Introdução
Na maior
parte dos textos produzidos, em Portugal, nos últimos anos, sobre a
neolitização do território português, os dados que implicam
uma cronologia dos menires alentejanos e algarvios, dentro do Neolítico antigo/médio, não tiveram
praticamente nenhum impacte, ao contrário, por exemplo, do que acontece, aqui
ao lado, nomeadamente na Extremadura e Andaluzia. Vera et al., 2010; Cerrillo et
al., 2011
Esse
desinteresse é, creio, bastante curioso, sobretudo à medida que, como
vimos (Capítulo 4), se avolumam os dados disponíveis: datas absolutas, materiais associados,
contextos regionais, etc.
De facto, apesar das dimensões, os menires têm permanecido, de certo modo, invisíveis, mudos, talvez até incómodos…
Não é o objetivo deste livro explicar o extraordinário fenómeno da invisibilidade dos menires.
À primeira vista, é possível que uma parte do problema resida na
regionalização da investigação: o facto de, quer na Estremadura, quer na Costa
alentejana, por exemplo, não haver menires, em termos de dimensão, complexidade
e quantidade, comparáveis aos do Alentejo Central, pode contribuir para esse
aparente esquecimento, até porque os mentores dos principais modelos de
neolitização, os criaram a partir dos dados daquelas áreas.
É claro
que aceitar a antiguidade dos menires, implica incluí-los no processo de
neolitização, de que o Alentejo Central tem sido, de certo modo, excluído. E
isso requer obviamente uma boa revisão dos modelos interpretativos em uso.
A datação dos menires obriga a repensar a neolitização, em geral, mas a densidade de menires e, sobretudo, de recintos megalíticos, obriga a reconsiderar a neolitização do Alentejo Central e o papel desta região nesse processo.
É justo, entretanto, frisar que os modelos de neolitização em disputa foram construídos numa época em que o
Alentejo era um enorme vazio, em termos de sítios de ar livre, atribuíveis ao
Neolítico antigo, e os menires eram, sem discussão, atribuídos ao Neolítico final...
Porém, essa
atitude de negação (uma vez que a maioria do autores nem sequer refuta os
argumentos invocados) teve, que eu saiba, uma ou outra exceção.
Na
verdade, um dos raros exemplos em que a relação entre os menires e o Neolítico
antigo/médio não foi sequer questionada, por razões óbvias, a tese de
mestrado de Manuela de Deus, baseada, em parte, na escavação do recinto
megalítico do Alminho, cujos materiais são, aliás, como vimos, inequívocos. Deus, 2008
Curiosamente, por lapso, no Portal do Arqueólogo, a ficha de sítio do Alminho não faz referência ao monumento.
Outra
exceção, mais excecional por vir de um neolitista que não trabalha com o tema
do megalitismo, foi a tese de doutoramento de António
Faustino Carvalho, onde o autor admitiu que “uma hipótese alternativa é
a proposta (…) segundo a qual parte dos menires e cromeleques do Algarve
ocidental e do centro do Alentejo datará da fase de neolitização
destes territórios.” Carvalho, 2008: 301/302
Dito isto, o autor
apresentou alguns dos “principais argumentos” que sustentaram a tal hipótese,
nomeadamente “a coincidência espacial daqueles megálitos com manchas de dispersão
de artefactos datáveis do Neolítico Antigo”, e “a reutilização de menires na
construção de monumentos dolménicos”, factos que não contestou.
Contestou, e bem, a
validade inquestionável da datação do menir da Meada, por ser feita sobre
carvões “cujas espécies não foram determinadas”, o que, à partida, pode
envelhecer a amostra (podemos sempre acrescentar a clássica objeção de que os
carvões, incluídos nos alvéolos, podem ser provenientes de paleossolos e, por
isso, serem mais antigos).
Focando-se já nos menires do Algarve
(uma das áreas em que o autor tem trabalhado, no tema da neolitização), e, em
particular, no sítio da Caramujeira, António Faustino Carvalho refere “a
descoberta de um menir (…) em estratigrafia subjacente a níveis de ocupação do
Neolítico final”. Ora acontece que um dos autores da escavação da Caramujeira,
escreveu que " um dos
pequenos menires (m19) foi descoberto assente numa superfície argilosa e
coberto por uma camada arqueológica que continha (...) material datável do
Neolítico Antigo". Gomes, 1997
Desconheço qual a versão
definitiva, nem me parece muito pertinente
averiguar. Para o fim em vista, a conclusão mínima é de que o tal menir é anterior
ao Neolítico final…ou seja, é atribuível ao Neolítico antigo/médio, a não ser
que optemos pela única alternativa lógica, que seria recolocar a questão da possível
cronologia mesolítica dos menires algarvios. Calado
et al., 2004 a, 2004b
Já quanto à associação entre o menir
do Pedrão e a lareira de onde foi obtida a data 14C, A. F. Carvalho deu eco ao
argumento, apresentado uns anos antes por João Zilhão, Zilhão,
1998 segundo o qual não se poderia associar diretamente o menir e a
lareira; esta posição contradiz, no entanto, a observação publicada pelo autor
da escavação, o qual afirma taxativamente que a “camada arqueológica (C2) a que
correspondia a ocupação datada pelo 14C cobria as fossas de implantação dos dois menires, pelo que concluímos serem
dela coevos, especialmente o pequeno menir 2, ainda in situ”. Gomes, 1997: 176
Faltou acrescentar que, com os dados
disponíveis, e com os mesmos argumentos apresentados por João Zilhão, nada
obsta a que o dito menir possa ser, efetivamente, anterior à lareira.
Como felizmente os
menires algarvios estão incluídos no projeto Megalithic Origins, a que fiz referência no capítulo anterior,
talvez as novas datações façam com que o mistério fique um pouco menos denso e
estas contradições se esclareçam.
De resto, acrescentaria ainda que A.
F. Carvalho não mencionou uma série de dados relevantes, já disponíveis naquela
altura, Calado,
2004b nomeadamente os materiais cerâmicos e líticos, recolhidos nas
escavações de menires e recintos megalíticos alentejanos (sobretudo Almendres,
Xarez e Vale Maria do Meio), ou a associação recorrente entre menires e
Neolítico antigo, no Algarve ocidental, Gomes e Cabrita, 1993;
D. Calado 2000a, 2000b, 2004b entre outros
detalhes.
No mesmo trabalho, a propósito das flechas transversais, ficou esquecido o já mencionado exemplar proveniente da escavação do cromeleque de Vale Maria do Meio (Fig. 4.12). E ainda não se conheciam os já referidos exemplares de Casas Novas Gonçalves e Sousa, 2018.
Porém, nessa altura, A. F.
Carvalho considerava estes artefatos como tardios, dentro da sequência
neolítica nacional, e apoiou essa atribuição cronológica e cultural no conjunto de flechas
transversais, recolhido na Valada do Mato, que, a seu ver, estaria “bem
contextualizado e datado”. Carvalho, 2008: 265
Ora, a datação da
Valada do Mato é uma questão muito discutível e que importa urgentemente
esclarecer, tanto mais que se trata, ainda hoje, do único sítio neolítico
antigo datado pelo radiocarbono, no Alentejo Central.
E, naturalmente, por se localizar no “epicentro” dos grandes recintos megalíticos da região, tal como da mancha mais densa, em território português, de sítios do Neolítico antigo/médio. Calado, 2004b
3.2. A datação da Valada no Mato: dar tempo ao tempo
Conforme já observei,
precisamos de datas absolutas indiscutíveis, para o Neolítico antigo e para os
menires alentejanos, embora não falte outro tipo de evidências. Na verdade, essas datas são
sobretudo importantes, não tanto para datar o fenómeno genérico dos menires, sobre o
qual não existem grandes dúvidas, mas sobretudo a sua evolução, no tempo e no espaço,
ao longo do Neolítico antigo/médio.
Entretanto, é
indispensável proceder a uma reavaliação das datas absolutas disponíveis para a
Valada do Mato, tendo em conta as novas datações, e não só, em contextos
geográficos e artefatuais comparáveis. Silva e Soares, 2015; Gonçalves
e Sousa, 2015, 2018; Davis, 2016; Valera et al., 2020
Desse sítio, que se tornou icónico
sobretudo por ter sido objeto de cinco campanhas de escavação (de que resultou,
entre muitos outros textos, uma tese de doutoramento), Diniz, 2007 foram datadas três
amostras (duas delas repartidas por dois laboratórios distintos).
