Neolitização do Sudoeste peninsular: uma proposta a partir do
interior
Como certamente já ficou claro, não
partilho daquele “pressuposto colonialista” que, na opinião de
Joaquina Soares, “tem vindo a contaminar o pensamento arqueológico actual”. Soares, 2020: 308
Há vinte anos, expus uma série de argumentos, de
claro pendor indigenista, que, no geral, considero ainda válidos, aos quais se
juntaram novos dados que, do meu ponto de vista, vieram reforçar o essencial da
proposta, embora introduzindo nuances importantes. Calado, 2004b: 243-255
Escrevi, nessa altura que “como alternativa ao modelo de difusão démica e, sobretudo, à versão mais radical dos enclaves neolíticos, os dados disponíveis para a neolitização do Alentejo Central podem, com vantagem, ser interpretados como o resultado do dinamismo das últimas sociedades de caçadores-recolectores dos estuários do Tejo e do Sado. A singularidade dos menires alentejanos, exige um contexto singular.” Calado, 2004b: 251
Recapitulando, para avaliar o papel que o Alentejo
Central pode ter tido na neolitização do território português, importa, entre outros aspetos, entender a relação espacial, nomeadamente em termos de acessibilidade,
mas também de complementaridade ambiental, entre esta região e os estuários adjacentes.
Por outro lado, é imprescindível ter em conta a indiscutível concentração, sem paralelo na Península Ibérica, das últimas comunidades de caçadores-recoletores-mariscadores, nos limites superiores dos estuários do Tejo e do Sado. Carvalho, 2009; Araújo e Marchand, 2025; Peyroteo, 2016
Casas Novas, coisas novas...
No contexto da neolitização do atual território português, não tenho dúvidas de que a principal
novidade, nos últimos anos, foi a descoberta e escavação do sítio de Casas
Novas, em Coruche de que foi entretanto publicada uma detalhada monografia. Gonçalves e Sousa, 2018
Como tive oportunidade de sublinhar, a alta antiguidade
(documentada pela datação e pelos materiais recolhidos) coloca-o entre os mais
sérios candidatos ao arranque da neolitização regional.
Por outro lado, as dimensões incomuns
evocam, desde logo, a excecionalidade de outros três fenómenos que, na mesma
época, tiveram lugar, no mesmo contexto geográfico: os concheiros, os menires e
a alta densidade de sítios, no Alentejo Central.
A par destes dados, de ordem arqueológica, já chamei a atenção para os elementos, de ordem geográfica, cuja excecionalidade, à escala peninsular, deve entrar na equação, nomeadamente o maior rio da Península e, por consequência, o maior (e melhor) caminho natural para a ligação do litoral atlântico ao interior. E, numa escala mais próxima, a maior mancha de rochas granitoides, diretamente acessível a partir dos estuários e atravessada por aquela via natural de trânsito.
Quanto às Casas Novas, o facto de o
sítio corresponder a “ocupações curtas,
sazonais, eventualmente associadas com a exploração de recursos ligados ao meio
ribeirinho” Gonçalves e Sousa, 2015: 227
implica, entre outros aspetos acima enunciados, a existência de sítios
contemporâneos, algures na região.
As presumidas bases residenciais
permanentes, pelo menos as mais acessíveis, encontramo-las, dispersas pelo
território do Alentejo Central (e do Alto Alentejo), organizadas num sistema de
pequenas quintas familiares (montes), mas em número suficiente, e suficientemente
organizadas, para a realização de grandes obras públicas (menires e recintos
megalíticos).
Casas Novas e os outros sítios
neolíticos do Baixo Tejo, localizados na margem esquerda do estuário, são
provavelmente todos, ou maioritariamente, complementares dos sítios plenamente
sedentários, instalados no interior, em áreas agricolamente mais viáveis; essa
complementaridade, pode implicar, regular ou sazonalmente, expedições ao
estuário, com ou sem os rebanhos de ovicaprídeos, para abastecer a despensa com
os recursos aí disponíveis e atendendo às distâncias envolvidas (1 dia de
marcha, em média).
