6. Menires e neolitização: diálogo de surdos

 

Introdução

Na maior parte dos textos produzidos, em Portugal, nos últimos anos, sobre a neolitização do território português, os dados que implicam uma cronologia dos menires alentejanos e algarvios, dentro do Neolítico antigo/médio, não tiveram praticamente nenhum impacte, ao contrário, por exemplo, do que acontece, aqui ao lado, nomeadamente na Extremadura e Andaluzia. Vera et al., 2010; Cerrillo et al., 2011

Esse desinteresse é, creio, bastante curioso, sobretudo à medida que, como vimos (Capítulo 4), se avolumam os dados disponíveis: datas absolutas, materiais associados, contextos regionais, etc.

De facto, apesar das dimensões, os menires têm permanecido, de certo modo, invisíveis, mudos, talvez até incómodos…

Não é o objetivo deste livro explicar o extraordinário fenómeno da invisibilidade dos menires.

À primeira vista, é possível que uma parte do problema resida na regionalização da investigação: o facto de, quer na Estremadura, quer na Costa alentejana, por exemplo, não haver menires, em termos de dimensão, complexidade e quantidade, comparáveis aos do Alentejo Central, pode contribuir para esse aparente esquecimento, até porque os mentores dos principais modelos de neolitização, os criaram a partir dos dados daquelas áreas.

É claro que aceitar a antiguidade dos menires, implica incluí-los no processo de neolitização, de que o Alentejo Central tem sido, de certo modo, excluído. E isso requer obviamente uma boa revisão dos modelos interpretativos em uso.

A datação dos menires obriga a repensar a neolitização, em geral, mas a densidade de menires e, sobretudo, de recintos megalíticos, obriga a reconsiderar a neolitização do Alentejo Central e o papel desta região nesse processo.

É justo, entretanto, frisar que os modelos de neolitização em disputa foram construídos numa época em que o Alentejo era um enorme vazio, em termos de sítios de ar livre, atribuíveis ao Neolítico antigo, e os menires eram, sem discussão, atribuídos ao Neolítico final...

Porém, essa atitude de negação (uma vez que a maioria do autores nem sequer refuta os argumentos invocados) teve, que eu saiba, uma ou outra exceção.

Na verdade, um dos raros exemplos em que a relação entre os menires e o Neolítico antigo/médio não foi sequer questionada, por razões óbvias, a tese de mestrado de Manuela de Deus, baseada, em parte, na escavação do recinto megalítico do Alminho, cujos materiais são, aliás, como vimos, inequívocos. Deus, 2008 

Curiosamente, por lapso, no Portal do Arqueólogo, a ficha de sítio do Alminho não faz referência ao monumento. 

Outra exceção, mais excecional por vir de um neolitista que não trabalha com o tema do megalitismo, foi a tese de doutoramento de António Faustino Carvalho, onde o autor admitiu que “uma hipótese alternativa é a proposta (…) segundo a qual parte dos menires e cromeleques do Algarve ocidental e do centro do Alentejo datará da fase de neolitização destes territórios.” Carvalho, 2008: 301/302

Dito isto, o autor apresentou alguns dos “principais argumentos” que sustentaram a tal hipótese, nomeadamente “a coincidência espacial daqueles megálitos com manchas de dispersão de artefactos datáveis do Neolítico Antigo”, e “a reutilização de menires na construção de monumentos dolménicos”, factos que não contestou.

Contestou, e bem, a validade inquestionável da datação do menir da Meada, por ser feita sobre carvões “cujas espécies não foram determinadas”, o que, à partida, pode envelhecer a amostra (podemos sempre acrescentar a clássica objeção de que os carvões, incluídos nos alvéolos, podem ser provenientes de paleossolos e, por isso, serem mais antigos).

Focando-se já nos menires do Algarve (uma das áreas em que o autor tem trabalhado, no tema da neolitização), e, em particular, no sítio da Caramujeira, António Faustino Carvalho refere “a descoberta de um menir (…) em estratigrafia subjacente a níveis de ocupação do Neolítico final”. Ora acontece que um dos autores da escavação da Caramujeira, escreveu que " um dos pequenos menires (m19) foi descoberto assente numa superfície argilosa e coberto por uma camada arqueológica que continha (...) material datável do Neolítico Antigo". Gomes, 1997

Desconheço qual a versão definitiva, nem me parece muito pertinente averiguar. Para o fim em vista, a conclusão mínima é de que o tal menir é anterior ao Neolítico final…ou seja, é atribuível ao Neolítico antigo/médio, a não ser que optemos pela única alternativa lógica, que seria recolocar a questão da possível cronologia mesolítica dos menires algarvios. Calado et al., 2004 a, 2004b

Já quanto à associação entre o menir do Pedrão e a lareira de onde foi obtida a data 14C, A. F. Carvalho deu eco ao argumento, apresentado uns anos antes por João Zilhão, Zilhão, 1998 segundo o qual não se poderia associar diretamente o menir e a lareira; esta posição contradiz, no entanto, a observação publicada pelo autor da escavação, o qual afirma taxativamente que a “camada arqueológica (C2) a que correspondia a ocupação datada pelo 14C cobria as fossas de implantação dos dois menires, pelo que concluímos serem dela coevos, especialmente o pequeno menir 2, ainda in situ”. Gomes, 1997: 176

Faltou acrescentar que, com os dados disponíveis, e com os mesmos argumentos apresentados por João Zilhão, nada obsta a que o dito menir possa ser, efetivamente, anterior à lareira.

Como felizmente os menires algarvios estão incluídos no projeto Megalithic Origins, a que fiz referência no capítulo anterior, talvez as novas datações façam com que o mistério fique um pouco menos denso e estas contradições se esclareçam.

De resto, acrescentaria ainda que A. F. Carvalho não mencionou uma série de dados relevantes, já disponíveis naquela altura, Calado, 2004b nomeadamente os materiais cerâmicos e líticos, recolhidos nas escavações de menires e recintos megalíticos alentejanos (sobretudo Almendres, Xarez e Vale Maria do Meio), ou a associação recorrente entre menires e Neolítico antigo, no Algarve ocidental, Gomes e Cabrita, 1993; D. Calado 2000a, 2000b, 2004b entre outros detalhes.

No mesmo trabalho, a propósito das flechas transversais, ficou esquecido o já mencionado exemplar proveniente da escavação do cromeleque de Vale Maria do Meio (Fig. 4.12).  E ainda não se conheciam os já referidos exemplares de Casas Novas Gonçalves e Sousa, 2018.

Porém, nessa altura, A. F. Carvalho considerava estes artefatos como tardios, dentro da sequência neolítica nacional, e apoiou essa atribuição cronológica e cultural no conjunto de flechas transversais, recolhido na Valada do Mato, que, a seu ver, estaria “bem contextualizado e datado”. Carvalho, 2008: 265

Ora, a datação da Valada do Mato é uma questão muito discutível e que importa urgentemente esclarecer, tanto mais que se trata, ainda hoje, do único sítio neolítico antigo datado pelo radiocarbono, no Alentejo Central.

E, naturalmente, por se localizar no “epicentro” dos grandes recintos megalíticos da região, tal como da mancha mais densa, em território português, de sítios do Neolítico antigo/médio. Calado, 2004b


3.2. A datação da Valada no Mato: dar tempo ao tempo

Conforme já observei, precisamos de datas absolutas indiscutíveis, para o Neolítico antigo e para os menires alentejanos, embora não falte outro tipo de evidências. Na verdade, essas datas são sobretudo importantes, não tanto para datar o fenómeno genérico dos menires, sobre o qual não existem grandes dúvidas, mas sobretudo a sua evolução, no tempo e no espaço, ao longo do Neolítico antigo/médio.