Das cinco datas
resultantes, só aquela que foi obtida a partir de uma amostra de carvão, foi aceite
como válida, pela responsável pelo estudo. Essa decisão, apoiou-se num parecer do Eng. Monge
Soares, na época o responsável pelo Laboratório de Radiocarbono de Lisboa.
De facto, o
referido parecer foi solicitado com base nas discrepâncias entre a
data obtida sobre carvão e as outras datas, obtidas sobre ossos carbonizados
(uma vez que todas provinham do mesmo contexto estratigráfico).
Esse contributo pôs
objetivamente em causa a competência dos laboratórios de Groningen (Holanda) e
de Waikatu (Nova Zelândia), onde foram datadas as amostras em questão, ao
apontar “uma
fiabilidade muito reduzida, uma vez que não está demonstrada a eficácia do
protocolo utilizado na descontaminação das amostras” Diniz, 2007:151.
Isto significa que, apesar de “as
duas amostras (…) processadas em diferentes laboratórios”, terem “fornecido
resultados estatisticamente idênticos”, considerou-se que os valores pareciam “excessivamente recuados quando confrontados com o intervalo de tempo obtido
para a mesma estrutura, a partir de uma amostra de carvão.” Diniz, 2007: 151
Com base nestas informações, pedi
um parecer ao Dr. Michael Dee, atual diretor do Laboratório de Groningen, que
respondeu, com prontidão, que se “a mesma amostra foi tratada em dois
laboratórios diferentes e os resultados são equivalentes, tenderia a acreditar
que estão corretos. Se houvesse contaminação, as probabilidades de esta ter
afetado o osso de igual forma, em cada caso, são bastante baixas.”
Note-se que as datações
rejeitadas, calibradas a 2 sigmas, cobrem um intervalo entre 5670 e 5081 a.C.,
sendo que este último valor se articula com a referida data sobre carvão (5040-4790
a.C.); assim, a fazer fé em todas estas datas, a ocupação da Valada do Mato
teria arrancado no terceiro quartel do VI milénio a.C. e entrado pelo primeiro
quartel do V milénio a. C.. Isto é, estaria, no mínimo, entre as datas mais
antigas, no território português, perfeitamente compaginável com a data obtida
para Casas Novas (Coruche) Gonçalves e Sousa, 2018, que é, de entre os sítios até agora datados pelo
radiocarbono, aquele que se localiza mais perto do famoso sítio alentejano.
É certo que Mariana Diniz, sugere que “a data obtida a partir do carvão (…) deve corresponder (…) ao momento de abandono do sítio” Diniz, 2007:162, e que “perante a dimensão do conjunto artefactual e as características das estruturas identificadas, (…) o sítio terá sido objeto de uma ocupação relativamente longa.” Diniz, 2007: 163
Como sabemos, não são raros os sítios do Neolítico antigo peninsular em que (com base em séries de datações absolutas ou nas tipologias dos materiais), se supõe terem funcionado continuamente ao longo de vários séculos. Jímenez, 2017
Vem a propósito a discussão, apresentada
num texto sobre o Neolítico antigo, no Vale de Ambrona (Soria, Espanha), em que
os autores, depois de avaliarem dois conjuntos de datas, obtidas a partir de
amostras provenientes de contextos fechados, concluem que “no estado atual dos nossos conhecimentos”
estas datas “lançam muitas
dúvidas sobre todo o sistema cronológico que foi construído em torno das
origens do Neolítico na Península Ibérica.” Rojo-Guerra et al.,
2008: 38
A perplexidade destes autores resulta sobretudo do
facto de, no interior das mesmas estruturas negativas, tipo silos, se terem
obtido, sobre amostras de vida curta, diferenças de vários séculos, o que
levanta obviamente questões sobre a formação do registo arqueológico, mais do
que sobre os métodos de datação.
E creio que o mesmo se pode aplicar à Valada do
Mato. A coincidência, no mesmo pacote sedimentar, de materiais correspondentes
a diferentes momentos da vida dos sítios, é uma situação recorrente e
expectável, sobretudo, em contextos habitacionais.
Tendo isto em mente, a maioria das propostas de atribuição cronológica, no que diz respeito a sítios de ar livre, mesmo que com base em materiais de escavação, é passível de reinterpretação.
Um exemplo,
entre muitos, é o do povoado da Salema, atribuído ao Neolítico antigo
evolucionado; a presença de cerâmica cardial, a par do caraterístico “sulco
abaixo do bordo” pode, em alternativa, implicar uma larga diacronia, desde o
Neolítico mais antigo, até ao Neolítico médio. Silva e Soares,
1981
Muito discutível, a meu ver, é também a cronologia proposta para o sítio dos Cortiçóis, atribuído aos finais do V milénio a.C. (com base na presença de cerâmica com decoração "penteada"), Cardoso et al., 2013.
Destaco o facto de, no artigo publicado sobre este sítio, ter sido apresentado um número excecionalmente elevado de desenhos de fragmentos cerâmicos, embora, pelos vistos, sem discriminação estratigráfica. Porém, atendendo à presença da decoração impressa, incisa e plástica, parece indiscutível que, sem excluir uma eventual sobrevivência do sítio até momentos tão tardios, estamos perante um sítio cuja ocupação deve ter arrancado no Neolítico antigo.
De facto, os autores do estudo sobre os Cortiçóis, começam por reconhecer que o "povoado" se inscreve “em fase adiantada do Neolítico Antigo, comparável a outros registos estremenhos (Cardoso, 2010), dos quais o mais bem datado é o do Carrascal (Oeiras), abarcando todo o último quartel do VI milénio a.C. (Cardoso, 2011).” Cardoso et al., 2013: 56. Na verdade, o sítio pode, sem grandes dúvidas, ser atribuído a uma fase inicial do Neolítico antigo, se compararmos as ditas cerâmicas com outros contextos datados, como Lameiras, em Sintra, ou Casas Novas, em Coruche.
A própria atribuição das cerâmicas com decoração penteada, exclusivamente aos finais do V milénio a.C., é altamente discutível; recordo que este tipo decorativo foi igualmente registado no sítio eborense da Valada do Mato, cuja cronologia discuti mais acima.
No caso concreto dos Cortiçóis, a atribuição cronológica tardia permite manter a narrativa do modelo colonialista, uma vez que, a ser assim, não haveria contemporaneidade entre o sítio e os concheiros de Muge. Havendo contemporaneidade, como me parece óbvio, cai estrondosamente por terra o modelo dos enclaves pioneiros, já abalado pela descoberta do sítio das Casas Novas, que dista de Muge cerca de duas dezenas de quilómetros.
É claro que, se aceitarmos que as principais variáveis observadas na cultura material não têm necessariamente implicações cronológicas, tudo indica que esses sítios, tal como a Valada do Mato, são genericamente contemporâneos de Vale Pincel 1, Lameiras, Sra. da Alegria, Casas Novas, Padrão ou Cabranosa, só para citar sítios de ar livre, localizados em diferentes contextos geográficos, mas com datas (algumas discutíveis, como sempre) a partir de meados do VI milénio a. C. até aos inícios do V milénio a. C. Silva e Soares, 2015; Gonçalves e Sousa, 2015, 2018; Davis, 2016; Valera et al., 2020
De resto, datar um sítio neolítico com apenas uma data (neste caso, sem datações absolutas), é bastante contraditório com a expectável longa duração da ocupação (contínua ou não) destes locais, a que já fiz menção.
É preciso reconhecer que, no estado atual dos nossos
conhecimentos, e face à falência do modelo cardial (assente na antiguidade relativa
desse tipo de decoração impressa, cuja versão mais barroca só tem sido atestada em necrópoles ou achados avulsos e, mesmo aí, com escassa representatividade estatística), a variabilidade
artefatual do Neolítico antigo não permite, por ora, inferir cronologias
finas.
Perante as datas, obtidas sobre ossos de ovelhas, nas
Lameiras (Sintra), João Zilhão contornou o problema, escrevendo que “estes ossos
demonstram uma ocupação de época Cardial, mas a cultura material associada
ainda não foi publicada”; porém, as datas são mais antigas que as do cardial
“clássico”, escavado nas grutas da Alta Estremadura e, apesar de os dados ainda
não estarem integralmente publicados, sabemos que, mesmo que haja um ou outro
fragmento cardial, Lameiras seria sempre, no esquema daquele autor, integrado na fase
epi-cardial.
