2. Outstanding Stones: nas origens da monumentalidade

A Pedras do Mundo 


                                                  
                                                                         Fig. 2.1 - Stonehenge

Os menires alentejanos fazem parte de uma vasta "família", cujos parentes mais próximos se espalharam pela Europa ocidental, a partir dos inícios da Revolução agrícola e, de alguma forma, relacionados com ela.

Stonehenge é, sem dúvida, o monumento megalítico mais famoso do mundo. Reconhecido, como antiguidade, desde, pelo menos, a Idade Média, passou a ser objeto de estudos, mais ou menos científicos, a partir do século XVII.

Milhares de páginas depois, com 1, 5 milhões de visitantes/ano, com um investimento recente de 27 milhões de libras, gastos na melhoria das estruturas interpretativas,  Stonehenge tornou-se o monumento de referência global para os muitos milhares de "construções" genericamente aparentadas, conhecidas em quase todo o mundo.

De certo modo, podemos olhar para Stonehenge como uma grandiosa síntese final de um processo que afetou fortemente a fachada atlântica europeia (incluindo as Ilhas Britânicas), durante mais de dois milénios, a partir de uma data ainda imprecisa, em redor de 5000 a.C.

Convém ter em mente que os monumentos megalíticos (isto é, feitos com pedras de grandes dimensões) são apenas uma das variantes de uma ampla categoria de sítios, cuja caraterística comum é a própria  monumentalidade. Trata-se de obras que implicaram um elevado investimento, em termos de força de trabalho, mas que podem ter usado, como materiais de construção, para além das pedras grandes, outras soluções, nomeadamente troncos, terra, ou pedras não megalíticas...

Fig. 2.2 - Monumentos em terra (Silbury Hill) e em madeira (Seahenge).

À excepção da Austrália e da América do Norte, os monumentos megalíticos apresentam uma distribuição quase global, embora com muitas variações, em muitos aspetos (dimensão, forma, matéria prima, decoração, inserção na paisagem , função/significado, época). Todos diferentes, todos iguais.

No que diz respeito à Europa, sem que possamos estabelecer uma filiação clara, é importante mencionar o sítio de Gobekli Tepe, na Turquia, com características muito sui generis (Fig. 2.8 B) e com datas muito recuadas. Recorde-se que o próprio Neolítico europeu foi "importado" a partir do chamado Crescente Fértil. 

Outros "antepassados" credíveis são as manifestações de monumentalidade, em contexto do Mesolítico final, como são os próprios concheiros, mas sobretudo os monumentos dessa época, com plantas comparáveis aos recintos megalíticos, mas feitos com troncos (Fig. 5.1A).  Cassen et al., 2000: 345

Na fachada atlântica europeia, parece ser o Algarve a primeira região a erguer menires. Ainda sem dados definitivos, podemos sugerir um gradiente cronológico (e dimensional) de Sul para Norte,  envolvendo sequencialmente o Algarve, o Alentejo e a Bretanha. E nessa trama temporal, os menires mais monumentais foram dando lugar aos dolmens, havendo mesmo muitos casos em que os menires foram reutilizados na construção desses monumentos funerários.

A
C

Fig. 2.3 - A: Menir da Vilarinha (Algarve); B: Menir do Barrocal (Alentejo); C: Menir de Locmariaquer (Bretanha)

As Ilhas Britânicas parecem, nesta expansão geográfica, ter sido o passo seguinte. 

Em todo o caso, a partir de meados do IV milénio a.C., o fenómeno megalítico (sobretudo funerário) espalhou-se um pouco por toda a Europa,  embora, naturalmente, com personalidades regionais diferentes; a partir de meados do milénio seguinte, este tipo de monumentos tende a rarear e a apresentar dimensões mais reduzidas, denunciando um gradual abandono do conceito. 

Nessa época, a monumentalidade parece ter sido desviada das construções funerárias, a favor das complexas estruturas delimitadoras/defensivas: fossos, paliçadas e muralhas de adobe e de  pedra. 

Não faltam, por outro lado, exemplos de reutilizações e mesmo construção de novos monumentos até, pelo menos, meados do I milénio a.C.

Porém, fora da Europa, existem regiões onde o megalitismo resistiu até aos nossos dias, ou até muito recentemente, nomeadamente a Indonésia, a Etiópia ou Madagáscar.


WTF?

Qual o significado/função? 

Deixando de lado os dolmens, cuja função funerária, geralmente coletiva, está bem documentada, vamos focar-nos apenas nos menires e recintos megalíticos e tendo em mente, sobretudo, a Europa ocidental.

Nas páginas seguintes, foram tidos em conta (e discutidos) os dados e as interpretações mais académicas e, logo, mais vinculadas  ao método e ao pensamento dito "científico".