Entretanto, é indispensável proceder a uma reavaliação das datas absolutas disponíveis para a Valada do Mato, tendo em conta as novas datações, e não só, em contextos geográficos e artefatuais comparáveis. Silva e Soares, 2015; Gonçalves e Sousa, 2015, 2018; Davis, 2016; Valera et al., 2020  

Desse sítio, que se tornou icónico sobretudo por ter sido objeto de cinco campanhas de escavação (de que resultou, entre muitos outros textos, uma tese de doutoramento), Diniz, 2007 foram datadas três amostras (duas delas repartidas por dois laboratórios distintos).

Das cinco datas resultantes, só aquela que foi obtida a partir de uma amostra de carvão, foi aceite como válida, pela responsável pelo estudo. Essa decisão, apoiou-se num parecer do Eng. Monge Soares, na época o responsável pelo Laboratório de Radiocarbono de Lisboa.

De facto, o referido parecer foi solicitado com base nas discrepâncias entre a data obtida sobre carvão e as outras datas, obtidas sobre ossos carbonizados (uma vez que todas provinham do mesmo contexto estratigráfico).

Esse contributo pôs objetivamente em causa a competência dos laboratórios de Groningen (Holanda) e de Waikatu (Nova Zelândia), onde foram datadas as amostras em questão, ao apontar “uma fiabilidade muito reduzida, uma vez que não está demonstrada a eficácia do protocolo utilizado na descontaminação das amostras” Diniz, 2007:151.

Isto significa que, apesar de “as duas amostras (…) processadas em diferentes laboratórios”, terem “fornecido resultados estatisticamente idênticos”, considerou-se que os valores pareciam “excessivamente recuados quando confrontados com o intervalo de tempo obtido para a mesma estrutura, a partir de uma amostra de carvão.” Diniz, 2007: 151

Com base nestas informações, pedi um parecer ao Dr. Michael Dee, atual diretor do Laboratório de Groningen, que respondeu, com prontidão, que se “a mesma amostra foi tratada em dois laboratórios diferentes e os resultados são equivalentes, tenderia a acreditar que estão corretos. Se houvesse contaminação, as probabilidades de esta ter afetado o osso de igual forma, em cada caso, são bastante baixas.”

Note-se que as datações rejeitadas, calibradas a 2 sigmas, cobrem um intervalo entre 5670 e 5081 a.C., sendo que este último valor se articula com a referida data sobre carvão (5040-4790 a.C.); assim, a fazer fé em todas estas datas, a ocupação da Valada do Mato teria arrancado no terceiro quartel do VI milénio a.C. e entrado pelo primeiro quartel do V milénio a. C.. Isto é, estaria, no mínimo, entre as datas mais antigas, no território português, perfeitamente compaginável com a data obtida para Casas Novas (Coruche) Gonçalves e Sousa, 2018, que é, de entre os sítios até agora datados pelo radiocarbono, aquele que se localiza mais perto do famoso sítio alentejano.

É certo que Mariana Diniz, sugere que a data obtida a partir do carvão (…) deve corresponder (…) ao momento de abandono do sítio” Diniz, 2007:162, e que “perante a dimensão do conjunto artefactual e as características das estruturas identificadas, (…) o sítio terá sido objeto de uma ocupação relativamente longa.” Diniz, 2007: 163

Como sabemos, não são raros os sítios do Neolítico antigo peninsular em que (com base em séries de datações absolutas ou nas tipologias dos materiais), se supõe terem funcionado continuamente ao longo de vários séculos. Jímenez, 2017

Vem a propósito a discussão, apresentada num texto sobre o Neolítico antigo, no Vale de Ambrona (Soria, Espanha), em que os autores, depois de avaliarem dois conjuntos de datas, obtidas a partir de amostras provenientes de contextos fechados, concluem que no estado atual dos nossos conhecimentos” estas datas “lançam muitas dúvidas sobre todo o sistema cronológico que foi construído em torno das origens do Neolítico na Península Ibérica.Rojo-Guerra et al., 2008: 38

A perplexidade destes autores resulta sobretudo do facto de, no interior das mesmas estruturas negativas, tipo silos, se terem obtido, sobre amostras de vida curta, diferenças de vários séculos, o que levanta obviamente questões sobre a formação do registo arqueológico, mais do que sobre os métodos de datação.

E creio que o mesmo se pode aplicar à Valada do Mato. A coincidência, no mesmo pacote sedimentar, de materiais correspondentes a diferentes momentos da vida dos sítios, é uma situação recorrente e expectável, sobretudo, em contextos habitacionais.

Tendo isto em mente, a maioria das propostas de atribuição cronológica, no que diz respeito a sítios de ar livre, mesmo que com base  em materiais de escavação, é passível de reinterpretação. 

Um exemplo, entre muitos, é o do povoado da Salema, atribuído ao Neolítico antigo evolucionado; a presença de cerâmica cardial, a par do caraterístico “sulco abaixo do bordo” pode, em alternativa, implicar uma larga diacronia, desde o Neolítico mais antigo, até ao Neolítico médio. Silva e Soares, 1981

Muito discutível, a meu ver, é também a cronologia proposta para o sítio dos Cortiçóis, atribuído aos finais do V milénio a.C. (com base na presença de cerâmica com decoração "penteada"), Cardoso et al., 2013.

Destaco o facto de, no artigo publicado sobre este sítio, ter sido apresentado um número excecionalmente elevado de desenhos de fragmentos cerâmicos, embora, pelos vistos, sem discriminação estratigráfica. Porématendendo à presença da decoração impressa, incisa e plástica, parece indiscutível que, sem excluir uma eventual sobrevivência  do sítio até momentos tão tardios, estamos perante um sítio cuja ocupação deve ter arrancado no Neolítico antigo.

De facto, os autores do estudo sobre os Cortiçóis, começam por reconhecer que o "povoado" se inscreve “em fase adiantada do Neolítico Antigo, comparável a outros registos estremenhos (Cardoso, 2010), dos quais o mais bem datado é o do Carrascal (Oeiras), abarcando todo o último quartel do VI milénio a.C. (Cardoso, 2011).” Cardoso et al., 2013: 56. Na verdade, o sítio pode, sem grandes dúvidas, ser atribuído a uma fase inicial do Neolítico antigo, se compararmos as ditas cerâmicas com outros contextos datados, como Lameiras, em Sintra, ou Casas Novas, em Coruche.

A própria atribuição das cerâmicas com decoração penteada, exclusivamente aos finais do V milénio a.C., é altamente discutível; recordo que este tipo decorativo foi igualmente registado no sítio eborense da Valada do Mato, cuja cronologia discuti mais acima. 

No caso concreto dos Cortiçóis, a atribuição cronológica tardia permite manter a narrativa  do modelo colonialista, uma vez que, a ser assim, não haveria contemporaneidade entre o sítio e os concheiros de Muge. Havendo contemporaneidade, como me parece óbvio, cai estrondosamente por terra o modelo dos enclaves pioneiros, já abalado pela descoberta do sítio das Casas Novas, que dista de Muge cerca de duas dezenas de quilómetros.

É claro que, se aceitarmos que as principais variáveis observadas na cultura material não têm necessariamente implicações cronológicas, tudo indica que esses sítios, tal como a Valada do Mato, são genericamente contemporâneos de Vale Pincel 1, Lameiras, Sra. da Alegria, Casas Novas, Padrão ou Cabranosa, só para citar sítios de ar livre, localizados em diferentes contextos geográficos, mas com datas (algumas discutíveis, como sempre) a partir de meados do VI milénio a. C. até aos inícios do V milénio a. C.  Silva e Soares, 2015; Gonçalves e Sousa, 2015, 2018; Davis, 2016; Valera et al., 2020

De resto, datar um sítio neolítico com apenas uma data (neste caso, sem datações absolutas), é bastante contraditório com a expectável longa duração da ocupação (contínua ou não) destes locais, a que já fiz menção.

É preciso reconhecer que, no estado atual dos nossos conhecimentos, e face à falência do modelo cardial (assente na antiguidade relativa desse tipo de decoração impressa, cuja versão mais barroca só tem sido atestada em necrópoles ou achados avulsos e, mesmo aí, com escassa representatividade estatística), a variabilidade artefatual do Neolítico antigo não permite, por ora, inferir cronologias finas.