De resto, João
Zilhão propõe, num texto recente, que a “cerâmica extensivamente decorada com impressões de conchas
e pentes pertence provavelmente” (sublinhado meu) Zilhão, 2021: 747 à
fase mais antiga que, segundo ele, se relaciona com a chegada de colonos
pioneiros.
A fase seguinte seria representada por “outro estilo de decoração – as impressões de conchas formando faixas abaixo do bordo e grinaldas entre os botões de preensão – data provavelmente (sublinhado meu) de uma época um pouco posterior.” Zilhão, 2021: 747
Marco Andrade, perante os mesmos dados, sugere a “coexistência teórica de dois
universos culturais distintos”, um deles correspondendo ao cardial barroco e o
outro ao epi-cardial. Andrade, 2015: 205
Recordo que, há quase meio século, os investigadores
da área de Sines já colocavam a “hipótese de (…) a corrente cardial ter sido,
pelo menos parcialmente, sincrónica de uma outra formada por cerâmica impressa
não cardial, mais relevante e principal responsável pelo desenvolvimento do
Neolítico Antigo desta área.” Silva e Soares, 1981: 98, 99
Esta proposta ganhou, nos últimos anos, atualidade,
com novas datações para Vale Pincel 1, Casas Novas e Lameiras, sem as quais
esses sítios seriam mais ou menos automaticamente encaixados numa segunda fase,
dita epi-cardial ou evolucionada.
Note-se que o modelo de evolução crono-tipológica,
proposto por João Zilhão e António Faustino Carvalho, com base nos dados da
Estremadura (Gruta do Caldeirão e Galeria da Cisterna, na nascente do Almonda),
parece, para já, bastante sólido e não suscita grandes dúvidas Zilhão
e Carvalho, 2011; Carvalho, 2011, p. 249. Assente em datações
sobre espécies de vida curta, tudo aponta para um início da neolitização, nessa
área, a partir de 5400 a.C., ou mesmo um pouco antes, com cerâmica cardial dita
barroca, na base. Zilhão e Carvalho, 2011; Zilhão, 2021
Na verdade o barroquismo cardial não é muito óbvio; o facto de, na Alta Estremadura, estarmos perante necrópoles, para além de poder implicar uma escolha específica de vasos destinados a funções rituais, como outros autores já observaram, implica também que estamos perante peças mais completas, comparando com os fragmentos dos "povoados", o que, neste último caso, dificulta seriamente a identificação de possíveis barroquismos. Porém, basta passar os olhos pelos materiais, para reconhecermos que, em muitas das peças destes contextos, a decoração não se limitava a "faixas abaixo do bordo e grinaldas entre os botões de preensão" Zilhão, 2021: 747
Porém, o modelo em causa, mesmo que válido para as
grutas da Alta Estremadura, não pode, aparentemente, ser generalizado, nem
sequer aos sítios de ar livre da Baixa Estremadura e, muito
menos, às restantes áreas em disputa, isto é, Península de Setúbal, Estuários, Costa Sudoeste, Alentejo interior.
Vale Pincel 1 (Sines) e Casas Novas (Coruche), um sem cerâmica cardial (ou quase) e o outro com relativamente pouca, deram datações (talvez um pouco menos indiscutíveis) que, significativamente, concordam com as de Lameiras (Sintra).
A circulação de pessoas (juntamente com animais, coisas e
ideias), relacionada com práticas exogâmicas, e o uso da decoração da cerâmica
como marcador identitário, explicariam, só por si, as diferenças regionais (e
locais) e a longa duração em que foram usados certos motivos e técnicas,
nomeadamente o cardial ou o boquique, só para referir os mais citados e pensando apenas no Mediterrâneo ocidental. Diniz, 2021: 1662
Em última análise, o esquema cronológico mais consensual para o
Neolítico antigo/médio, no Sudoeste peninsular, implica uma predominância, nas fases
iniciais, da decoração impressa e plástica (com e sem cardial), face à
decoração incisa, e uma fase final, em que a decoração se resume a um sulco
abaixo do bordo, antes da generalização das cerâmicas lisas, no Neolítico final.
Para além disto, pouco sabemos, na verdade. As
balizas cronológicas aventadas pelos diversos autores, com base nos materiais,
raramente coincidem, e a “culpa” não é certamente dos materiais, mas talvez sim
das diferentes perspectivas com que são organizados e interpretados.
Voltando à Valada do Mato, apesar do cuidado com que
foi explicitado o critério de validação da data mais tardia e apesar da
sugestão de que ela corresponderia à data do abandono do sítio (e também de que
a data da fundação deveria ser bastante anterior), isso não evitou que, consciente ou inconscientemente, essas incertezas fossem esquecidas
e o sítio repetidamente integrado numa segunda fase da neolitização do nosso
território, correspondendo grosso modo, à primeira metade do V milénio a. C.
No limite, a Valada do Mato foi “atirada”
para o Neolítico médio, ao lado do sítio algarvio do Castelo Belinho, como “os únicos sítios
arqueológicos do Portugal meridional que poderão, sem qualquer tipo de
reservas, ser incluídos nesta categoria” (povoados sedentários) e que “datam já
do milénio seguinte” (V milénio a.C.). Carvalho,
2008: 301
A
árvore e a floresta
Já sublinhei, mais acima, o estranho divórcio entre megalitismo e neolitização; esse “bloqueio” aplica-se, nomeadamente, à Valada do Mato, apesar de este sítio se localizar a Oeste de Évora, manifestamente na mesma paisagem onde se encontram os três maiores cromeleques da Península Ibérica, dos quais dista apenas 2-3 Km, no caso da Portela de Mogos e de Vale Maria do Meio, e cerca de 8 km dos Almendres.
De resto, tem sido igualmente esquecido,
sistematicamente, que a Valada do Mato faz parte de um vasto conjunto de
“povoados” da mesma época, identificados, na sua maioria, no contexto do
projeto LAVAMME (Levantamento Arqueológico do Vale Maria do Meio).
Essa campanha de prospecções, levada a cabo em 1994,
foi organizada depois de eu próprio ter identificado, nos arredores de Évora,
o sítio da Valada do Mato e, com um grupo de alunos da FLUL (com destaque para o Augusto Salgado que teve um papel importante), o recinto de Vale Maria do
Meio.
O referido projeto contou com a participação de uma
equipe de alunos de Arqueologia da FLUL (Rui Mataloto, Rui Almeida, Nuno Vasco,
Sandra Lourenço, Margarida Monteiro, Susana Estrela) e, em duas semanas, foram
identificados cerca de três dezenas de sítios, atribuíveis, quase todos, ao
Neolítico antigo/médio. Calado e Sarantopoulos, 1996
Note-se o Vale Maria do Meio (e a Valada do Mato) se
localizam nas proximidades do ponto, a que já fiz referência, onde se encontram
as bacias do Tejo, do Sado e do Guadiana, e dos respetivos festos (perto da Graça
do Divor); de resto, a relação entre a Valada do Mato e este ponto especial na
paisagem do Alentejo Central, não passou despercebida, no estudo detalhado sobre
o sítio. Diniz,
2007
Fig - 6.1 – Mapa com a localização do sítio da Valada do Mato e limites das bacias hidrográficas do Tejo, Sado e Guadiana. Diniz, 2007: fig. 16
O mito das estratigrafias neolíticas
Tal como me parece difícil interpretar a Valada do Mato (e por extensão, o Neolítico antigo/médio desta região), sem incluir, na equação, os menires e cromeleques, o mesmo se aplica à omissão dos sítios genericamente contemporâneos da Valada do Mato, que, até agora, não foram objeto de escavações (Fig. 6.2).
Nesta questão reflete-se, parece-me, uma tendência relativamente comum, a que já fiz referência, que consiste em sobrevalorizar os sítios que foram escavados e, dentro destes, os que proporcionaram datações diretas, mesmo que, como neste caso, claramente problemáticas.
Teoricamente, todos sabemos que as “recolhas de superfície (…) apresentam condicionalismos na caracterização de um sítio arqueológico que só uma recolha em contexto estratigráfico (sublinhado meu) ajuda a esclarecer” Neves et al, 2016: 36
Porém, na prática, considerando apenas
os sítios neolíticos, de ar livre, que têm sido escavados, quer no Alentejo
Central, quer nas regiões limítrofes, todos os casos correspondem a “sítios
monofásicos”, Diniz, 2007 com cronologias
deduzidos geralmente da cultura material, com estruturas positivas mal
conservadas e estruturas negativas que, por vezes, contêm, como vimos,
materiais de várias fases misturados. Para além da escassez ou ausência de
amostras para datação, especialmente, como seria desejável, sobre espécies de
vida curta.
