5. O fim do Mesolítico final

 

Colonialismo e anti-colonialismo neolítico

Há muito que, entre os neolitistas nacionais, as opções se dividiram entre dois modelos teóricos opostos, para explicar o início do processo de neolitização.

Não vou aprofundar aqui essa discussão, em todos os detalhes, remetendo apenas os leitores para alguns trabalhos em que, sem grandes alterações, os promotores e defensores das duas principais correntes, têm vindo, recentemente, a discutir o tema. Carvalho, 2019; Diniz, 2025, Diniz e Neves, 2018; Soares, 2020; Zilhão, 2021

Atualmente, todos concordam com uma origem, no Mediterrâneo Oriental, do chamado “pacote neolítico” (agricultura, pastorícia, cerâmica, pedra polida, sedentarização…) e que este percorreu um caminho, de Leste para Oeste, até chegar ao nosso território, por volta de 5500 a.C., ou um pouco antes, isto é, cerca de dois milénios depois.

Também há acordo sobre a vinda de genes, isto é, pessoas, acompanhando as novidades económicas, tecnológicas e ideológicas da chamada Revolução Neolítica.

Quase todos admitem, igualmente, uma via marítima, ao longo das costas do Mediterrâneo.

A principal discussão resume-se à forma como se deu esse avanço. Os defensores do modelo “colonialista”, ou “démico”, proposto por João Zilhão e desenvolvido, sobretudo, por António Faustino de Carvalho e Mariana Diniz, alegam que, no território português, a neolitização teria sido obra de colonos pioneiros, instalados em áreas devolutas de comunidades locais e oriundos eventualmente da região de Valencia ou da Andaluzia; a análise crítica das datações disponíveis levou João Zilhão a propor um movimento de tipo leapfrog migration Fiedel e Anthony, 1979, em oposição ao clássico modelo de "onda de avanço" Ammermann e Cavalli-Sforza, 1984; Ammermann, 2020 

Os “indigenistas”, por seu turno, representados principalmente por Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, descartam a chegada de comunidades exógenas e atribuem a neolitização à dinâmica das últimas sociedades de caçadores-recoletores que frequentaram a Costa Sudoeste, no Mesolítico final

Em última análise, quer os modelos “colonialistas”, quer os “indigenistas”, implicam a neolitização dos últimos caçadores-recoletores.

No primeiro desses modelos, isso só pode ter acontecido numa segunda fase, após alguns séculos em que colonos e indígenas se terão evitado e não terão interagido Zilhão, 1993; pelo contrário, na ótica do modelo indigenista, a neolitização iniciou-se no seio dos próprios caçadores-recoletores, que adquiriram ideias, técnicas e genes, através de velhas práticas exogâmicas, implicando redes de contatos e trocas, a distâncias significativas, com base nas capacidades náuticas adquiridas ou desenvolvidas nessa fase Soares e Silva, 2003; Silva e Soares, 2015; esta leitura ajusta-se, naturalmente, a um processo tipo leapfrog migration, com a diferença fundamental de que, em vez de colonos neolíticos fundando novas comunidades, como estranhos numa terra estranha, temos a chegada de indivíduos ou pequenos grupos de indivíduos,  recentemente neolitizados, que, por sua vez, "contaminam" os indígenas.

Mesmo que fossem realmente grupos diferentes, convém recordar que “tal como previsto no (…) modelo de ‘colonização pioneira’, as populações neolíticas são também naturais de regiões ocidentais do Mediterrâneo, pelo que será de esperar não se registarem diferenças significativas entre ambas no caso de processos migratórios dentro daquela ampla região.” Carvalho, 2008: 267

Tanto mais que, repito, não faltam elementos que confirmam a existência, nessa época, de redes de contacto e intercâmbio, de longa distância, nomeadamente por via marítima. Araújo e Marchand, 2025: 185, 186; Holst, 2025

Porém, um dos pontos em que todos parecem estar de acordo, diz respeito à suposta passividade das comunidades instaladas nos estuários do Tejo e do Sado que, apesar de serem indiscutivelmente as mais dinâmicas, resistiram,  durante alguns séculos, sem introduzirem, aparentemente, alterações na sua base económica (caça, pesca, marisqueio, recoleção)  Araújo e Marchand, 2025: 275;  Nukushina, 2016: 48-49enquanto, por todo o lado, se espalhava, em grande velocidade, com êxito evidente, o modo de vida neolítico.