Perante as datas, obtidas sobre ossos de ovelhas, nas Lameiras (Sintra), João Zilhão contornou o problema, escrevendo que “estes ossos demonstram uma ocupação de época Cardial, mas a cultura material associada ainda não foi publicada”; porém, as datas são mais antigas que as do cardial “clássico”, escavado nas grutas da Alta Estremadura e, apesar de os dados ainda não estarem integralmente publicados, sabemos que, mesmo que haja um ou outro fragmento cardial, Lameiras seria sempre, no esquema daquele autor, integrado na fase epi-cardial.

 De resto, João Zilhão propõe, num texto recente, que a “cerâmica extensivamente decorada com impressões de conchas e pentes pertence provavelmente” (sublinhado meu) Zilhão, 2021: 747 à fase mais antiga que, segundo ele, se relaciona com a chegada de colonos pioneiros.

 A fase seguinte seria representada por “outro estilo de decoração – as impressões de conchas formando faixas abaixo do bordo e grinaldas entre os botões de preensão – data provavelmente (sublinhado meu) de uma época um pouco posterior.” Zilhão, 2021: 747

Marco Andrade, perante os mesmos dados, sugere a “coexistência teórica de dois universos culturais distintos”, um deles correspondendo ao cardial barroco e o outro ao epi-cardial. Andrade, 2015: 205

Recordo que, há quase meio século, os investigadores da área de Sines já colocavam a “hipótese de (…) a corrente cardial ter sido, pelo menos parcialmente, sincrónica de uma outra formada por cerâmica impressa não cardial, mais relevante e principal responsável pelo desenvolvimento do Neolítico Antigo desta área.” Silva e Soares, 1981: 98, 99

Esta proposta ganhou, nos últimos anos, atualidade, com novas datações para Vale Pincel 1, Casas Novas e Lameiras, sem as quais esses sítios seriam mais ou menos automaticamente encaixados numa segunda fase, dita epi-cardial ou evolucionada.

Note-se que o modelo de evolução crono-tipológica, proposto por João Zilhão e António Faustino Carvalho, com base nos dados da Estremadura (Gruta do Caldeirão e Galeria da Cisterna, na nascente do Almonda), parece, para já, bastante sólido e não suscita grandes dúvidas Zilhão e Carvalho, 2011; Carvalho, 2011, p. 249. Assente em datações sobre espécies de vida curta, tudo aponta para um início da neolitização, nessa área, a partir de 5400 a.C., ou mesmo um pouco antes, com cerâmica cardial dita barroca, na base. Zilhão e Carvalho, 2011; Zilhão, 2021

Na verdade o barroquismo cardial não é muito óbvio; o facto de, na Alta Estremadura, estarmos perante  necrópoles, para além de poder implicar uma escolha específica de vasos destinados a funções rituais, como outros autores já observaram, implica também que estamos perante peças mais completas, comparando com os fragmentos dos "povoados", o que, neste último caso, dificulta seriamente a identificação de possíveis barroquismos. Porém, basta passar os olhos pelos materiais, para reconhecermos que, em muitas das peças destes contextos, a decoração não se limitava a "faixas abaixo do bordo e grinaldas entre os botões de preensão" Zilhão, 2021: 747

Porém, o modelo em causa, mesmo que válido para as grutas da Alta Estremadura, não pode, aparentemente, ser generalizado, nem sequer aos sítios de ar livre da Baixa Estremadura e, muito menos, às restantes áreas em disputa, isto é, Península de Setúbal, Estuários, Costa Sudoeste, Alentejo interior.

Vale Pincel 1 (Sines) e Casas Novas (Coruche), um sem cerâmica cardial (ou quase) e o outro com relativamente pouca, deram datações (talvez um pouco menos indiscutíveis) que, significativamente, concordam com as de Lameiras (Sintra). 

A circulação de pessoas (juntamente com animais, coisas e ideias), relacionada com práticas exogâmicas, e o uso da decoração da cerâmica como marcador identitário, explicariam, só por si, as diferenças regionais (e locais) e a longa duração em que foram usados certos motivos e técnicas, nomeadamente o cardial ou o boquique, só para referir os mais citados e pensando apenas no Mediterrâneo ocidental. Diniz, 2021: 1662

Em última análise, o esquema cronológico mais consensual para o Neolítico antigo/médio, no Sudoeste peninsular, implica uma predominância, nas fases iniciais, da decoração impressa e plástica (com e sem cardial), face à decoração incisa, e uma fase final, em que a decoração se resume a um sulco abaixo do bordo, antes da generalização das cerâmicas lisas, no Neolítico final.   

Para além disto, pouco sabemos, na verdade. As balizas cronológicas aventadas pelos diversos autores, com base nos materiais, raramente coincidem, e a “culpa” não é certamente dos materiais, mas talvez sim das diferentes perspectivas com que são organizados e interpretados.

Voltando à Valada do Mato, apesar do cuidado com que foi explicitado o critério de validação da data mais tardia e apesar da sugestão de que ela corresponderia à data do abandono do sítio (e também de que a data da fundação deveria ser bastante anterior), isso não evitou que, consciente ou inconscientemente, essas incertezas fossem esquecidas e o sítio repetidamente integrado numa segunda fase da neolitização do nosso território, correspondendo grosso modo, à primeira metade do V milénio a. C.

No limite, a Valada do Mato foi “atirada” para o Neolítico médio, ao lado do sítio algarvio do Castelo Belinho, como “os únicos sítios arqueológicos do Portugal meridional que poderão, sem qualquer tipo de reservas, ser incluídos nesta categoria” (povoados sedentários) e que “datam já do milénio seguinte” (V milénio a.C.). Carvalho, 2008: 301


A árvore e a floresta

Já sublinhei, mais acima, o estranho divórcio entre megalitismo e neolitização; esse “bloqueio” aplica-se, nomeadamente, à Valada do Mato, apesar de este sítio se localizar a Oeste de Évora, manifestamente na mesma paisagem onde se encontram os três maiores cromeleques da Península Ibérica, dos quais dista apenas 2-3 Km, no caso da Portela de Mogos e de Vale Maria do Meio, e cerca de 8 km dos Almendres.

De resto, tem sido igualmente esquecido, sistematicamente, que a Valada do Mato faz parte de um vasto conjunto de “povoados” da mesma época, identificados, na sua maioria, no contexto do projeto LAVAMME (Levantamento Arqueológico do Vale Maria do Meio).

Essa campanha de prospecções, levada a cabo em 1994, foi organizada depois de eu próprio ter identificado, nos arredores de Évora, o sítio da Valada do Mato e, com um grupo de alunos da FLUL (com destaque para o Augusto Salgado que teve um papel importante), o recinto de Vale Maria do Meio.

O referido projeto contou com a participação de uma equipe de alunos de Arqueologia da FLUL (Rui Mataloto, Rui Almeida, Nuno Vasco, Sandra Lourenço, Margarida Monteiro, Susana Estrela) e, em duas semanas, foram identificados cerca de três dezenas de sítios, atribuíveis, quase todos, ao Neolítico antigo/médio. Calado e Sarantopoulos, 1996

Note-se o Vale Maria do Meio (e a Valada do Mato) se localizam nas proximidades do ponto, a que já fiz referência, onde se encontram as bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana, e dos respetivos festos (perto da Graça do Divor); de resto, a relação entre a Valada do Mato e este ponto especial na paisagem do Alentejo Central, não passou despercebida, no estudo detalhado sobre o sítio. Diniz, 2007



Fig - 6.1 – Mapa com a localização do sítio da Valada do Mato e limites das bacias hidrográficas do Tejo, Sado e Guadiana. Diniz, 2007: fig. 16

 

O mito das estratigrafias neolíticas

Tal como me parece difícil interpretar a Valada do Mato (e por extensão, o Neolítico antigo/médio desta região), sem incluir, na equação, os menires e cromeleques, o mesmo se aplica à omissão dos sítios genericamente contemporâneos da Valada do Mato, que, até agora, não foram objeto de escavações (Fig. 6.2).