Esse modelo explicaria, como vimos, a área excessivamente ampla das Casas Novas (e a escassa densidade relativa de artefatos). Mais do que um povoado, seria um acampamento estival, portanto sem necessidade de estruturas permanentes; a presença de vestígios de cereal, cultivado presumivelmente noutro lado, assim como as mós, podem corresponder às provisões que o grupo levaria dos “montes” alentejanos, para processamento e consumo, durante a estadia. Tal como, segundo parece, levaram as vasilhas de barro (a não ser que se considerasse, por absurdo, que o que transitava do Maciço Antigo para o estuário, era o barro propriamente dito).
Indígenas q.b.
Assim, se excluirmos a hipótese dos
enclaves de colonos pioneiros (vindos algures de longe, como estranhos numa
terra estranha) e aceitarmos a neolitização a partir das sociedades mesolíticas
indígenas, podemos, em alternativa, considerar dois cenários.
Um deles, que corresponde à posição tradicional dos neolitistas que trabalham na Costa Sudoeste, seria considerar os sítios mesolíticos litorâneos dessa área, como os protagonistas das primeiras experiências agropastoris. Essa abordagem fundava-se, teoricamente, em fatores ambientais: nos Estuários, sem constrangimentos económicos, ter-se-ia mantido, irredutível, o modo de vida mesolítico; mas na costa Sudoeste, mais limitada economicamente, a transição teria sido mais atrativa... isto apesar de os mesmos autores reconhecerem, nos Estuários, um maior avanço no sentido da sedentarização, prenunciando o Neolítico.
A apoiar esta leitura, tínhamos, no
mesmo tipo de paisagem, nas proximidades de Sines, vários sítios mesolíticos, e
os materiais exumados em Vale Pincel 1, entretanto reforçados com datações
radiocarbónicas, que apontavam claramente para o Neolítico antigo.
Esta interpretação apoiava-se, de
forma implícita, na evidência, que todos partilhamos, de que a neolitização, de
uma forma ou de outra, correspondia a um movimento, por via marítima, de
Oriente para Ocidente. Se considerarmos o velho modelo da “onda de avanço”,
linear e paulatino, é claro que, o Algarve e a Costa alentejana, por esta ordem, seriam as primeiras áreas afetadas.
É justo reconhecer que este modelo foi construído numa época em que os dados disponíveis eram ainda muito balbuciantes, sobretudo no que respeita aos sítios de ar livre de interior.
O Alentejo Central era ainda, nessa altura, um território aparentemente vazio, onde, em termos de Neolítico antigo, apenas se conhecia um possível episódio funerário, num contexto excecional, a Gruta do Escoural Santos, 1071.
Entretanto, o contributo de João
Zilhão, propondo um avanço não linear, baseado no modelo denominado “leapfrog migration”, mais aplicável às
datas disponíveis, foi fazer um bypass
pelas costa Sudoeste e propor que os primeiros colonos se teriam instalado
diretamente na Alta Estremadura, precisamente para evitar o contato com os
indígenas.
Nessa visão, os concheiros mesolíticos
dos Estuários teriam ficado fora do processo, durante séculos, até, finalmente,
se converterem. É aqui um dos pontos em que indigenistas e colonialistas coincidem.
No cenário alternativo, que há muito
defendo e me parece o mais adequado, seriam as populações dos Estuários do Tejo
e do Sado a receber, através das suas extensas redes de contatos, os primeiros influxos neolitizadores, e seria dessas
comunidades que teriam saído os primeiros "convertidos".