Em defesa da tese da colonização pioneira, João Zilhão, sugere que “todos nos devíamos perguntar porque os Mesolíticos, com uma vida saudável e abundantes recursos, iriam tornar-se neolíticos?”  Zilhão, 2011: 62

Na verdade, todos nos devíamos perguntar porque, um pouco por todo o lado, os caçadores-recoletores se tornaram pastores e agricultores Graeber e Wengrow, 2021. Claro que essa é outra história, realmente a mais interessante, mas não cabe neste trabalho.

Voltando aos nossos Mesolíticos, a verdade é que essa “resistência ativa” Zilhão, 2011: 62 acabou por se “render” ou, dito de outro modo, foi-se rendendo, tendo em conta que “a diminuição da atividade funerária nos dois vales (Tejo e Sado) é contemporânea da primeira fase do Neolítico Inicial em Portugal, entre c. 5500-5300 cal a.C.”. Peyroteo, 2016: 456 

Para explicar esta redução (e, finalmente, a extinção) numa sociedade "com uma vida saudável e  abundantes recursos", pacífica,  como é suposto ter sido aquela que  habitou os estuários do Tejo/Sado, resta-nos a hipótese, a que voltarei mais adiante, de a neolitização ter sido obra de grupos saídos das comunidades mesolíticas, por enxameamento. 

Isto quer dizer, de facto, que os neolíticos eram mesolíticos neolitizados por outros mesolíticos neolitizados.

Nesta perspectiva, o problema do modelo démico, na sua aplicação prática, foi reificar os Neolíticos, dar-lhes entidade étnica diferenciada da dos indígenas, quando provavelmente o que houve foi sempre, e quase só, indígenas que se foram tornando neolíticos, em ritmos e momentos diferentes. Diniz, 2021: 1662

O Mesolítico e o Neolítico correspondem a duas formas de viver, não necessariamente a dois povos. Na maior parte da Europa, nem sequer correspondem a épocas distintas. Se pensarmos em termos económicos, os primeiros eram caçadores-recolectores e os segundos, também, mas acrescentaram à caça e recolecção, a agricultura e a pastorícia. Soares, 2020: 308

É claro que esta diferença tem, como sabemos, ressonâncias importantes, em termos ontológicos, éticos, sociais, isto é, em todas as mudanças que alguns continuam a designar como a “Revolução neolítica” ou Revolução Agrícola”.

E as revoluções não mudam povos, mudam sim as formas como vivem.

Mesmo assim, é absolutamente certo que, junto com o modo de vida neolítico (provavelmente através da exogamia e das interações sociais que com ela se relacionam), viajaram pessoas, num percurso que, junto com o pacote neolítico, mais ou menos transfigurado na viagem, remonta ao Mediterrâneo oriental. 

Num futuro próximo, os avanços da genética podem explicitar melhor esse processo, que certamente teve muitas variantes e ritmos. Por enquanto, algumas interpretações mais ousadas, têm merecido, da parte dos arqueólogos, compreensíveis reservas. Furholt, 2021

Por isso, fiquemos apenas pela chamada cultura material, que é, à boa maneira tradicional, a zona de conforto dos arqueólogos, e olhemos para um exemplo próximo.

Mariana Diniz descreveu, com bastante detalhe, as semelhanças flagrantes entre as indústrias líticas do Mesolítico final dos estuários próximos e as do Neolítico antigo do sítio eborense da Valada do Mato; essa identidade tem sido interpretada, pela autora, como resultado de um processo de miscigenação, em que, por via da exogamia, se integraram características técnicas mesolíticas, numa comunidade neolítica. Diniz, 2025: 639

A meu ver, os mesmos dados são passíveis de uma interpretação inversa.