Nesta questão reflete-se, parece-me, uma tendência relativamente comum, a que já fiz referência, que consiste em sobrevalorizar os sítios que foram escavados e, dentro destes, os que proporcionaram datações diretas, mesmo que, como neste caso, claramente problemáticas. 

Teoricamente, todos sabemos que as “recolhas de superfície (…) apresentam condicionalismos na caracterização de um sítio arqueológico que só uma recolha em contexto estratigráfico (sublinhado meu) ajuda a esclarecer” Neves et al, 2016: 36

Porém, na prática, considerando apenas os sítios neolíticos, de ar livre, que têm sido escavados, quer no Alentejo Central, quer nas regiões limítrofes, todos os casos correspondem a “sítios monofásicos”, Diniz, 2007 com cronologias deduzidos geralmente da cultura material, com estruturas positivas mal conservadas e estruturas negativas que, por vezes, contêm, como vimos, materiais de várias fases misturados. Para além da escassez ou ausência de amostras para datação, especialmente, como seria desejável, sobre espécies de vida curta.

No limite, estão aqueles sítios, e são muitos, em que foram reportadas perturbações tafonómicas profundas que pouca utilidade dão ao registo estratigráfico. Arias et al., 2015: 214; Gonçalves e Sousa, 2015: 39

Um bom exemplo, é o já referido sítio dos Cortiçóis (Almeirim) onde “o intenso revolvimento da camada arqueológica”, inviabilizou “qualquer análise de distribuição dos materiais arqueológicos pela área explorada, tanto em planta, como em profundidade. Cardoso et al., 2013: 30

Outro destes sítios ribeirinhos, a Vala Real, onde houve apenas brevíssimas escavações de salvamento (8 m2), sem datações, e apenas com 42 fragmentos de cerâmica de fabrico manual, nomeadamente 6 fragmentos de bordo. Apesar deste cenário minimalista, as autoras consideram, e bem, creio, que, apesar de muito escasso, o espólio cerâmico permite a atribuição do sítio ao Neolítico antigo. Aldeias e e Gaspar, 2007

Um cenário muito semelhante é descrito para o sítio da Quinta da Praia Carvalho et al., 2019. Neste, foram efetuados apenas 3 m2 de sondagens, sem grandes resultados, graças às perturbações estratigráficas detectadas; uma única datação, da camada julgada mais intacta, deu uma data de época moderna/contemporânea. Perante este resultado, os autores optaram, sensatamente, por dar preferência às prospecções de superfície.

Em suma, nos sítios de ar livre, quase sem exceção, as estratigrafias ditas monofásicas, são, provavelmente, em muitos casos, estratigrafias-palimpsestos, acumuladas e misturadas ao longo de séculos.

Perante isto, conclui-se facilmente que, na prática, os resultados da escavação, neste tipo de sítios, pouco diferem dos que se obtêm através da prospecção de superfície, sobretudo no que respeita à cronologia; em ambos os casos, resta a informação veiculada pela cultura material, como um pacote, isto é, sem a virtude da ordenação estratigráfica. 

Claro que as escavações (dependendo, como vimos, da extensão da área escavada) podem, à partida, proporcionar um número mais elevado de artefatos e, apenas elas, em áreas privilegiadas, obter ecofatos e datações…

Finalmente, é bom recordar que algumas questões fundamentais, nomeadamente de ordem demográfica e macroespacial se resolvem, antes de mais, através da prospecção de superfície.


Muita gente...

Há vinte anos, reuni, no terceiro volume da  minha tese de doutoramento, (disponível online em https://www.academia.edu/), uma listagem de mais de 2400 sítios, genericamente atribuíveis ao Neolítico e ao Calcolítico, incluindo menires, antas, arte rupestre, achados avulsos e, sobretudo, “povoados”, a esmagadora maioria dos quais, como resultado das prospecções que efetuei ou coordenei, no Alentejo Central, ao longo dos vinte anos anteriores e a que mais atrás já fiz breves referências.

Para o que aqui nos interessa, destaca-se um conjunto de 80 sítios, praticamente todos adossados a afloramentos graníticos mais ou menos monumentais, e que, com base na presença de lamelas e/ou cerâmica decorada, atribuí ao Neolítico antigo/médio. Desses, alguns (poucos) foram entretanto escavados, como aconteceu com a Valada do Mato e o Patalim, em Évora, e os sítios da Baixa do Xarez, em Reguengos de Monsaraz e, naturalmente, essa cronologia genérica foi confirmada, em todos eles.

Designação

     