No limite, estão aqueles sítios, e são muitos, em que foram reportadas perturbações tafonómicas profundas que pouca utilidade dão ao registo estratigráfico. Arias et al., 2015: 214; Gonçalves e Sousa, 2015: 39
Um bom exemplo, é o já referido sítio dos
Cortiçóis (Almeirim) onde “o intenso revolvimento da camada arqueológica”,
inviabilizou “qualquer análise de distribuição dos materiais arqueológicos pela
área explorada, tanto em planta, como em profundidade. Cardoso et al.,
2013: 30
Outro
destes sítios ribeirinhos, a Vala Real, onde houve apenas brevíssimas escavações
de salvamento (8 m2), sem datações, e apenas com 42 fragmentos de
cerâmica de fabrico manual, nomeadamente 6 fragmentos de bordo. Apesar deste
cenário minimalista, as autoras consideram, e bem, creio, que, apesar de muito
escasso, o espólio cerâmico permite a atribuição do sítio ao Neolítico antigo. Aldeias
e e Gaspar, 2007
Um cenário muito semelhante é descrito para o sítio da
Quinta da Praia Carvalho et al., 2019. Neste, foram
efetuados apenas 3 m2 de sondagens, sem grandes resultados, graças
às perturbações estratigráficas detectadas; uma única datação, da camada julgada
mais intacta, deu uma data de época moderna/contemporânea. Perante este
resultado, os autores optaram, sensatamente, por dar preferência às prospecções
de superfície.
Em suma, nos sítios de ar livre, quase sem exceção, as estratigrafias ditas monofásicas, são, provavelmente, em muitos casos, estratigrafias-palimpsestos, acumuladas e misturadas ao longo de séculos.
Perante isto, conclui-se facilmente que, na prática, os resultados da escavação, neste tipo de sítios, pouco diferem dos que se obtêm através da prospecção de superfície, sobretudo no que respeita à cronologia; em ambos os casos, resta a informação veiculada pela cultura material, como um pacote, isto é, sem a virtude da ordenação estratigráfica.
Claro que as escavações (dependendo, como vimos, da extensão da área escavada)
podem, à partida, proporcionar um número mais elevado de artefatos e, apenas elas,
em áreas privilegiadas, obter ecofatos e datações…
Finalmente, é bom recordar que algumas questões fundamentais,
nomeadamente de ordem demográfica e macroespacial se resolvem, antes de mais, através
da prospecção de superfície.
Muita gente...
Há vinte anos, reuni, no terceiro volume da minha tese de doutoramento, (disponível online em https://www.academia.edu/),
uma listagem de mais de 2400 sítios, genericamente atribuíveis ao Neolítico e
ao Calcolítico, incluindo menires, antas, arte rupestre, achados avulsos e,
sobretudo, “povoados”, a esmagadora maioria dos quais, como resultado das prospecções
que efetuei ou coordenei, no Alentejo Central, ao longo dos vinte anos
anteriores e a que mais atrás já fiz breves referências.
Para o que aqui nos interessa, destaca-se um conjunto
de 80 sítios, praticamente todos adossados a afloramentos graníticos mais ou
menos monumentais, e que, com base na presença de lamelas e/ou cerâmica
decorada, atribuí ao Neolítico antigo/médio. Desses, alguns (poucos) foram
entretanto escavados, como aconteceu com a Valada do Mato e o Patalim, em
Évora, e os sítios da Baixa do Xarez, em Reguengos de Monsaraz e, naturalmente,
essa cronologia genérica foi confirmada, em todos eles.
|
Designação |
nº |
cmp |
M |
p |
cerâmica
decorada |
lamelas |
silex |
Concelho |
|
Pucícaros de Cima |
272 |
409 |
208475 |
213500 |
x |
x |
Mora |
|
|
Olival |
318 |
410 |
216075 |
210175 |
x |
x |
Arraiolos |
|
|
Monte do Paço 1 |
355 |
422 |
191750 |
200825 |
x |
Montemor-o-Novo |
||
|
Quintais |
442 |
426 |
256975 |
201450 |
x |
Borba |
||
|
Estrelada |
538 |
437 |
203125 |
199550 |
X |
Arraiolos |
||
|
Montinho 1 |
577 |
437 |
214100 |
192825 |
x |
Arraiolos |
||
|
Santarém |
603 |
437 |
202975 |
198925 |
X |
Arraiolos |
||
|
Ferrenha 6 |
717 |
439 |
242800 |
193625 |
X |
Redondo |
||
|
Bencatel |
782 |
440 |
260325 |
198200 |
x |
x |
Vila Viçosa |
|
|
Carrascal 2 |
790 |
440 |
253325 |
191000 |
X |
Redondo |
||
|
Mamões |
822 |
440 |
248650 |
196789 |
X |
Estremoz |
||
|
Casa Nova |
927 |
447 |
186100 |
186600 |
x |
Montemor-o-Novo |
||
|
Azinhalinho 4 |
961 |
448 |
213325 |
181825 |
X |
Évora |
||
|
Casbarra |
980 |
448 |
211925 |
183575 |
x |
x |
Évora |
|
|
Casbarra 3 |
982 |
448 |
212525 |
182475 |
x |
Évora |
||
|
Jarro |
1007 |
448 |
209975 |
181475 |
x |
Évora |
||
|
Jarro 2 |
1008 |
448 |
209950 |
181150 |
x |
Évora |
||
|
Laranjal da Varge 3 |
1012 |
448 |
211599 |
182035 |
x |
Évora |
||
|
Laranjal de Varge 2 |
1013 |
448 |
211050 |
182100 |
x |
x |
Évora |
|
|
Laranjal de Varge 5 |
1015 |
448 |
210625 |
182050 |
x |
Évora |
||
|
Monte da Pouca Farinha 6 |
1038 |
448 |
212925 |
182215 |
x |
Évora |
||
|
Oliveira 4 |
1058 |
448 |
214975 |
186025 |
X |
X |
Évora |
|
|
Oliveira 5 |
1059 |
448 |
214625 |
184575 |
X |
X |
X |
Évora |
|
Paicão 1 |
1061 |
448 |
207375 |
180300 |
X |
X |
x |
Évora |
|
Patalim |
1065 |
448 |
204982 |
183460 |
x |
X |
x |
Évora |
|
Páteo do Azinhal 1 |
1068 |
448 |
212150 |
181975 |
X |
X |
Évora |
|
|
Páteo do Azinhal 2 |
1069 |
448 |
212000 |
182000 |
X |
X |
Évora |
|
|
S. Matias |
1087 |
448 |
211735 |
180583 |
X |
X |
Évora |
|
|
Sobral 1 |
1097 |
448 |
210291 |
181300 |
X |
X |
X |
Évora |
|
Valada 14 |
1104 |
448 |
210625 |
182950 |
X |
Évora |
||
|
Valada 4 |
1109 |
448 |
211100 |
183100 |
X |
Évora |
||
|
Valada 5 |
1110 |
448 |
210875 |
182800 |
X |
X |
Évora |
|
|
Valada 7 |
1112 |
448 |
211025 |
182650 |
X |
X |
Évora |
|
|
Valada do Mato 2 |
1118 |
448 |
212100 |
182775 |
X |
Évora |
||
|
Valada do Mato 4 |
1120 |
448 |
212150 |
182300 |
X |
X |
Évora |
|
|
Vale Maria do Meio 10 |
1135 |
448 |
211075 |
183450 |
X |
Évora |
||
|
Vale Maria do Meio 11 |
1136 |
448 |
210975 |
183450 |
X |
Évora |
||
|
Vale Maria do Meio 4 |
1141 |
448 |
210950 |
183375 |
X |
Évora |
||
|
Vale Maria do Meio 6 |
1143 |
448 |
210650 |
182325 |
X |
Évora |
||
|
Vale Maria do Meio 8 |
1145 |
448 |
210325 |
182325 |
X |
Évora |
||
|
Vale Maria do Meio 9 |
1146 |
448 |
210550 |
183250 |
X |
X |
Évora |
|
|
Carrascal 1 |
1174 |
449 |
224575 |
187525 |
X |
Évora |
||
|
Monte do Pomar de Cima |
1202 |
449 |
216225 |
185425 |
X |
X |
X |
Évora |
|
Penedo do Ouro 1 |
1220 |
449 |
217550 |
184500 |
X |
X |
Évora |
|
|
Vale de Anta 2 |
1458 |
451 |
250625 |
189525 |
X |
X |
X |
Redondo |
|
Quinta do Gato 8 |
1541 |
458 |
190225 |
173100 |
X |
x |
Montemor-o-Novo |
|
|
Alcamizes |
1554 |
459 |
212550 |
176025 |
x |
x |
Évora |
|
|