O sítio da Valada do Mato (como os outro sítios  pode, em alternativa, ter sido fundado por colonos pioneiros, oriundos das comunidades de caçadores-recoletores dos estuários, trazendo consigo a cultura material, no que diz respeito às atividades tradicionais, isto é, os artefatos relacionados com a caça-recolecção, mas tendo, entretanto, adquirido os conhecimentos relacionados com a agricultura e a pastorícia, por via das trocas exogâmicas com comunidades, entretanto neolitizadas, com quem mantinham contatos de longa distância, .

Podíamos, arriscando algumas generalizações sempre complicadas, considerar que se trataria de exogamia patrilocal, em que, numa comunidade mesolítica, deram entrada mulheres neolíticas. Que, suponhamos, levaram, como enxoval, um saco de sementes, um casal de ovelhas e outro de cabras. E muitas ideias novas.

E, claro, o know how da cerâmica manual, cuja vinculação ao universo feminino é uma regra geral, com poucas exceções Diniz, 2019: 19

E novos hábitos gastronómicos, incluindo, parece, o pão e o queijo…

Para que este modelo faça sentido, temos que encontrar uma explicação para o facto de as populações dos estuários não se terem neolitizado in situ. 


Estuários alentejanos

Os dados disponíveis não deixam muitas dúvidas sobre o protagonismo do Alentejo Central, na primeira vaga desse processo, visto que, como veremos com mais detalhe, a região assistiu a um crescimento demográfico excecional, em comparação com as regiões limítrofes.

De facto, partindo da noção de que, no Mesolítico final, “a partir de c. 6.400 cal a.C., as áreas costeiras parecem ter sido abandonadas em favor das secções internas dos estuários dos principais rios portugueses, o Tejo (…) e o Sado (…), onde centros-chave de assentamento humano agora se desenvolveram, reunindo grupos que antes estavam dispersos”, Araújo e Marchand, 2025:267 salta à vista a importância “geoestratégica” que o Alentejo Central deve ter adquirido, a partir dessa altura, uma vez que se trata, de facto, do hinterland comum a ambos os estuários.

A ideia de que o Mesolítico final, numa vasta região, teve como palco principal, se não exclusivo, os estuários do Tejo e do Sado, foi igualmente defendida, recentemente, por Rita Peyroteo-Stjerna:a partir de c. 6350 cal a.C., pequenos grupos, altamente móveis, convergiram nos largos estuários dos vales do Tejo e do Sado” Peyroteo, 2016: 485

Resta, naturalmente, alguma dúvida sobre até que ponto essa concentração do povoamento mesolítico final foi mais ou menos massiva, ficando a Costa Sudoeste e os estuários do Mondego, a Norte, e  do Mira, a Sul, como possíveis núcleos resistentes ou apenas como lugares frequentados pontualmente, em expedições de carácter cinegético ou para obtenção de outros recursos, pelas populações sediadas nos limites superiores dos estuários do Tejo e do Sado. Araújo e Marchand, 2025: 273

É certo que muitos dos sítios mesolíticos, tanto no interior, como no litoral, podem ser anteriores ao movimento de concentração nos estuários; por exemplo, as datas para o Mesolítico na Costa Sudoeste, não vêm aquém de 5700 a.C. Soares, 2020: 308), ficando a dúvida sobre se se neolitizaram mais ou menos in situ (ou, pelo menos, no mesmo contexto paisagístico), como propõem Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, ou se a área foi abandonada a favor dos estuários e reocupada, sazonalmente, pelos primeiros agricultores e pastores do interior alentejano.

Nos últimos anos, alguns autores deixaram aberta a possibilidade de uma presença mesolítica também no interior alentejano, como é o caso do Alminho e do Bernardo Deus, 2008 e, sobretudo, do Xarez 12; Gonçalves et al., 2013 as dúvidas acima enunciadas para a Costa Sudoeste podem aplicar-se igualmente, nestes casos.