cmp

     M

     p

cerâmica decorada

lamelas

silex

Concelho

Pucícaros de Cima

272

409

208475

213500

x

x

Mora

Olival

318

410

216075

210175

x

x

Arraiolos

Monte do Paço 1

355

422

191750

200825

x

Montemor-o-Novo

Quintais

442

426

256975

201450

x

Borba

Estrelada

538

437

203125

199550

X

Arraiolos

Montinho 1

577

437

214100

192825

x

Arraiolos

Santarém

603

437

202975

198925

X

Arraiolos

Ferrenha 6

717

439

242800

193625

X

Redondo

Bencatel

782

440

260325

198200

x

x

Vila Viçosa

Carrascal 2

790

440

253325

191000

X

Redondo

Mamões

822

440

248650

196789

X

Estremoz

Casa Nova

927

447

186100

186600

x

Montemor-o-Novo

Azinhalinho 4

961

448

213325

181825

X

Évora

Casbarra

980

448

211925

183575

x

x

Évora

Casbarra 3

982

448

212525

182475

x

Évora

Jarro

1007

448

209975

181475

x

Évora

Jarro 2

1008

448

209950

181150

x

Évora

Laranjal da Varge 3

1012

448

211599

182035

x

Évora

Laranjal de Varge 2

1013

448

211050

182100

x

x

Évora

Laranjal de Varge 5

1015

448

210625

182050

x

Évora

Monte da Pouca Farinha 6

1038

448

212925

182215

x

Évora

Oliveira 4

1058

448

214975

186025

X

X

Évora

Oliveira 5

1059

448

214625

184575

X

X

X

Évora

Paicão 1

1061

448

207375

180300

X

X

x

Évora

Patalim

1065

448

204982

183460

x

X

x

Évora

Páteo do Azinhal 1

1068

448

212150

181975

X

X

Évora

Páteo do Azinhal 2

1069

448

212000

182000

X

X

Évora

S. Matias

1087

448

211735

180583

X

X

Évora

Sobral 1

1097

448

210291

181300

X

X

X

Évora

Valada 14

1104

448

210625

182950

X

Évora

Valada 4

1109

448

211100

183100

X

Évora

Valada 5

1110

448

210875

182800

X

X

Évora

Valada 7

1112

448

211025

182650

X

X

Évora

Valada do Mato 2

1118

448

212100

182775

X

Évora

Valada do Mato 4

1120

448

212150

182300

X

X

Évora

Vale Maria do Meio 10

1135

448

211075

183450

X

Évora

Vale Maria do Meio 11

1136

448

210975

183450

X

Évora

Vale Maria do Meio 4

1141

448

210950

183375

X

Évora

Vale Maria do Meio 6

1143

448

210650

182325

X

Évora

Vale Maria do Meio 8

1145

448

210325

182325

X

Évora

Vale Maria do Meio 9

1146

448

210550

183250

X

X

Évora

Carrascal 1

1174

449

224575

187525

X

Évora

Monte do Pomar de Cima

1202

449

216225

185425

X

X

X

Évora

Penedo do Ouro 1

1220

449

217550

184500

X

X

Évora

Vale de Anta 2

1458

451

250625

189525

X

X

X

Redondo

Quinta do Gato 8

1541

458

190225

173100

X

x

Montemor-o-Novo

Alcamizes

1554

459

212550

176025

x

x

Évora

Almendres 1

1558

459

206700

176400

x

x

Évora

Almendres 2

1560

459

206295

176583

x

x

Évora

Almendres 3

1561

459

206073

177200

X

Évora

Cabanas 1

1586

459

206125

173375

x

Évora

Cabanas 3

1590

459

206125

173375

x

x

Évora

Malhada do Esbarrondadoiro

1627

459

213575

180475

X

x

Évora

Maré

1628

459

214125

179975

X

x

Évora

Monte dos Almendres

1652

459

207550

177600

x

x

Évora

Viscossa 2

1692

459

215182

178422

X

Évora

Alto de S. Bento

1696

460

216974

179079

x

X

x

Évora

Freiras

1831

469

189800

169675

X

x

Montemor-o-Novo

Carrascosa

1922

472

236300

162500

x

x

Évora

Monte do Ramal

1931

472

233678

169567

x

X

Évora

Montinho

1933

472

234284

163889

x

x

Évora

Barrocal

1956

473

262150

164300

X

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocal 19

1967

473

262075

164125

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocalinho 14

1985

473

259225

163900

X

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocalinho 16

1987

473

259700

163950

X

x

Reguengos de Monsaraz

Barrocalinho 17

1988

473

259700

164400

X

x

Reguengos de Monsaraz

Contenda 2

2013

473

251675

167150

X

x

Reguengos de Monsaraz

Gorginos

2027

473

260925

163300

X

x

Reguengos de Monsaraz

Santa Margarida 6

2081

473

260925

163300

X

x

Reguengos de Monsaraz

Fonte dos Sapateiros

2103

474

264625

161525

x

x

Reguengos de Monsaraz

Xarez 12

2137

474

266625

161000

x

X

x

Reguengos de Monsaraz

Xarez de Cima 4

2164

474

264375

161550

x

X

Reguengos de Monsaraz

Monte da Serra

2195

480

222950

155400

x

x

Évora

Murteiras

2204

480

222240

157098

x

X

x

Évora

Vale de Chaissos 1

2225

480

222250

156250

x

Évora

Carraça

2274

482

262740

161208

X

x

Reguengos de Monsaraz

Estabulinho 3

2315

482

254450

157550

X

Reguengos de Monsaraz

Pipas 1

2395

482

263200

157300

x

X

x

Reguengos de Monsaraz

Torre do Esporão

2408

482

250800

158350

x

Reguengos de Monsaraz

Malhada dos Gagos 6

2434

483

264800

158900

x

Reguengos de Monsaraz

Fig. 6.2 -  Lista dos sítios do Neolítico antigo, de ar livre, no Alentejo Central (Calado, 2004b, adaptado)


Fig. 6.3 - Casbarra 2 (2-5); S. Matias (6 e 7); Oliveirinha (8); Montinho 1 (9); Laranjal da Varge (10); Vale Maria do Meio 4 (11); Jarro (12) e Palheireiros (13,14): materiais de superfície (cerâmica) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 348).


         A   B

Fig. 6.4 – A:  Vale Maria do Meio 1 (1); Vale Maria do Meio 4 (2 e 3); Jarro 1 (4); Vale Maria do Meio 12 (5); Jarro 2 (6 e 9); Laranjal da Varge (7 e 8): materiais de superfície (cerâmica e líticos) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 349); B: Carrascosa: materiais de superfície da (cerâmica) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 350)


Fig. 6.5 - Oliveira 5: materiais de superfície (cerâmica e líticos). (Calado, 2004b: 353)

 


 

 B 

Fig. 6.6 – A: Materiais de superfície do Jarro 1 (Calado, 2004b: 360); B: Vale Maria do Meio 4 (1);Vale Maria do Meio 11 (3, 5); Laranjal da Varge 5 (2) e Laranjal da Varge 2 (4): materiais de superfície (cerâmica). (Calado, 2004b: 361)


 B

Fig. 6.7 – A: Nó Poente (1); Barrocalinho 17 (2); Pedra da Moura (3); Vale de Anta (4): materiais de superfície (cerâmica). (Calado, 2004b: 362); B: Arredores de Vale Maria do Meio: materiais de superfície (cerâmica).

Porém, convém deixar claro que excluí, desta lista, outros 309 sítios, todos com cerâmica manual e todos relacionados com afloramentos graníticos, mas que, por falta de elementos mais específicos, atribuí genericamente ao Neolítico/Calcolítico.

Dentro deste conjunto, destaca-se um subconjunto (44 sítios), em que, além da cerâmica manual, sem decoração, foram registados restos de talhe de sílex. Como sabemos, este material torna-se relativamente raro, a partir do Neolítico final, nesta região, em comparação com a quantidade de fragmentos cerâmicos; pelo contrário, no Neolítico antigo/médio, o sílex tende a ser estatisticamente mais relevante que a cerâmica. Gonçalves e Sousa, 2015; 2018

Seja como for, é absolutamente previsível que, destes sítios excluídos, uma parte significativa venha a acrescentar a lista do Neolítico antigo/médio centro-alentejano. Isto para além dos registos que incluí na categoria de “achados avulsos”, normalmente sem cerâmica, mas também com artefatos genericamente neolíticos ou calcolíticos.

E, a propósito, convém sublinhar, mais uma vez, o facto de existirem ainda, no Alentejo Central, extensas áreas graníticas por prospetar, pelo que o que conhecemos é apenas a ponta do iceberg.

Mas, se considerarmos “apenas” os 80 sítios atribuíveis ao Neolítico antigo/médio (em 2004) e os tomarmos como amostra representativa da região, concluímos que a distribuição dos sítios não depende (ou não depende apenas) do “estado da arte”.

Desses, 49 (62%) localizam-se no concelho de Évora e 16 (19%), no concelho de Reguengos de Monsaraz.

Os restantes 15 sítios distribuem-se, do seguinte modo: Montemor-o-Novo, 4 (5%); Arraiolos, 4 (5%); Redondo, 3 (4%); Mora, 1 (1, 25%); Estremoz, 1(1, 25%); Vila Viçosa, 1(1, 25%), Borba, 1(1, 25%).

Em Alandroal, Portel, Viana do Alentejo e Vendas Novas não se conhece nenhuma ocorrência; nos três primeiros casos, foram feitas as respetivas Cartas Arqueológicas. Como a maior parte do concelho de Vendas Novas abrange a bacia terciária, que, por enquanto, é um vazio absoluto, em termos de ocupação humana antiga, resta-nos Viana do Alentejo onde, à partida, como referi, deveríamos encontrar sítios do Neolítico antigo, articuláveis com o estuário do Sado, através da Ribeira do Xarrama; foram, recentemente, identificados alguns menires, neste concelho e, pelo menos, dois sítios neolíticos ainda mal caraterizados.

Fig. 6.8 - Distribuição dos sítios do Neolítico antigo/médio, no Alentejo Central (Calado, 2004b).

   

Fig. 6.9 – Sítios do Neolítico antigo e os três maiores recintos megalíticos de Évora. As linhas tracejadas são os festos. (Calado, 2004b)

Na minha perspectiva, a extraordinária densidade de sítios do Neolítico antigo/médio, na região, era perfeitamente expectável, uma vez que a monumentalidade dos grandes menires e recintos megalíticos exigiria obrigatoriamente uma elevada disponibilidade de mão de obra, sem nada que se compare, nessa época, nas restantes áreas peninsulares.

Quanto à diacronia destes 80 sítios, é provável que a maior parte corresponda ao Neolítico antigo (grosso modo 5500-4500 a.C.), sobretudo aqueles em que foram identificadas cerâmicas decoradas, uma vez que estas tendem a desaparecer no Neolítico médio. De resto, de entre os outros 309 sítios, todos com cerâmicas lisas, muitos poderão cobrir essa fase ainda mal balizada cronológica e artefatualmente.