Porém, recuso a arrogância paternalista que, algumas vezes, o mundo académico demonstra face a leituras menos ortodoxas, ou que não encaixam na agenda mainstream da disciplina; embora não cedendo a fantasias mal sustentadas, acho necessário, sem perder a articulação com os dados arqueológicos, o recurso à imaginação criativa, quando se trata de interpretar. 

De facto, no que diz respeito aos menires alentejanos, fui testemunha privilegiada de descobertas importantes, nesta área de estudo, em que o olhar de um arquiteto, como Pedro Alvim Alvim, 2021, de um Físico, como Marciano da Silva da Silva, 2004, ou de um designer como Rafael Henriques Henriques, 2023, sem vínculos à referida agenda, fizeram a diferença. Falo, claro, de interdisciplinaridade. Mas acrescento outro exemplo com que lidei de perto - a arqueologia em terra indígena amazónica - em que um olhar sobre as culturas ameríndias nos incentiva a ter em conta outras vias interpretativas Calado, 2014.

É famosa, neste contexto, a importância atribuída por um notável megalitista europeu, M. Parker-Pearson, à forma como, em Madagáscar, a tradição local interpretava os monumentos. Parker-Pearson et al., 1996; Parker-Pearson e de Groot, 2018

Entre os académicos, o tema tem sido explorado, em muitas dimensões, de que, a seguir, procurarei fazer um breve resumo, a partir de alguns conceitos fundamentais:

1. Monumentalidade. A construção de obras monumentais, por vezes "faraónicas", foi uma prática que chegou, sem grandes alterações, até aos nossos dias. Demonstrações de poder (de personagens ou de grupos) e âncoras simbólicas, funcionando como organizadoras de um povoamento sedentário, territorial e maioritariamente agropastoril.

2. Antropomorfismo.  Os menires são estátuas, representando provavelmente antepassados (míticos ou reais). Uma boa parte dos menires é anicónica, isto é, a figura humana é apenas sugerida, de modo extremamente esquemático, pela forma, dimensão e verticalidade dos blocos. Em alguns exemplares, no entanto, o menir foi parcialmente afeiçoado, na extremidade distal, para sugerir uma cabeça (como acontece, por exemplo, com alguns menires etíopes, algarvios ou vendeanos). 

Fig. 2.4 - Menires anicónicos do Norte alentejano.A: Patalou; B: Meada.

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Fig. 2.5 - Menires com cabeça destacada. A: Avrillé (França); B: Soddo (Etiópia)

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Fig. 2.6 - Menires "portadores" de ferramentas e armas. A: Alentejo Central; B: Córsega

Porém, em muitos casos, o antropomorfismo é bastante explícito, reforçado por gravuras representando faces, colares, armas, ferramentas...

É interessante observar que o caráter minimalista dos menires anicónicos, encontra um interessante paralelo na arte esquemática, típica do Neolítico; também nos dois casos, o tema quase único é a figura humana, testemunho artístico de uma ideia forte que, como sabemos, caracteriza a Revolução Agrícola: os humanos são os donos disto tudo.

Curiosamente, os menires ameríndios podem ser anicónicos, mas, quando não, são mais zoomorfos que antropomorfos, ecoando o perspectivismo ameríndio, ontologia que vê humanidade em todos os seres animados. Viveiros de Castro, 1996, 2002

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Fig. 2.7- Monumentos ameríndios. A: Rego Grande (Brasil); B: San Agustin (Colombia); C: Tafi (Argentina)

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Fig. 2.8 - Menires com gravuras zoomorfas. A: Mörön (Mongólia); B: Gobëkli Tepe (Turquia)

A ereção de estátuas de antepassados, isoladas ou organizadas em recintos, sugere uma reivindicação de ancestralidades, num modelo social possivelmente linhagístico. 

Neste sentido, os menires podem ser vistos como parte da arte pré-histórica; trata-se de escultura/arquitetura, em paralelo com a pintura e a gravura, linguagens plásticas das quais, no limite, emergiu a escrita. Formas de comunicar e conservar memórias. Linguagem visual. Calado e Rocha, 2010


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  Fig. 2.9- Menires explicitamente antropomorfos. A: Ilha da Páscoa; B: Mongólia; c: Indonésia; D: França


3. Arqueoastronomia

 As conexões azimutais entre os menires/recintos megalíticos e eventos astronómicos simples e cíclicos, como os Solstícios, os Equinócios, os Lunastícios e a Lua de Primavera, são indiscutíveis. Uma interpretação desses dispositivos cénicos e simbólicos passa por uma uso metafórico de pedras e astros, como evocadores da eternidade e, direta ou indiretamente remetendo para os antepassados.