Nesse caso, o Alentejo Central seria o
destino mais expectável, atendendo à contiguidade geográfica e à
transitabilidade, embora certamente a instalação desses pioneiros neolíticos
tenha atingido rapidamente outras áreas, num processo que, perante a resolução
das datas de que dispomos, foi praticamente simultâneo. A Península de Lisboa, em particular, parece ter sido "colonizada" numa fase bastante precoce, atendendo à datas seguras entretanto publicadas. Davis e Simões, 2016
As razões que justificam este movimento (que já apelidei de colonização interna) Calado, 2004b, prendem-se, antes de mais, com a (in)disponibilidade de solos com potencial agrícola, nas áreas onde se tinham implantado os concheiros, ideia que tem vindo a ser defendida, por vários autores, mas apenas a propósito dos sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo. Gonçalves e Sousa, 2018; Neves, 2023: 24, 25, 206
A comparação entre as datas
disponíveis, aponta para uma neolitização muito rápida, de Oriente para
Ocidente, ao longo do Mediterrâneo e do Atlântico, mas igualmente rápida na
progressão do litoral para o interior da Península Ibérica.
A chave para entender a rapidez dessa progressão é
preciso procurá-la, primeiro que tudo, na alta mobilidade das comunidades
mesolíticas, denunciada através de relações de longa distância, como as que
testemunham, tendo como centro o Tejo/Sado, as semelhanças notórias com a
Bretanha Roche, 1989; Marchand, 2001b; Araújo e Marchand, 2025, por um lado, e com a região valenciana (La Cocina) Marti et al, 2009; Carvalho, 2009,
pelo outro.
De resto, as capacidades náuticas
mesolíticas têm sido apontadas por muitos autores, com base em dados de
diversos contextos geográficos, que implicam “viagens de longa distância” e que “eram obviamente realizadas para
estabelecer e manter redes sociais, para trocar notícias e inovações e para
abastecer de matérias-primas.” Holst, 2025: 548
Porém, convém ter em mente que o
crescimento demográfico, no Mesolítico final, que, segundo alguns, foi uma
consequência do aumento da fertilidade feminina e da redução do intervalo entre
nascimentos, graças ao incremento da diversidade alimentar e da estabilidade
residencial, Jackes and Meiklejohn, 2008; Soares, 1995, 2013a deve ter desempenhado um papel importante na rapidez e na
extensão da neolitização do interior peninsular.
Este putativo crescimento poderia alimentar o contingente de pioneiros agropastoris e, simultaneamente, manter ativos os concheiros que, em todo o caso, se foram esvaziando ao longo de uns séculos, até ao abandono definitivo. Peyroteo-Stjerna, 2016
Em paralelo, há que considerar a
provável alta taxa de crescimento demográfico dos primeiros neolíticos,
dispondo de solos virgens, portanto extremamente férteis, sem constrangimentos
territoriais, florestas até aí pouco perturbadas (onde não faltaria a caça, nem
a bolota, por exemplo) num ambiente de paz e estabilidade, praticando uma
economia em que a caça/recolecção manteve uma importância significativa.
Esse crescimento relaciona-se,
naturalmente, com “a nova intensificação económica
proporcionada pela integração da agricultura no sistema de subsistência de
largo espectro mesolítico” e “ampliou aquela anterior dinâmica de crescimento
demográfico, bem expressa na cartografia do povoamento neolítico”, Soares,
2020: 308 ou, dito de outro modo a “aparente explosão de povoados a céu aberto que ocorreu no último terço do 6º milénio a.C.”, se não antes". Alonso
Fernandez e Jímenez Echevarria, 2015: 542
E, na maior parte do território
português, mas concretamente no Alentejo Central, a interiorização do
povoamento provavelmente nunca implicou um corte radical com as áreas litorais
e estuarinas mais próximas, cuja ocupação seria, nesta fase, apenas sazonal ou,
no mínimo, esporádica.
O conceito de economia agromarítima Soares, 2008; Soares e Silva, 2013; Soares, 2021
(sobretudo se considerarmos as variantes agroestuarina e agrofluvial) pode,
com algumas adaptações, ser aplicável a partir do Neolítico antigo, conectando
sítios especializados na caça, pesca, marisqueio e extração de sal, com outros,
no interior, baseados numa economia plenamente neolítica. É evidente que o
conceito perde eficácia, à medida que nos afastamos do litoral, mas permite encarar uma base económica diferenciada que justifique a densidade e dimensão dos monumentos megalíticos mais antigos, no Alentejo Central.