Para ter uma noção comparativa, em termos nacionais, basta consultar o Portal do Arqueólogo (última consulta em 29.11.2015). Nessa base de dados (incompleta e com algumas lacunas, por definição) aparecem apenas 68 dos sítios atribuíveis ao Neolítico antigo (todos de ar livre, exceto a gruta do Escoural), no Alentejo Central. Em contrapartida, aparece uma centena de sítios dessa época, no resto do país, dos quais 18 são grutas e outros 19 ou são achados avulsos (vasos), ou não entregaram cerâmica, pelo que "povoados" de ar livre, seguindo os mesmos critérios que usei na minha lista, contabilizamos apenas 63.

Com base nesta informação, em termos de densidade de sítios por Km 2, a diferença é superior a 1 para 10. 

Fig. 6.10 - Densidade de sítios do Neolítico antigo, por cada 1000 Km2, em Portugal.

Seguindo a tradição, tenho vindo a chamar “povoados” a estes pequenos sítios com cerâmica, entendidos sempre como locais de habitação mais ou menos permanente, numa economia de base agropastoril.

Porém, tudo indica que, no Alentejo Central, como noutras áreas do Sul da Europa, estamos efetivamente perante unidades de tipo familiar, apenas com duas ou três cabanas e explorando os terrenos nas imediações das áreas residenciais; isto é, mais do que de povoados, trata-se, muito provavelmente, de quintas familiares ou, atendendo à terminologia regional, dos primeiros “montes” alentejanos Mataloto, 2003.

Essa foi, por exemplo, a conclusão a que se chegou, com base na escavação integral de um sítio neolítico antigo, de ar livre, no Norte de Espanha, El Prado.  Alonso Fernandez, 2017: 194; Jover e Torregrosa, 2017

Estes sítios funcionaram presumivelmente em clusters, organizados em redes de vizinhança; em geral, nas áreas que foram melhor prospetadas, os sítios localizam-se a distâncias da ordem das poucas centenas de metros, como se verifica, por exemplo, na Baixa do Xarez, nos arredores do Vale Maria do Meio ou, como veremos, no Freixo do Meio.

Fosse qual fosse exatamente a fase de arranque, o certo é que a colonização do interior peninsular, a partir do litoral, alastrou rapidamente, abrindo clareiras, alavancada certamente por um crescimento demográfico excecional e caraterizada por uma ocupação desconcentrada do território. Por hipótese, de cada unidade residencial, em vez de crescer a população, sairiam novos colonos (enxameamento), fundando novos “montes”, nas proximidades, numa progressão ao longo de áreas bem definidas (que se relacionam com geologias específicas, nomeadamente, como vimos, os granitos e os calcários, por esta ordem).

Nesta progressão (tipo onda de avanço), não necessariamente unidirecional, foi certamente importante a transitabilidade natural dos territórios, dependente principalmente dos rios navegáveis e dos festos mas também, em alguns casos, afetada pela orografia. Soares, 2020: 308

O abandono de muitos destes sítios, como parece ter sido o caso da Valada do Mato ou do Freixo do Meio 1, ainda no Neolítico antigo, talvez se relacione com “perda de fertilidade dos solos, como consequência do regime intensivo de aproveitamento” Alonso e Jímenez, 2017

Sobre este mesmo assunto, Mariana Diniz evoca, e bem, o facto, mais geral, de que os “solos menos férteis da Europa mediterrânea e do Sul da Europa atlântica apresentam sérias limitações a uma continuada exploração agrícola” pelo que “as escassas evidências de continuidade, nos lugares de habitat, pode estar associada a contingências pedológicas que determinam a procura de novos territórios, por esgotamento dos anteriores” Diniz, 2007: 208

Este é um tema que merece um melhor desenvolvimento, até porque se relaciona diretamente com as preocupações atuais do projeto do Montado do Freixo do Meio, em que se procura precisamente avaliar o impacte da agricultura na fertilidade dos solos e, dentro do possível, reencontrar um equilíbrio sustentável entre a atividade agrícola/pastoril e a floresta.

Voltarei, mais adiante, a este assunto.

Em síntese, importa, para já, reter esta ideia importante: o povoamento do Neolítico antigo, no Alentejo Central, tal como o megalitismo menírico, atingiram uma pujança muito especial, quando comparadas com as áreas vizinhas e mesmo com outras realidades peninsulares contemporâneas.

E o mesmo se pode afirmar, indiscutivelmente, em relação aos concheiros mesolíticos dos estuários adjacentes, que são parcialmente contemporâneos. Araújo e Marchand, 2025: 273


3.4. O Tejo-Sado: uma certa economia agro-estuarina?

A descoberta e publicação, nos últimos 20 anos, de mais de duas dezenas de sítios de ar livre, atribuíveis ao Neolítico antigo e médio, Gonçalves e Sousa, 2018; Andrade et al, 2015; Neves et al, 2015 e implantados ao longo da faixa de terraços quaternários, junto à margem esquerda do estuário do Tejo, veio introduzir, nos modelos que se propõem interpretar a neolitização em território português, um elemento perturbador.

Nesse sentido, num dos textos publicados sobre o sítio neolítico antigo de Casas Novas, a que atrás fiz referência, Victor Gonçalves e Ana Catarina Sousa, sublinham quea presença de um habitat desta fase na margem esquerda do Baixo Tejo é especialmente relevante, atendendo que os atuais modelos démicos aplicados ao território português propõem que as primeiras ocupações neolíticas se tenham instalado fora das áreas dos últimos grupos de caçadores‑recolectores.” Gonçalves e Sousa, 2015: 40

Ora, restam poucas dúvidas sobre o facto de os últimos caçadores-recoletores e os primeiros neolíticos terem coexistido, no tempo, em muitas áreas europeias nomeadamente, em Portugal; quanto aos sítios neolíticos do Estuário do Tejo, fica igualmente claro que eles coexistiram, também no espaço, com os concheiros mesolíticos; nesse sentido, o exemplo mais notório é o de Cortiçóis, a que já fiz referência, localizado a curta distância dos concheiros de Muje.  

O sítio de Casas Novas, em frente a Coruche, foi objeto de uma escavação extensiva, abrangendo, no total, cerca de 400 m2. Uma única datação (5665‑5528 a.C), obtida a partir de carvões de espécies não identificadas, deu um resultado inverso ao da Valada do Mato, isto é, aponta para a fase de fundação e não para a fase de abandono do sítio.

Para além da proximidade relativa, a relação funcional entre Casas Novas e os terrenos granitóides do Maciço Antigo alentejano, sendo que os mais próximos se localizam a cerca de 20 km, foi sugerida, pelos responsáveis pela publicação do sítio, com base no estudo petrográfico das cerâmicas, uma vez que muitas delas contêm elementos não plásticos que denunciam solos de matriz granítica. Gonçalves e Sousa, 2018: 236

A relação com o Maciço Antigo manifesta-se igualmente, como seria de esperar, nas matérias-primas usadas nos instrumentos de pedra polida e nos elementos de moagem. Gonçalves e Sousa, 2018: 158

 

                     Fig. 6.11 – A relação entre Casas Novas e o Maciço Antigo (Gonçalves e Sousa, 2018)

Um dos aspetos mais disruptivos, introduzidos pela descoberta do “povoado” de Casas Novas, foi a extensão inusitada (cerca de 30 ha); até recentemente, em Portugal, o único vagamente comparável, é o sítio de Vale Pincel 1, em Sines (com cerca de 10 ha). Silva e Soares, 2015 

Porém, ao contrário de Vale Pincel 1, que foi interpretado como um povoado sedentário, apesar de alguma contestação, Zilhão, 1998 para Casas Novas foi proposto um “modelo de ocupações curtas, sazonais, eventualmente associadas com a exploração de recursos ligados ao meio ribeirinho.” Gonçalves e Sousa, 2018: 227

Já agora, note-se que outros sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo, apesar de não quantificadas as respetivas áreas, são descritos, mais ou menos sucintamente, como ocupando grandes extensões.