Almendres 1 |
1558 |
459 |
206700 |
176400 |
x |
x |
Évora |
|
|
Almendres 2 |
1560 |
459 |
206295 |
176583 |
x |
x |
Évora |
|
|
Almendres 3 |
1561 |
459 |
206073 |
177200 |
X |
Évora |
||
|
Cabanas 1 |
1586 |
459 |
206125 |
173375 |
x |
Évora |
||
|
Cabanas 3 |
1590 |
459 |
206125 |
173375 |
x |
x |
Évora |
|
|
Malhada do Esbarrondadoiro |
1627 |
459 |
213575 |
180475 |
X |
x |
Évora |
|
|
Maré |
1628 |
459 |
214125 |
179975 |
X |
x |
Évora |
|
|
Monte dos Almendres |
1652 |
459 |
207550 |
177600 |
x |
x |
Évora |
|
|
Viscossa 2 |
1692 |
459 |
215182 |
178422 |
X |
Évora |
||
|
Alto de S. Bento |
1696 |
460 |
216974 |
179079 |
x |
X |
x |
Évora |
|
Freiras |
1831 |
469 |
189800 |
169675 |
X |
x |
Montemor-o-Novo |
|
|
Carrascosa |
1922 |
472 |
236300 |
162500 |
x |
x |
Évora |
|
|
Monte do Ramal |
1931 |
472 |
233678 |
169567 |
x |
X |
Évora |
|
|
Montinho |
1933 |
472 |
234284 |
163889 |
x |
x |
Évora |
|
|
Barrocal |
1956 |
473 |
262150 |
164300 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Barrocal 19 |
1967 |
473 |
262075 |
164125 |
x |
Reguengos de Monsaraz |
||
|
Barrocalinho 14 |
1985 |
473 |
259225 |
163900 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Barrocalinho 16 |
1987 |
473 |
259700 |
163950 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Barrocalinho 17 |
1988 |
473 |
259700 |
164400 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Contenda 2 |
2013 |
473 |
251675 |
167150 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Gorginos |
2027 |
473 |
260925 |
163300 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Santa Margarida 6 |
2081 |
473 |
260925 |
163300 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Fonte dos Sapateiros |
2103 |
474 |
264625 |
161525 |
x |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Xarez 12 |
2137 |
474 |
266625 |
161000 |
x |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
Xarez de Cima 4 |
2164 |
474 |
264375 |
161550 |
x |
X |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Monte da Serra |
2195 |
480 |
222950 |
155400 |
x |
x |
Évora |
|
|
Murteiras |
2204 |
480 |
222240 |
157098 |
x |
X |
x |
Évora |
|
Vale de Chaissos 1 |
2225 |
480 |
222250 |
156250 |
x |
Évora |
||
|
Carraça |
2274 |
482 |
262740 |
161208 |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
|
Estabulinho 3 |
2315 |
482 |
254450 |
157550 |
X |
Reguengos de Monsaraz |
||
|
Pipas 1 |
2395 |
482 |
263200 |
157300 |
x |
X |
x |
Reguengos de Monsaraz |
|
Torre do Esporão |
2408 |
482 |
250800 |
158350 |
x |
Reguengos de Monsaraz |
||
|
Malhada dos Gagos 6 |
2434 |
483 |
264800 |
158900 |
x |
Reguengos de Monsaraz |
Fig. 6.2 - Lista dos sítios do Neolítico antigo, de ar livre, no Alentejo Central (Calado, 2004b, adaptado)
Fig. 6.3 - Casbarra 2 (2-5); S. Matias (6 e 7);
Oliveirinha (8); Montinho 1 (9); Laranjal da Varge (10); Vale Maria do Meio 4
(11); Jarro (12) e Palheireiros (13,14): materiais de superfície (cerâmica)
(seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 348).
Fig. 6.4 – A: Vale Maria do Meio 1 (1); Vale Maria do Meio 4 (2 e 3); Jarro 1 (4); Vale Maria do Meio 12 (5); Jarro 2 (6 e 9); Laranjal da Varge (7 e 8): materiais de superfície (cerâmica e líticos) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 349); B: Carrascosa: materiais de superfície da (cerâmica) (seg. Calado, 1995; Calado, 2004b: 350)
Fig. 6.5 - Oliveira 5:
materiais de superfície (cerâmica e líticos). (Calado, 2004b: 353)
Fig. 6.6 – A: Materiais de superfície do Jarro 1 (Calado, 2004b: 360); B: Vale Maria do Meio 4 (1);Vale Maria do Meio 11 (3, 5); Laranjal da Varge 5 (2) e Laranjal da Varge 2 (4): materiais de superfície (cerâmica). (Calado, 2004b: 361)
Fig. 6.7 – A: Nó Poente (1); Barrocalinho 17 (2); Pedra da Moura (3); Vale de Anta (4): materiais de superfície (cerâmica). (Calado, 2004b: 362); B: Arredores de Vale Maria do Meio: materiais de superfície (cerâmica).
Porém, convém deixar claro que excluí, desta lista, outros
309 sítios, todos com cerâmica manual e todos relacionados com afloramentos
graníticos, mas que, por falta de elementos mais específicos, atribuí genericamente
ao Neolítico/Calcolítico.
Dentro deste conjunto, destaca-se um subconjunto (44
sítios), em que, além da cerâmica manual, sem decoração, foram registados
restos de talhe de sílex. Como sabemos, este material torna-se relativamente
raro, a partir do Neolítico final, nesta região, em comparação com a quantidade
de fragmentos cerâmicos; pelo contrário, no Neolítico antigo/médio, o sílex
tende a ser estatisticamente mais relevante que a cerâmica. Gonçalves
e Sousa, 2015; 2018
Seja como for, é absolutamente previsível que,
destes sítios excluídos, uma parte significativa venha a acrescentar a lista do
Neolítico antigo/médio centro-alentejano. Isto para além dos registos que
incluí na categoria de “achados avulsos”, normalmente sem cerâmica, mas também com
artefatos genericamente neolíticos ou calcolíticos.
E, a propósito, convém sublinhar, mais uma vez, o facto de existirem ainda, no Alentejo Central, extensas áreas graníticas por prospetar, pelo que o que conhecemos é apenas a ponta do iceberg.
Mas, se considerarmos “apenas” os 80 sítios atribuíveis
ao Neolítico antigo/médio (em 2004) e os tomarmos como amostra representativa
da região, concluímos que a distribuição dos sítios não depende (ou não depende
apenas) do “estado da arte”.
Desses, 49 (62%) localizam-se no concelho de Évora e
16 (19%), no concelho de Reguengos de Monsaraz.
Os restantes 15 sítios distribuem-se, do seguinte
modo: Montemor-o-Novo, 4 (5%); Arraiolos, 4 (5%); Redondo, 3 (4%); Mora, 1 (1,
25%); Estremoz, 1(1, 25%); Vila Viçosa, 1(1, 25%), Borba, 1(1, 25%).
Em Alandroal, Portel, Viana do Alentejo e Vendas
Novas não se conhece nenhuma ocorrência; nos três primeiros casos, foram feitas as respetivas Cartas Arqueológicas. Como a
maior parte do concelho de Vendas Novas abrange a bacia terciária, que, por
enquanto, é um vazio absoluto, em termos de ocupação humana antiga, resta-nos
Viana do Alentejo onde, à partida, como referi, deveríamos encontrar sítios do
Neolítico antigo, articuláveis com o estuário do Sado, através da Ribeira do
Xarrama; foram, recentemente, identificados alguns menires, neste concelho e, pelo menos, dois sítios neolíticos ainda mal caraterizados.
Fig. 6.8 - Distribuição dos sítios do Neolítico antigo/médio, no Alentejo Central (Calado, 2004b).
Fig. 6.9 – Sítios do Neolítico antigo e os três maiores recintos megalíticos de Évora.