Por outro lado, estes alinhamentos astronómicos, apesar de fáceis de observar fenomenologicamente, dependem de um ponto de observação fixo, incompatível, em princípio, com a mobilidade dos caçadores-recoletores.

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Fig. 2.10 - Recintos megalíticos do Alentejo Central. A: Almendres; B: Vale Maria do Meio; C: Portela de Mogos; D: Fontaínhas.

4. Sacralização do espaço

Criação de espaços "sagrados" (ou cerimoniais) separando qualitativamente, no caso dos recintos, o interior e o exterior, como aconteceu, geralmente um pouco mais tarde, com os recintos de fossos e, no limite, as muralhas de pedra. Estes espaços culturais encerram, em muitos casos, relações físicas e simbólicas com a paisagem natural.

5. Materialidade

O uso da pedra para a construção de monumentos, remete-nos, por um lado, para os eventuais significados míticos (e/ou ontológicos) desse tipo de material,   na Natureza, mas também para a escolha deliberada de pedras brutas (não trabalhadas), como é o caso da maioria dos menires alentejanos. Scarre, 2004; 2009b; Tiley, 2004. 

Chris Scarre destaca, a propósito, a "compreensão simbólica do mundo natural por parte das comunidades pré-históricas, na qual a pedra tinha um significado fundamental." Scarre, 2009b: 5

Aspetos relativos às matérias-primas utilizadas, como a litologia ou a cor, têm também sido avaliados, revelando, em alguns casos, arranjos intencionais, de ordem simbólica ou, no mínimo, estética.

6. Lugares de sociabilidade

Por último, os espaços em que que se instalaram esses monumentos equivalem, possivelmente, às praças centrais das nossas cidades, vilas e aldeias, onde se concentram funções ligadas à sociabilidade, como os edifícios religiosos« e outros edifícios públicos, os mercados, os terreiros das festas ou, simplesmente, lugares de encontro. Com frequência, centrados num monumento de caráter apologético ou memorialista.

Como, no Neolítico antigo, em particular no Alentejo, o povoamento se organizava, como veremos, em pequenas quintas familiares, a existência desses lugares de interação social era, provavelmente, fundamental para garantir a coesão sócio-política desses grupos, em particular no que respeita à gestão de uma expectável pressão sobre o território, num contexto de indiscutível expansão agrícola.

AB

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Fig. 2.11 - Recintos megalíticos da Europa ocidental. Em forma de ferradura, A: Alentejo Central (Vale d'El Rei); B: Bretanha (Er-Lannic); circulares, C, D:  Ilhas Britânicas (Callanish, Stenness)

7. Outros

Claro que poderemos, seguindo linhas mais heterodoxas, pensar nos monumentos como axis mundi, ou como acupunctura da terra, entre outras. Interessante, porque tem em atenção o contexto, é a analogia entre menires e machados de pedra polida, artefatos que se tornaram ícones do Neolítico e que, eles próprios, em algumas culturas, ganharam estatuto antropomórfico. Tiley, 2004; Pétrequin e Pétrequin, 2006 

Megalitismo e neolitização

A diversidade manifesta. quando encaramos o megalitismo como fenómeno global, aplica-se igualmente às funções e significados com que foram concebidos, até porque os contextos cronológicos e geográficos são também muito diversos.

Na Europa atlântica, a construção de monumentos, envolvendo um elevado esforço coletivo, mas também obrigatoriamente uma notável disponibilidade de mão de obra,  traduz objetivamente o expressivo crescimento demográfico que a adoção da agricultura e da pastorícia, potenciou, mas do qual já havia indícios, em algumas sociedades do Mesolítico final.

Por sua vez, o crescimento demográfico  implica, normalmente, complexificação social. 

Neste aspeto, podemos suspeitar que os monumentos participaram, igualmente, em estratégias competitivas, num contexto em que se reivindicava a propriedade sobre a terra, própria do Neolítico e da sedentarização. Não é de excluir que os monumentos se integrem numa certa competição entre dois modos de vida em disputa.

A neolitização, contudo, não foi apenas uma Revolução económica, demográfica e social; trata-se de uma redefinição da própria relação entre o Homem e a Natureza, com consequências de caráter ético, religioso (ou filosófico) que perduram até aos nossos dias. 

Simplificando, podemos dizer que os caçadores-recoletores não alteravam, ou não alteravam significativamente, as paisagens que os sustentavam; já a agropastorícia começa, por definição, por abrir clareiras, reduzindo as florestas e introduzindo espécies animais e vegetais domesticadas.

Os monumentos enquadram-se, na perfeição, na ideia de que o papel da humanidade é alterar o mundo natural. Aperfeiçoá-lo. Dominá-lo. E proclamar, aos quatro ventos, esse domínio. Bradley, 1993




 




















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