No caso do sítio dos Cortiçóis (Almeirim), por exemplo, os autores apenas afirmam que “a estação se estende por vasta áreaCardoso et al., 2013: 29 e colocam a “hipótese de a formação desta extensa estação arqueológica ter resultado de sucessivas ocupações do local” Cardoso et al., 2013: 58

Já o sítio da Quinta da Praia (Alcochete), publicado depois de Casas Novas, foi descrito, em termos dimensionais, como “a mais ampla realidade neolítica antiga documentada até ao momento na região“ Carvalho et al., 2019: 40, apesar de não terem sido avançados valores concretos.

Voltando a Casas Novas, interessa sublinhar queo elevado número de geométricos (41% dos registos de artefactos líticos) assume uma expressão muito superior ao registado em sítios neolíticos contemporâneos, o que pode indicar uma funcionalidade específica de Casas Novas ou mesmo a sua sazonalidade.” Gonçalves e Sousa, 2015: 235

Por outro lado, esse caráter sazonal de Casas Novas deduz-se também da baixa densidade de artefatos Gonçalves e Sousa, 2015: 280, comparando com os raros sítios do Alentejo Central que foram igualmente escavados e para os quais se propõe uma ocupação permanente.

Por exemplo, o número de fragmentos cerâmicos decorados proveniente de Casas Novas, Gonçalves e Sousa, 2018: 175 é praticamente idêntico ao que foi recolhido no Freixo do Meio 1 (perto de uma centena de exemplares, dos quais, num e noutro caso, cerca de uma dezena com decoração cardial).

No entanto, no Freixo do Meio 1 foi escavada apenas uma área com cerca de 40 m2, face aos 400 m2, escavados no sítio de Coruche.

Note-se, como já sublinhei, que, em todos os sítios de ar livre, desta época, as escavações revelaram estratigrafias positivas pouco complexas, quase sempre resumidas a uma única camada de ocupação, com cerca de 30 cm de espessura, em média. A variável principal é, realmente, a densidade da cerâmica, por m2. 

Porém, o principal argumento a favor da sazonalidade dos sítios neolíticos do Baixo Tejo, reside no escasso potencial agrícola das áreas onde se instalaram: no Sorraia, Victor Gonçalves e Ana Catarina Sousa invocaram o facto de o local estar sujeito a inundações periódicas e de “os solos arenosos” afastarem “uma utilização agrícola desta área”. Gonçalves e Sousa, 2015: 34, 239

Outros autores, a propósito também dos sítios neolíticos da mesma área, têm chamado a atenção para o facto de que os solos eram (e, em parte, ainda são) Paz et al. 2020 impróprios para a agricultura, devido, sobretudo, à elevada salinidade. Andrade et al, 2015: 33  

César Neves, um desses investigadores, concluiu, na sua tese de doutoramento, publicada recentemente, sobre o sítio do Neolítico médio da Moita do Ourives (Benavente), que, se a agricultura teve um peso significativo no subsistema económico deste grupo e na estratégia desta ocupação, então essa atividade terá sido realizada em outros espaços, ainda não identificados, possivelmente mais interiores no território, onde se encontrariam solos mais aptos.” Neves, 2023: 206

Como o leitor certamente já adivinhou, do meu ponto vista, esses “outros espaços”, “mais interiores no território” e, supostamente, “ainda não identificados” só podem corresponder às manchas de rochas granitóides do Alentejo Central (e do Alto Alentejo), onde não faltam, como vimos, sítios do Neolítico antigo/médio, Calado, 2004b; Carvalho, 2008: 299; Rocha, 2015: 111.

A hipótese que proponho, cruzando os dados disponíveis, é terem sido os grupos que habitaram, em permanência, os numerosos pequenos sítios no Alentejo Central (e, até agora, com muito menor visibilidade, no Alto Alentejo) a fazer curtas incursões periódicas às margens do estuário, com o objetivo de desfrutar dos recursos proporcionados pelo ambiente estuarino, nomeadamente a pesca e o marisqueio, mas não só.

A grande maioria dos sítios do Neolítico antigo/médio alentejano localiza-se, no máximo, a cerca de um dia de marcha, a partir dos sítios neolíticos do Baixo Tejo; a separá-los, temos aquilo a que chamei (e creio, por enquanto, ter boas razões para continuar a chamar) “terra de ninguém”.

Refiro-me a uma área extensa, que corresponde, em termos geológicos, à bacia terciária do Tejo, de terrenos detríticos, sobretudo areias e cascalheiras, de muito fácil transitabilidade, Deus, 2002: 92, 93 mas de escasso potencial agrícola, agravado pelo défice de água superficial, apesar de esconder, em profundidade, um aquífero notável. Mendonça, 2010: 62

Manuela de Deus observou, a propósito, que “o aparente vazio de povoamento na bacia terciária do Tejo (…) também ocorre na região de Montargil. Não foram identificados vestígios de povoamento na grande mancha de terrenos terciários”  Deus, 2002: 95

No início do Neolítico, extrapolando os dados polínicos de que dispomos, essa área estaria coberta, tal como o Maciço Antigo, por densas florestas de pinheiros e carvalhos; junto ao estuário, esta floresta alternava com áreas mais ou menos pantanosas onde foram registadas espécies halófitas. Soares, 2013b: 172; van der Schriek et al. 2007

Teoricamente, a total inexistência, ao longo de todo este vasto território, de evidências de povoamento neolítico, poderia resultar de um défice da investigação; porém, esse vazio, em termos de ocupação humana, manifesta-se igualmente em todas as épocas, até à Idade Moderna, certamente pelas mesmas razões.

Note-se que temos abundantes vestígios de povoamento pré e proto-histórico, relacionados com o estuário ou com as planícies aluvionares que o bordejam e só voltamos a tê-los já no Maciço Antigo ou muito perto. Pelo meio, o vazio absoluto: de povoados ou necrópoles, nem rastos, nem restos.

A transitabilidade central desta “terra de ninguém” era assegurada pelo festo Tejo-Sado, a principal linha estruturante da paisagem regional que, como vimos, faz parte dos grandes caminhos naturais de ligação entre o litoral e o interior peninsular; subsidiariamente, podemos considerar, em escalas mais próximas, que a ligação “viária” entre os limites superiores dos estuários do Tejo ou do Sado e as bordas do Maciço Antigo seria feita pelos festos secundários que separam os principais afluentes (basicamente, o Sorraia e o Almansor, de um lado, e as Ribeiras de Valverde e do Xarrama, do outro).

Na verdade, a provável navegabilidade dos referidos afluentes, entre os estuários e a periferia dos terrenos graníticos, contribui naturalmente para a conexão entre estas duas paisagens complementares.

Note-se que, no contexto de um trabalho já mencionado, sobre o conjunto megalítico da Herdade do Deserto, os autores defendem a relação desses monumentos com o “longo corredor de circulação entre o interior alentejano e o vale do Tejo, formado precisamente pelo interflúvio Rib. do Lavre – Rio Almansor.” Gonçalves e Andrade, 2020: 7


Um sabor a sal…

A falta de evidências (nomeadamente faunísticas) não permite estabelecer em que alturas do ano seriam frequentados os sítios neolíticos ribeirinhos, cuja sazonalidade parece, em todo o caso, bastante consensual; contudo, a hipótese mais razoável será, sem dúvida, a época estival, a mais apropriada, nomeadamente para o marisqueio e para a pesca, atividades que, no interior, seriam impraticáveis ou irrelevantes.

Porém, sem excluir, antes pelo contrário, esta possibilidade, acrescentaria outra, que creio bastante coerente com os dados disponíveis: a pastorícia.

No Neolítico antigo centro alentejano, a pastorícia e a agricultura são arqueologicamente pouco evidentes (por razões que têm a ver com a conservação dos materiais orgânicos), em termos de vestígios diretos.