As linhas tracejadas são os festos. (Calado, 2004b)
Na minha perspectiva, a extraordinária densidade de sítios do Neolítico antigo/médio, na região, era
perfeitamente expectável, uma vez que a monumentalidade dos grandes menires e
recintos megalíticos exigiria obrigatoriamente uma elevada disponibilidade de
mão de obra, sem nada que se compare, nessa época, nas restantes áreas
peninsulares.
Quanto à diacronia destes 80 sítios, é provável que
a maior parte corresponda ao Neolítico antigo (grosso modo 5500-4500 a.C.), sobretudo aqueles em que foram
identificadas cerâmicas decoradas, uma vez que estas tendem a desaparecer no
Neolítico médio. De resto, de entre os outros 309 sítios, todos com cerâmicas
lisas, muitos poderão cobrir essa fase ainda mal balizada cronológica e artefatualmente.
Para ter uma noção comparativa, em termos nacionais, basta consultar o Portal do Arqueólogo (última consulta em 29.11.2015). Nessa base de dados (incompleta e com algumas lacunas, por definição) aparecem apenas 68 dos sítios atribuíveis ao Neolítico antigo (todos de ar livre, exceto a gruta do Escoural), no Alentejo Central. Em contrapartida, aparece uma centena de sítios dessa época, no resto do país, dos quais 18 são grutas e outros 19 ou são achados avulsos (vasos), ou não entregaram cerâmica, pelo que "povoados" de ar livre, seguindo os mesmos critérios que usei na minha lista, contabilizamos apenas 63.
Com base nesta informação, em termos de densidade de sítios por Km 2, a diferença é superior a 1 para 10.
Seguindo a tradição, tenho vindo a chamar “povoados”
a estes pequenos sítios com cerâmica, entendidos sempre como locais de
habitação mais ou menos permanente, numa economia de base agropastoril.
Porém, tudo indica que, no Alentejo Central, como
noutras áreas do Sul da Europa, estamos efetivamente perante unidades de tipo
familiar, apenas com duas ou três cabanas e explorando os terrenos nas
imediações das áreas residenciais; isto é, mais do que de povoados, trata-se,
muito provavelmente, de quintas familiares ou, atendendo à terminologia regional,
dos primeiros “montes” alentejanos Mataloto, 2003.
Essa foi, por exemplo, a conclusão a que se chegou,
com base na escavação integral de um sítio neolítico antigo, de ar livre, no
Norte de Espanha, El Prado. Alonso
Fernandez, 2017: 194; Jover e Torregrosa, 2017
Estes sítios funcionaram presumivelmente em clusters, organizados em redes de
vizinhança; em geral, nas áreas que foram melhor prospetadas, os sítios localizam-se
a distâncias da ordem das poucas centenas de metros, como se verifica, por
exemplo, na Baixa do Xarez, nos arredores do Vale Maria do Meio ou, como
veremos, no Freixo do Meio.
Fosse qual fosse exatamente a fase de arranque, o
certo é que a colonização do interior peninsular, a partir do litoral, alastrou
rapidamente, abrindo clareiras, alavancada certamente por um crescimento
demográfico excecional e caraterizada por uma ocupação desconcentrada do
território. Por hipótese, de cada unidade residencial, em vez de crescer a
população, sairiam novos colonos (enxameamento), fundando novos “montes”, nas
proximidades, numa progressão ao longo de áreas bem definidas (que se relacionam com geologias específicas, nomeadamente, como vimos, os granitos e os calcários, por esta ordem).
Nesta progressão (tipo onda de avanço), não
necessariamente unidirecional, foi certamente importante a transitabilidade natural dos
territórios, dependente principalmente dos rios navegáveis e
dos festos mas também, em alguns casos, afetada pela orografia. Soares,
2020: 308
O abandono de muitos destes sítios, como parece ter
sido o caso da Valada do Mato ou do Freixo do Meio 1, ainda no Neolítico
antigo, talvez se relacione com “perda de fertilidade dos solos, como
consequência do regime intensivo de aproveitamento” Alonso
e Jímenez, 2017
Sobre este mesmo assunto, Mariana
Diniz evoca, e bem, o facto, mais geral, de que os “solos menos férteis da
Europa mediterrânea e do Sul da Europa atlântica apresentam sérias limitações a
uma continuada exploração agrícola” pelo que “as escassas evidências de
continuidade, nos lugares de habitat, pode estar associada a contingências
pedológicas que determinam a procura de novos territórios, por esgotamento dos
anteriores” Diniz,
2007: 208
Este é um tema que merece um
melhor desenvolvimento, até porque se relaciona diretamente com as preocupações
atuais do projeto do Montado do Freixo do Meio, em que se procura precisamente avaliar o
impacte da agricultura na fertilidade dos solos e, dentro do
possível, reencontrar um equilíbrio sustentável entre a atividade
agrícola/pastoril e a floresta.
Voltarei, mais adiante, a este assunto.
Em síntese, importa, para já, reter esta ideia
importante: o povoamento do Neolítico antigo, no Alentejo Central, tal como o
megalitismo menírico, atingiram uma pujança muito especial, quando comparadas
com as áreas vizinhas e mesmo com outras realidades peninsulares contemporâneas.
E o mesmo se pode afirmar, indiscutivelmente, em relação aos concheiros mesolíticos dos estuários adjacentes, que são parcialmente contemporâneos. Araújo e Marchand, 2025: 273
3.4.
O Tejo-Sado: uma certa economia agro-estuarina?
A descoberta e publicação, nos últimos 20 anos, de mais
de duas dezenas de sítios de ar livre, atribuíveis ao Neolítico antigo e médio,
Gonçalves
e Sousa, 2018; Andrade et al, 2015; Neves et al, 2015 e
implantados ao longo da faixa de terraços quaternários, junto à margem esquerda do
estuário do Tejo, veio introduzir, nos modelos que se propõem interpretar a
neolitização em território português, um elemento perturbador.
Nesse sentido, num
dos textos publicados sobre o sítio neolítico antigo de Casas Novas, a
que atrás fiz referência, Victor Gonçalves e Ana Catarina Sousa, sublinham que “a presença de um habitat
desta fase na margem esquerda do Baixo Tejo é especialmente relevante,
atendendo que os atuais modelos démicos aplicados ao território português
propõem que as primeiras ocupações neolíticas se tenham instalado fora das
áreas dos últimos grupos de caçadores‑recolectores.” Gonçalves e
Sousa, 2015: 40
Ora, restam poucas dúvidas sobre o facto de os últimos caçadores-recoletores e os primeiros neolíticos terem coexistido, no tempo, em muitas áreas europeias nomeadamente, em Portugal; quanto aos sítios neolíticos do Estuário do Tejo, fica igualmente claro que eles coexistiram, também no espaço, com os concheiros mesolíticos; nesse sentido, o exemplo mais notório é o de Cortiçóis, a que já fiz referência, localizado a curta distância dos concheiros de Muje.
O sítio de Casas Novas, em frente a Coruche, foi objeto de uma escavação extensiva, abrangendo, no total, cerca de 400 m2. Uma única datação (5665‑5528 a.C), obtida a partir de carvões de espécies não identificadas, deu um resultado inverso ao da Valada do Mato, isto é, aponta para a fase de fundação e não para a fase de abandono do sítio.
Para além da proximidade
relativa, a relação funcional entre Casas Novas e os terrenos granitóides do
Maciço Antigo alentejano, sendo que os mais próximos se localizam a cerca de 20
km, foi sugerida, pelos responsáveis pela publicação do sítio, com base no
estudo petrográfico das cerâmicas, uma vez que muitas delas contêm elementos
não plásticos que denunciam solos de matriz granítica. Gonçalves e
Sousa, 2018: 236
A relação com o Maciço Antigo manifesta-se igualmente, como seria de esperar, nas matérias-primas usadas nos instrumentos de pedra polida e nos elementos de moagem. Gonçalves e Sousa, 2018: 158
Fig. 6.11 – A relação entre Casas Novas e o Maciço Antigo (Gonçalves e Sousa, 2018)
Um dos aspetos mais disruptivos,
introduzidos pela descoberta do “povoado” de Casas Novas, foi a extensão
inusitada (cerca de 30 ha); até recentemente, em Portugal, o único vagamente
comparável, é o sítio de Vale Pincel 1, em Sines (com cerca de 10 ha). Silva e Soares,
2015
Porém, ao contrário de Vale Pincel 1, que foi interpretado como um povoado sedentário, apesar de alguma contestação, Zilhão, 1998 para Casas Novas foi proposto um “modelo de ocupações curtas, sazonais, eventualmente associadas com a exploração de recursos ligados ao meio ribeirinho.” Gonçalves e Sousa, 2018: 227
Já agora, note-se que outros sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo, apesar de não quantificadas as respetivas áreas, são descritos, mais ou menos sucintamente, como ocupando grandes extensões.