A data, sobre amostra de vida curta, obtida no sítio da Defesa de Cima 2, Diniz,  2017 é comparável à da Barca do Xarez Araújo e Almeida, 2013, reforçando a ideia de que alguns sítios mais antigos, do Mesolítico inicial, dispersos pelo interior, foram reocupados no Neolítico antigo, como se propôs aliás para o sítio  da Gaspeia; segundo os autores do estudo deste sítio, “aparentemente, tudo indica tratar-se do mesmo grupo que volta ao local, tendo entretanto integrado inovações neolíticas.” Silva e Soares, 2020: 27

Acrescentam, como corolário, que essa relação com a paisagem é “incompatível com a ideia de substituição de uma população autóctone de caçadores-recoletores por outra alógena de camponeses neolíticos.  Silva e Soares, 2020: 306

Mais explícito, talvez seja o sítio da Barroca, em Mora Calado, 2012b, uma vez que associado às fossas/silos, forradas a barro cozido, temos uma indústria lítica mesolítica e escassa cerâmica do Neolítico médio.


As origens da monumentalidade

Porém, qualquer que seja a solução, há que ter em conta a excecionalidade, mesmo à escala europeia, do Mesolítico final do Tejo/Sado.

De facto, nessa época, assistimos, em múltiplos domínios, a uma Revolução que, curiosamente, foi quase simultânea com a Revolução neolítica regional.

O lado mais visível dessa mudança está, naturalmente, nos concheiros propriamente ditos, que alguns autores, nos últimos anos, têm vindo a olhar mais como monumentos do que como restos de cozinha… Alvim, 2009-2010; Holst, 2025: 448; Peyroteo, 2016; Bicho et al., 2015: 599.

Não se tratou apenas de concentrar a população em áreas particularmente ricas, de ecótono, mas também de criar ou reforçar vínculos sociais através dos antepassados e, ao mesmo tempo, vínculos com a terra, coerentes com um forte incremento da sedentarização. Holst, 2025: 448; Peyroteo-Stjerna, 2016; Alvim, 2009-2010

A monumentalização dos cemitérios, através da “construção” dos concheiros, pode ser interpretada como uma prática simbólica que, mais tarde, teve continuidade nas mamoas funerárias neoliticas Bicho et al., 2015: 599.

Dito de outro modo, os concheiros funerários foram os mais antigos monumentos construídos no nosso território.

Os próprios recintos megalíticos alentejanos, com plantas em ferradura, podem ser, de alguma forma, descendentes das estruturas do timber circle da Moita do Sebastião ou da disposição dos corpos, no Vale de Romeiras. Calado, 2004b: 143, 144

A  B

Fig. 5.1 – : Planta composta das estruturas e enterramentos da Moita do Sebastião (Calado, 2004b, seg. Arnaud, adaptado); B: Planta dos enterramentos de Vale das Romeiras (Calado, 2004b, seg. Arnaud, adaptado)

De resto, a quantidade e a qualidade da informação arqueológica que, desde o século XIX, os nossos concheiros têm proporcionado, torna-os, justamente, um tema obrigatório, no contexto do Mesolítico da fachada atlântica europeia, Arias et al., 2015: 209 apenas comparável (e recorrentemente comparado) à Bretanha francesa, onde se destacam os concheiros, também clássicos, de Hoedic e Téviec, instalados em ilhotas, junto ao Golfo do Morbihan.

Recordo que essas ilhotas se localizam nas proximidades (cerca de 20 km, em voo de pássaro) do maior menir e do maior conjunto de menires da Europa (Locmariaquer e Carnac, respetivamente). Menires que partilham, como vimos, no capítulo anterior, muitas características comuns com os do Alentejo Central…

Para entendermos as semelhanças entre os nossos concheiros e os bretões, apesar das consideráveis distâncias envolvidas e sem paralelos comparáveis, pelo meio, convém ter em mente que uma característica geral do Mesolítico europeu seria a reduzida mobilidade residencial em territórios restritos”, traduzida num certo grau de sedentarização e de concentração do povoamento, mas, em contrapartida, com muitos indicadores de “movimentações individuais de longa distância.” Holst, 2025: 546


Se hace camino al andar

Em paralelo com estes movimentos de longo alcance, que se presumem por via marítima, é  razoável admitir, como vimos, que as populações mesolíticas, concentradas nos estuários, mantiveram também conexões com os locais habituais de acampamento, frequentados antes dessa concentração, e que esses mesmos lugares foram, como acima referi, reocupados no Neolítico antigo. Silva e Soares, 2020

Com o proposto estabelecimento, por fissão/enxameamento, a partir dos concheiros, dos primeiros enclaves agropastoris, tudo indica que os últimos caçadores-recoletores permaneceram, resistindo, mesmo que, aqui e ali, as cerâmicas tenham marcado presença, sugerindo alguma porosidade.