No entanto, longe dos recursos aquáticos, a base económica dos primeiros neolíticos centro-alentejanos, teria sido, certamente, por exclusão de partes, a agricultura e a pastorícia, naturalmente complementada pela caça e recolecção, assim como pelo acesso mais ou menos regular aos ambientes aquáticos, sobretudo estuarinos, que as distâncias envolvidas certamente permitiam.

Por outro lado, é possível que a pastorícia tenha tido uma importância especial, na atividade económica destes grupos; esta preponderância pode deduzir-se a partir das representações dos báculos, nos menires e recintos megalíticos Calado, 2004b, mas também da preferência pelas áreas graníticas, muito mais adequadas à pastorícia do que à agricultura.

De resto, sabemos hoje que uma economia plenamente neolítica, em termos agrícolas e pastoris, estava bem instalada, desde datas muito precoces, no lapiás das Lameiras, Sintra, onde ossos de ovelha e cereais se conservaram. Davis e Simões, 2016

Tendo isto em conta, os sítios do Baixo Tejo, poderiam ser os locais de acampamento, em época estival, das populações neolíticas (ou de um segmento delas), instaladas no interior, que conduziriam os rebanhos até às lezírias, numa transumância que, em princípio, coincidiria com a redução das pastagens verdes, no interior, isto é, os meses de Julho e Agosto.

Esse pastoreio implicaria, para além da estadia nas zonas mais ou menos pantanosas, junto às áreas afetadas pelas marés, durante um certo período, o aproveitamento das pastagens, sempre mais frescas, no Verão, ao longo das margens e do leito dos afluentes que ligam o estuário ao interior, nomeadamente o Sorraia e o Almansor.

É preciso notar que a salinidade dos solos, sendo incompatível com a agricultura, não é, necessariamente, incompatível com o pastoreio, embora este deva ser equilibrado com períodos em pastagens não salinas.

Um exemplo contemporâneo muito conhecido é o do Mont de Saint Michel (França) onde se criam ovelhas que, durante cerca de sessenta dias por ano, se alimentam das plantas tolerantes à salinidade elevada, numa área ciclicamente inundada pelas marés. O curioso é que a carne denominada “prés salés” é considerada de qualidade superior…

Essa prática é, aliás, tradicional noutras partes da Europa, nomeadamente na Baía do Somme, também em França, nos Países Baixos ou no Reino Unido e Irlanda. McKinley et al. 2022

Outro aspeto que importa considerar, nesta provável sazonalidade, é a produção de sal, prática que, até agora, os dados arqueológicos só confirmaram a partir do Neolítico final, nomeadamente nos sítios da Comporta e do Baixo Tejo. Soares, 2008; Soares e Silva, 2013 Valera et al, 2006 mas que fazia certamente parte do quotidiano das populações do Neolítico antigo, como produto fundamental na conservação de alimentos e não só. Cassen e Grimaud, 2020

Com ou sem rebanhos, podemos ver nesta complementaridade entre uma economia de base agro-pecuária, só praticável plenamente no interior, e uma economia de pesca e marisqueio, exclusiva do estuário, uma variante do conceito de economia anfíbia ou agro-marítima, proposto pelos investigadores de Setúbal Soares, 2008; Soares, 2013b; Soares e Silva, 2013

De facto, na perspectiva, que tenho vindo a defender, de uma complementaridade económica, entre os sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo e os sítios do Alentejo Central e Alto Alentejo, não se trataria de relações de troca entre comunidades diferentes, mas das mesmas comunidades que viveriam, de forma permanente, no interior, e se deslocariam, anualmente, durante o Verão, todas ou em parte, para explorar os recursos estuarinos (a pesca, o marisqueio, o sal e, eventualmente, as pastagens salgadas.

No mesmo sentido, numa reflexão recente sobre o escoamento da produção de sal, no Neolítico final do Baixo Tejo, os autores propõem, depois de avaliarem as alternativas mais plausíveis, “uma relação preferencial com a periferia Noroeste do mundo do Alentejo Central”, por razões de proximidade espacial, naturalmente, mas também com base nos dados arqueológicos, nomeadamente as características das cerâmicas. Valera et al, 2006: 298

Também os responsáveis pelo estudo (sem escavação) do sítio das Casas Velhas do Coelheiro, atribuível a uma fase mais avançada do Neolítico antigo/médio regional, reconheceram que “o Tejo e seus afluentes, bem como as vastas planícies existentes na envolvência, permitiam aos grupos humanos um ritmo de mobilidade sem grandes condicionalismos geográficos, possibilitando a deslocação até territórios e contextos geológicos distintos — Estremadura e Alentejo interior —— com melhores condições para a prática da pastorícia e agricultura” Neves et al, 2015: 39

As deslocações da margem esquerda do Tejo para a Alta Estremadura justificam-se, objetivamente, em função da obtenção do sílex; quanto à agricultura e à pastorícia, o Alentejo interior seria naturalmente a opção mais plausível.

Seja como for, parece-me que a dimensão excecional de Casas Novas, tal como dos restantes sítios neolíticos do mesmo contexto geográfico, se deve relacionar diretamente com a densidade excecional do povoamento neolítico centro-alentejano; esta relação preferencial não exclui naturalmente outras áreas adjacentes, nomeadamente, em primeiro lugar, a Península de Setúbal, e, na margem oposta, a Península de Lisboa.

Em boa verdade, quanto à interpretação das dimensões excecionais ocupadas pelos sítios neolíticos ribeirinhos, na margem esquerda do Baixo Tejo, podemos, teoricamente, considerar várias hipóteses.

Uma delas foi avançada para o sítio das Casas Velhas do Coelheiro (Salvaterra de Magos), cuja ocupação, segundo os autores, se deve “ter efetuado de forma horizontal, ao longo da plataforma, em diversos episódios ocupacionais, de forma temporária, embora enquadrados num mesmo patamar crono-cultural.” Neves et al, 2015: 38

Outra possibilidade, que me parece mais consistente, seria toda a área ser ocupada em simultâneo, com uma malha de povoamento mais ou menos frouxa, durante um tempo limitado, coincidente com a época em que, no interior, as pastagens escasseiam e, no estuário, as condições são, em muitos aspetos, as melhores.

Se compararmos a densidade das cerâmicas decoradas, por m2, do sítio de Casas Novas com a do Freixo do Meio 1 (na razão de 1/10), e admitirmos, por hipótese, que ambos funcionaram, em paralelo, ao longo do mesmo período de tempo (por exemplo, entre 5500 e 5000 a.C.), a permanência em Casas Novas seria da ordem de um a dois meses por ano.

Os caminhos das pedras

Escrevi, em 1993 (antes da descoberta do Vale Maria do Meio, da Valada do Mato ou da escavação dos menires de S. Sebastião) que os “cromeleques parecem pontuar um trajeto entre os estuários do Tejo e do Sado e o Rio Guadiana; os menires ocidentais deste conjunto aparecem-nos, no festo entre os dois primeiros rios, logo que se atingem as primeiras formações graníticas” Calado, 1993b: 561

Nesse mesmo texto (em que, pela primeira vez, usei o conceito de Alentejo Central), ligando os menires à neolitização e esta implicitamente aos concheiros, aludi a um “processo que deve ter-se desenvolvido do litoral para o interior, a partir do Neolítico Antigo/Médio”, dando origem às “primeiras redes de povoamento sedentário” Calado, 1993b: 551

Isto significa que, desde então, creio que o que define melhor a personalidade do Alentejo Central e, ao mesmo tempo, a sua relação com as áreas adjacentes, é a rede viária natural, de que se destaca o caminho de “pé enxuto” que, ligando o litoral e o interior peninsular, é “espinha dorsal” do Alentejo Central. 

Mas, para além desta via principal, importa referir que o festo Guadiana/Sado (e, depois, Guadiana/Mira), é o caminho natural por excelência, de Évora para o Baixo Alentejo e o Algarve. De resto, a relevância que, em termos nacionais, Évora assumiu, no início da Idade Moderna, teve certamente a ver com essa posição geográfica privilegiada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

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