No caso do sítio dos Cortiçóis
(Almeirim), por exemplo, os autores apenas afirmam que “a estação se estende
por vasta área” Cardoso et al.,
2013: 29
e colocam a “hipótese de a formação desta extensa estação arqueológica ter
resultado de sucessivas ocupações do local” Cardoso et al., 2013: 58
Já o sítio da Quinta da
Praia (Alcochete), publicado depois de Casas Novas, foi descrito, em termos
dimensionais, como “a mais ampla
realidade neolítica antiga documentada até ao momento na região“ Carvalho
et al., 2019: 40, apesar de não terem sido avançados
valores concretos.
Voltando a Casas Novas, interessa sublinhar que “o elevado
número de geométricos (41% dos registos de artefactos líticos) assume uma
expressão muito superior ao registado em sítios neolíticos contemporâneos, o
que pode indicar uma funcionalidade específica de Casas Novas ou mesmo a sua
sazonalidade.” Gonçalves
e Sousa, 2015: 235
Por outro lado, esse caráter sazonal de Casas Novas
deduz-se também da baixa densidade de artefatos Gonçalves e
Sousa, 2015: 280, comparando com os raros sítios do
Alentejo Central que foram igualmente escavados e para os quais se propõe uma
ocupação permanente.
Por exemplo, o número de
fragmentos cerâmicos decorados proveniente de Casas Novas, Gonçalves e
Sousa, 2018: 175
é praticamente idêntico ao que foi recolhido no Freixo do Meio 1 (perto de uma
centena de exemplares, dos quais, num e noutro caso, cerca de uma dezena com
decoração cardial).
No entanto, no Freixo do Meio 1
foi escavada apenas uma área com cerca de 40 m2, face aos 400 m2, escavados no
sítio de Coruche.
Note-se, como já sublinhei, que,
em todos os sítios de ar livre, desta época, as escavações revelaram
estratigrafias positivas pouco complexas, quase sempre resumidas a uma única
camada de ocupação, com cerca de 30 cm de espessura, em média. A variável
principal é, realmente, a densidade da cerâmica, por m2.
Porém, o principal argumento a favor da sazonalidade
dos sítios neolíticos do Baixo Tejo, reside no escasso potencial agrícola das
áreas onde se instalaram: no Sorraia, Victor Gonçalves e Ana Catarina Sousa
invocaram o facto de o local estar sujeito a inundações periódicas e de “os solos arenosos” afastarem “uma utilização agrícola
desta área”. Gonçalves e Sousa, 2015: 34, 239
Outros autores, a propósito também dos sítios neolíticos da mesma área, têm chamado a atenção para o facto de que os
solos eram (e, em parte, ainda são) Paz et al. 2020 impróprios para a
agricultura, devido, sobretudo, à elevada salinidade. Andrade et al, 2015: 33
César Neves, um desses investigadores, concluiu,
na sua tese de doutoramento, publicada recentemente, sobre o sítio do Neolítico
médio da Moita do Ourives (Benavente), que, se “a agricultura
teve um peso significativo no subsistema económico deste grupo e na estratégia
desta ocupação, então essa atividade terá sido realizada em outros espaços,
ainda não identificados, possivelmente mais interiores no território, onde se
encontrariam solos mais aptos.” Neves, 2023: 206
Como o leitor certamente já adivinhou, do meu ponto vista, esses “outros espaços”, “mais
interiores no território” e, supostamente, “ainda não identificados” só podem
corresponder às manchas de rochas granitóides do Alentejo Central (e do Alto
Alentejo), onde não faltam, como vimos, sítios do Neolítico antigo/médio, Calado,
2004b; Carvalho, 2008: 299; Rocha, 2015: 111.
A hipótese
que proponho, cruzando os dados disponíveis, é terem sido os grupos que habitaram,
em permanência, os numerosos pequenos sítios no Alentejo Central (e, até agora,
com muito menor visibilidade, no Alto Alentejo) a fazer curtas incursões
periódicas às margens do estuário, com o objetivo de desfrutar dos recursos proporcionados
pelo ambiente estuarino, nomeadamente a pesca e o marisqueio, mas não só.
A grande maioria dos sítios do Neolítico
antigo/médio alentejano localiza-se, no máximo, a cerca de um dia de marcha, a
partir dos sítios neolíticos do Baixo Tejo; a separá-los, temos aquilo a que
chamei (e creio, por enquanto, ter boas razões para continuar a chamar) “terra
de ninguém”.
Refiro-me a uma área extensa, que corresponde, em
termos geológicos, à bacia terciária do Tejo, de terrenos detríticos, sobretudo
areias e cascalheiras, de muito fácil transitabilidade, Deus, 2002: 92, 93 mas de escasso potencial
agrícola, agravado pelo défice de água superficial, apesar de esconder, em
profundidade, um aquífero notável. Mendonça, 2010: 62
Manuela de Deus observou, a propósito, que “o
aparente vazio de povoamento na bacia terciária do Tejo (…) também ocorre na região de Montargil. Não foram
identificados vestígios de povoamento na grande mancha de terrenos terciários” Deus, 2002: 95
No início do Neolítico, extrapolando os dados
polínicos de que dispomos, essa área estaria coberta, tal como o Maciço Antigo,
por densas florestas de pinheiros e carvalhos; junto ao estuário, esta floresta
alternava com áreas mais ou menos pantanosas onde foram registadas espécies
halófitas. Soares,
2013b: 172; van der Schriek et al. 2007
Teoricamente, a total inexistência, ao longo de
todo este vasto território, de evidências de povoamento neolítico, poderia
resultar de um défice da investigação; porém, esse vazio, em termos de ocupação
humana, manifesta-se igualmente em todas as épocas, até à Idade Moderna,
certamente pelas mesmas razões.
Note-se que temos abundantes vestígios de
povoamento pré e proto-histórico, relacionados com o estuário ou com as
planícies aluvionares que o bordejam e só voltamos a tê-los já no Maciço Antigo
ou muito perto. Pelo meio, o vazio absoluto: de povoados ou necrópoles, nem
rastos, nem restos.
A transitabilidade central desta “terra de ninguém”
era assegurada pelo festo Tejo-Sado, a principal linha estruturante da paisagem
regional que, como vimos, faz parte dos grandes caminhos naturais de ligação
entre o litoral e o interior peninsular; subsidiariamente, podemos considerar,
em escalas mais próximas, que a ligação “viária” entre os limites superiores
dos estuários do Tejo ou do Sado e as bordas do Maciço Antigo seria feita pelos
festos secundários que separam os principais afluentes (basicamente, o Sorraia
e o Almansor, de um lado, e as Ribeiras de Valverde e do Xarrama, do outro).
Na verdade, a provável navegabilidade dos referidos afluentes, entre os estuários e a periferia dos terrenos graníticos, contribui naturalmente para a conexão entre estas duas paisagens complementares.
Note-se que, no contexto de um trabalho já mencionado, sobre o conjunto megalítico da Herdade do Deserto, os autores defendem a relação desses monumentos com o “longo corredor de circulação entre o interior alentejano e o vale do Tejo, formado precisamente pelo interflúvio Rib. do Lavre – Rio Almansor.” Gonçalves e Andrade, 2020: 7
Um sabor a sal…
A falta de evidências (nomeadamente faunísticas)
não permite estabelecer em que alturas do ano seriam frequentados os sítios neolíticos
ribeirinhos, cuja sazonalidade parece, em todo o caso, bastante consensual;
contudo, a hipótese mais razoável será, sem dúvida, a época estival, a mais
apropriada, nomeadamente para o marisqueio e para a pesca, atividades que, no
interior, seriam impraticáveis ou irrelevantes.
Porém, sem excluir, antes pelo contrário, esta possibilidade,
acrescentaria outra, que creio bastante coerente com os dados disponíveis: a pastorícia.
No Neolítico antigo centro alentejano, a
pastorícia e a agricultura são arqueologicamente pouco evidentes (por razões
que têm a ver com a conservação dos materiais orgânicos), em termos de
vestígios diretos.