É interessante observar, como veremos mais adiante, que os primeiros grupos neolitizados mantiveram o cordão umbilical com os estuários, onde criaram sítios sazonais, em locais diferentes dos  concheiros, embora alguns nas proximidades mais ou menos imediatas destes. Gonçalves e Sousa, 2018

O facto, que parece indiscutível, de acordo com os dados arqueológicos, de as comunidades mesolíticas não terem enveredado imediatamente pela dimensão económica da neolitização (agricultura e pastorícia), mesmo adotando esporadicamente inovações tecnológicas do “pacote neolítico”, pode, desde logo, radicar no escasso potencial agropastoril dos solos, a mesmíssima razão pela qual se tem proposto a sazonalidade das ocupações neolíticas do Estuário do Tejo.

Tornar-se neolítico implicava abandonar, pelo menos durante a maior parte do ano, o ambiente estuarino e as respetivas vantagens, em termos de segurança alimentar. E, não menos importante, um corte com ideias e valores tradicionais.

A proposta migração, a partir dos concheiros do Tejo/Sado, com o objetivo de criar os primeiros enclaves agrícolas, não foi necessariamente unidirecional, nem instantânea. 

Apesar da posição privilegiada do Alentejo Central (Capítulo 3), relacionável, como veremos, com uma alta densidade de sítios do Neolítico antigo e com uma dinâmica social sem paralelos, evidenciada na construção dos grandes menires e recintos megalíticos, é possível que, a partir dos estuários, outras áreas tenham sido colonizadas, mais ou menos em simultâneo, e que, por razões que importa esclarecer (eventualmente relacionadas com o respetivo potencial agro-pecuário, em função do modo de produção neolítico), tenham tido menos sucesso. 

As datações atualmente disponíveis Davis e Simões, 2016; Davis et al., 2018 obrigam, desde logo, a colocar a hipótese de a Península de Lisboa ter sido também neolitizada, numa fase precoce. A descida do estuário até à foz fazia, certamente, parte das rotinas dos pescadores mesolíticos do Tejo e, a partir daí, Lameiras dista uma escassa dezena de quilómetros para o interior. Também, por razões de acessibilidade, é expectável uma presença antiga na Península de Setúbal.

Por outro lado, a expansão neolítica na Alta Estremadura, bem datada a partir de 5400 a.C., Zilhão e Carvalho, 2011 pode ter saído, não já diretamente dos concheiros, mas desses sítios neolíticos pioneiros, admitindo, como parece consensual, um rápido crescimento demográfico e uma forma desconcentrada de povoamento, em pequenos núcleos de quintas familiares, mantendo, sempre que possível, o contacto sazonal com o litoral, como parece ter sido o caso no Baixo Tejo.

Quanto à Costa Sudoeste, com datas das mais antigas, em Vale Pincel1, é possível que estejamos perante ocupações sazonais articuladas com sítios agropastoris, localizados algures no interior alentejano.


Landmarks

Como já referi mais atrás, no Alentejo Central, os grandes blocos de rochas granitoides, parecem ter desempenhado um papel importante no quotidiano dos primeiros agricultores e pastores; basta pensar um pouco em toda a logística implicada no transporte e ereção dos grandes menires e recintos megalíticos, nas fases de construção, e no significado social, enquanto monumentos coletivos, nas fases de uso.

Além disso, os afloramentos graníticos naturais, muitas vezes impressionantes, foram sistematicamente usados como "âncoras" pela esmagadora maioria dos “povoados” do Neolítico antigo/médio da região.  Calado, 2002d

A valorização deste tipo de espaços, verdadeiros landmarks naturais, com possíveis significados mitológicos ou simbólicos, fez, muito provavelmente, parte  da cartografia mental dos mesolíticos que, na fase final, se concentraram nos estuários do Tejo e do Sado.

