo, ambientalista, e meu amigo Carlos Cruz (Cau) que, na altura, tinha lugar na respetiva Comissão de Acompanhamento, teve um papel determinante. E que o Expresso da época relatou com objetividade (de Maio a Agosto de 2001),  até que alguém decidiu impor o silêncio. Mas isso são outras histórias. Ou sempre as mesmas. 

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