No entanto, longe dos recursos aquáticos, a base
económica dos primeiros neolíticos centro-alentejanos, teria sido, certamente,
por exclusão de partes, a agricultura e a pastorícia, naturalmente complementada
pela caça e recolecção, assim como pelo acesso mais ou menos regular aos
ambientes aquáticos, sobretudo estuarinos, que as distâncias envolvidas
certamente permitiam.
Por outro lado, é possível que a pastorícia tenha
tido uma importância especial, na atividade económica destes grupos; esta
preponderância pode deduzir-se a partir das representações dos báculos, nos
menires e recintos megalíticos Calado, 2004b, mas também da preferência
pelas áreas graníticas, muito mais adequadas à pastorícia do que à agricultura.
De resto, sabemos hoje que uma economia plenamente
neolítica, em termos agrícolas e pastoris, estava bem instalada, desde datas
muito precoces, no lapiás das Lameiras, Sintra, onde ossos de ovelha e cereais se conservaram. Davis e Simões, 2016
Tendo isto em conta, os sítios do Baixo Tejo,
poderiam ser os locais de acampamento, em época estival, das populações
neolíticas (ou de um segmento delas), instaladas no interior, que conduziriam
os rebanhos até às lezírias, numa transumância que, em princípio, coincidiria
com a redução das pastagens verdes, no interior, isto é, os meses de Julho e
Agosto.
Esse pastoreio implicaria, para além da estadia
nas zonas mais ou menos pantanosas, junto às áreas afetadas pelas marés, durante
um certo período, o aproveitamento das pastagens, sempre mais frescas, no
Verão, ao longo das margens e do leito dos afluentes que ligam o estuário ao
interior, nomeadamente o Sorraia e o Almansor.
É preciso
notar que a salinidade dos solos, sendo incompatível com a agricultura, não é,
necessariamente, incompatível com o pastoreio, embora este deva ser equilibrado
com períodos em pastagens não salinas.
Um exemplo
contemporâneo muito conhecido é o do Mont de Saint Michel (França) onde se
criam ovelhas que, durante cerca de sessenta dias por ano, se alimentam das
plantas tolerantes à salinidade elevada, numa área ciclicamente inundada pelas
marés. O curioso é que a carne denominada “prés
salés” é considerada de qualidade superior…
Essa
prática é, aliás, tradicional noutras partes da Europa, nomeadamente na Baía do
Somme, também em França, nos Países Baixos ou no Reino Unido e Irlanda. McKinley et al. 2022
Outro
aspeto que importa considerar, nesta provável sazonalidade, é a produção de
sal, prática que, até agora, os dados arqueológicos só confirmaram a partir do Neolítico final, nomeadamente nos sítios da Comporta e do Baixo Tejo. Soares, 2008; Soares e Silva, 2013 Valera et
al, 2006 mas que fazia certamente parte do quotidiano das populações do
Neolítico antigo, como produto fundamental na conservação de alimentos e não só.
Cassen e Grimaud, 2020
Com ou sem
rebanhos, podemos ver nesta complementaridade entre uma economia de base
agro-pecuária, só praticável plenamente no interior, e uma economia de pesca e
marisqueio, exclusiva do estuário, uma variante do conceito de economia anfíbia ou agro-marítima,
proposto pelos investigadores de Setúbal Soares, 2008; Soares, 2013b; Soares e Silva, 2013
De facto, na perspectiva, que tenho vindo a
defender, de uma complementaridade económica, entre os sítios neolíticos da
margem esquerda do Baixo Tejo e os sítios do Alentejo Central e Alto Alentejo,
não se trataria de relações de troca entre comunidades diferentes, mas das
mesmas comunidades que viveriam, de forma permanente, no interior, e se
deslocariam, anualmente, durante o Verão, todas ou em parte, para explorar os
recursos estuarinos (a pesca, o marisqueio, o sal e, eventualmente, as
pastagens salgadas.
No mesmo sentido, numa reflexão recente sobre o
escoamento da produção de sal, no Neolítico final do Baixo Tejo, os autores
propõem, depois de avaliarem as alternativas mais plausíveis, “uma relação preferencial com a periferia Noroeste do mundo do Alentejo
Central”, por razões de proximidade espacial, naturalmente, mas também com base
nos dados arqueológicos, nomeadamente as características das cerâmicas. Valera et al, 2006: 298
Também os responsáveis pelo estudo (sem
escavação) do sítio das Casas Velhas do Coelheiro, atribuível a uma fase mais
avançada do Neolítico antigo/médio regional, reconheceram que “o Tejo e seus
afluentes, bem como as vastas planícies existentes na envolvência, permitiam
aos grupos humanos um ritmo de mobilidade sem grandes condicionalismos
geográficos, possibilitando a deslocação até territórios e contextos geológicos
distintos — Estremadura e Alentejo interior —— com melhores condições para a
prática da pastorícia e agricultura” Neves et al, 2015: 39
As deslocações da margem esquerda do Tejo para a Alta Estremadura justificam-se, objetivamente, em função da obtenção do sílex; quanto à agricultura e à pastorícia, o Alentejo interior seria naturalmente a opção mais plausível.
Seja como
for, parece-me que a dimensão excecional de Casas Novas, tal como dos
restantes sítios neolíticos do mesmo contexto geográfico, se deve relacionar diretamente com a densidade excecional do povoamento neolítico centro-alentejano;
esta relação preferencial não exclui naturalmente outras áreas adjacentes,
nomeadamente, em primeiro lugar, a Península de Setúbal, e, na margem oposta, a Península de Lisboa.
Em boa verdade, quanto à
interpretação das dimensões excecionais ocupadas pelos sítios
neolíticos ribeirinhos, na margem esquerda do Baixo Tejo, podemos, teoricamente, considerar várias hipóteses.
Uma delas foi avançada para o
sítio das Casas Velhas do Coelheiro (Salvaterra de Magos), cuja ocupação,
segundo os autores, se deve “ter efetuado de forma horizontal, ao longo da
plataforma, em diversos episódios ocupacionais, de forma temporária, embora
enquadrados num mesmo patamar crono-cultural.” Neves et al, 2015: 38
Outra possibilidade, que me
parece mais consistente, seria toda a área ser ocupada em simultâneo, com uma
malha de povoamento mais ou menos frouxa, durante um tempo limitado, coincidente
com a época em que, no interior, as pastagens escasseiam e, no estuário, as
condições são, em muitos aspetos, as melhores.
Se compararmos a densidade das cerâmicas decoradas, por m2, do sítio de Casas Novas com a do Freixo do Meio 1 (na razão de 1/10), e admitirmos, por hipótese, que ambos funcionaram, em paralelo, ao longo do mesmo período de tempo (por exemplo, entre 5500 e 5000 a.C.), a permanência em Casas Novas seria da ordem de um a dois meses por ano.
Os caminhos das pedras
Escrevi, em 1993 (antes da descoberta
do Vale Maria do Meio, da Valada do Mato ou da escavação dos menires de S.
Sebastião) que os “cromeleques parecem pontuar um trajeto
entre os estuários do Tejo e do Sado e o Rio Guadiana; os menires ocidentais
deste conjunto aparecem-nos, no festo entre os dois primeiros rios, logo que se
atingem as primeiras formações graníticas” Calado, 1993b: 561
Nesse mesmo texto (em que, pela primeira vez, usei o conceito de Alentejo Central), ligando os menires à neolitização e esta
implicitamente aos concheiros, aludi a um “processo que deve ter-se
desenvolvido do litoral para o interior, a partir do Neolítico Antigo/Médio”,
dando origem às “primeiras redes de povoamento sedentário” Calado,
1993b: 551
Isto significa que, desde então, creio que o que define melhor a personalidade do Alentejo Central e, ao mesmo tempo, a sua relação com as áreas adjacentes, é a rede viária natural, de que se destaca o caminho de “pé enxuto” que, ligando o litoral e o interior peninsular, é “espinha dorsal” do Alentejo Central.
Mas,
para além desta via principal, importa referir que o festo Guadiana/Sado (e,
depois, Guadiana/Mira), é o caminho natural por excelência, de Évora para o
Baixo Alentejo e o Algarve. De resto, a relevância que, em termos nacionais,
Évora assumiu, no início da Idade Moderna, teve certamente a ver com essa
posição geográfica privilegiada.
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