O “povoado” de S. Pedro de Canaferrim, em Sintra, Simões, 2003 não foge, nesse detalhe, à regra, uma vez que se implantou no meio de destacados afloramentos de sienitos (rocha igualmente granitóide). Como também o “povoado” do Prazo, em Freixo de Numão, não foge. Monteiro-Rodrigues, 2011

Note-se que, mesmo os sítios de Lameiras, ou de Negrais Simões e Sousa, 1999 talvez não sejam, nesse aspeto, muito diferentes dos do Alentejo Central, atendendo ao peso da cenografia geológica dos campos de lapiás. Calado, 2004b: 169, 170

 


                                           Fig. 5.2 - Aspetos do afloramento central do povoado do Penedo do Ouro 1 (Évora). (Calado, 2004b: 326)

 

                                                                Fig. 5.3 - Lapiás de Negrais, Sintra. (Calado, 2004b: 169)

Quem está mal, muda-se...

Apesar das expectáveis continuidades (que, arqueologicamente, se traduzem na utensilagem lítica, de base lamelar, com destaque para os segmentos), é pertinente ter em conta a natural rejeição de muitos aspetos ideológicos associados ao modo de vida neolítico, claramente em rutura, com a cosmovisão dos caçadores-recolectores.

Essa atitude parece ter-se manifestado, na dieta dos caçadores-recoletores dos estuários, atendendo à total ausência de domesticados, enquanto, em volta, se consolidava o modo de vida agro-pastoril. 

A adopção das novidades neolíticas pelos caçadores-recoletores seguiu provavelmente um padrão mais geral, em que entram, em primeiro lugar, as inovações técnicas (no caso, a cerâmica e, eventualmente, a pedra polida) e só com muito custo as inovações alimentares.

Os Tiriyó são um povo indígena amazónico que, por viverem num território muito isolado (nas linhas de festo entre a bacia do Amazonas e as dos rios caribenhos (Parque do Tumucumaque), só entraram em contacto regular com a "civilização", há cerca de sessenta anos, altura em que se instalou na Terra Indígena uma missão franciscana.

Na língua dos Tiriyó, existe o termo apei que significa "agarrar" e que se aplica às inovações que, por contacto com outras culturas, foram sendo adoptadas. Isto é, os tiriyó concebem as suas tradições como um sistema aberto, mas seletico, ao contágio cultural.

Os Tiriyó começaram por "agarrar" inovações trazidas pelos brancos, a partir do sec. XVII, num esquema comercial, dominado por quilombolas, entre o litoral e o interior. Dessa época, data a introdução dos machados de ferro e das contas de vidro...e pouco mais.

Com o objetivo de ensinarem os Tiriyó a "modernizar-se", os franciscanos tentaram introduzir,  na terra indígena, a criação de vacas. Construíram currais e cercas, levaram os animais, e ensinaram aos indígenas a pastorícia, incentivando a produção e processamento do leite. 

Não funcionou. Os Tiriyó não viram vantagem suficiente no processo e as vacas acabaram por ficar em liberdade, na savana. Quando os visitei, em 2010, só os franciscanos davam uso àquele recurso: sempre que precisavam de carne de vaca, encomendavam-na aos tiriyó que, por sua vez iam caçá-las... 

Claro que, por muito sedutoras que fossem as inovações económicas neolíticas (com destaque para o leite e o cereal), os construtores e utentes dos concheiros  e o modo de vida tradicional, baseado apenas na caça-recoleção, sobreviveram, durante séculos, lado a lado com o alastramento das novas modas.

Esta resistência assentou, em última análise, nas mesmas razões que os levaram a instalar-se nas bordas dos estuários: uma estabilidade alimentar e residencial garantida por ecossistemas muito produtivos, com um modelo que, ao que tudo indica, funcionava bem. Cunha et al., 2004; Orschiedt, 2025: 592; Stutz, 2025: 584;

É, de resto, razoável admitir que o crescimento demográfico do Mesolítico final, defendido por alguns autores Araújo e Marchand, 2025: 273, tenha sido catalisador da rápida disseminação do Neolítico pelo interior alentejano e não só. E que a saída desses pioneiros tenha contribuído para o alívio de eventuais tensões que um contínuo crescimento demográfico naturalmente provocaria. Diniz, 2015: 293


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