A complementaridade económica, implícita na economia agromarítima, foi igualmente sugerida, a respeito dos sítios neolíticos litorâneos da área de Valencia; segundo Pascual Benito, "não é descabido pensar que pelo menos alguns dos sítios neolíticos costeiros eram sazonais, dedicados a alguma tarefa específica, e que estes grupos passavam a maior parte do ano em povoações situadas no interior.” Concluindo que “o consumo de produtos do mar pode ter ocorrido de forma esporádica, possivelmente durante períodos muito curtos, e como complemento de dietas em que os cereais e os produtos cárneos eram a componente principal.” Pascual Benito, 2014: 220
Alguns sítios do Neolítico antigo,
mais interiores, como é o caso de Los Barruecos, Canaleja 2, Cerro de la Horca,
Cerrillo et al., 2011 ou La
Paleta Jímenez et al., 2008
localizados ao longo do caminho natural, que liga o Cabo Espichel ao centro da
Península Ibérica (com o qual, aliás, se relacionam também os principais
menires e sítios neolíticos antigos do Alto Alentejo) fazem provavelmente parte
de uma sequência, cujos pontos de partida são, no limite, os estuários do Tejo
e do Sado, e cujo ponto de chegada coincide, em Ambrona, com uma outra grande
via ligando o Mediterrâneo e a Meseta, través do festo que delimita, a Oeste, a
bacia do Ebro Soares, 2020: 310
Talvez não seja coincidência o facto de, ao longo desse percurso, os menires irem rareando, num gradiente notório, de Oeste para Leste, até ao interior da Meseta, enquanto, noutros aspetos da cultura material, as diferenças são pouco perceptíveis.
Gémeos dizigóticos: o Tejo e o Sado
Os concheiros mesolíticos dos
estuários do Tejo e do Sado são habitualmente referidos em conjunto, por muitas
e boas razões, embora, quando aproximamos o foco, se reconheçam diferenças
entre eles.
Na mesma época (por volta de 6000
a.C.), pelos mesmos motivos e seguindo uma estratégia análoga, os últimos
caçadores-recoletores estabeleceram-se (ou foram-se estabelecendo) nos limites
superiores destes estuários, convergindo, a partir de uma distribuição bastante ubíqua, que abrangia amplos territórios, tanto no interior, como no
litoral.
Essas “regiões a montante que tinham sido abandonadas pelos caçadores-recolectores no início do Atlântico” Zilhão, 1998: 29 e onde pequenos grupos, com grande mobilidade, parecem ter estabelecido lugares de acampamento temporário, em lugares bem escolhidos na paisagem, mantiveram-se possivelmente na memória dos mesolíticos finais e foram, no início da neolitização, reocupados pelos primeiros agricultores/pastores, que, pela primeira vez “domesticaram” essas paisagens, “desbastando a floresta e adaptando o território ao novo sistema de subsistência” Zilhão, 1998: 29
Admitindo que os concheiros do Tejo e do
Sado foram obra das mesmas gentes, as principais diferenças residiriam,
principalmente, nas diferenças paisagísticas, em sentido amplo.
Desde logo, enquanto, no caso do Tejo,
os concheiros se localizaram exclusivamente na margem esquerda (a margem
direita é muito distinta e a largura do estuário era um obstáculo considerável), no Sado, os concheiros dispersaram-se pelas duas margens, que,
neste caso, são bastante equivalentes (e a distância entre as margens é
relativamente diminuta).
Porém, onde as diferenças se tornam
mais evidentes é na forma como ambas as comunidades se neolitizaram, o que, em
parte, pode resultar de lacunas da investigação.
O que falta, no
Sado, é um fenómeno equivalente ao que tem sido evidenciado na margem esquerda
do Baixo Tejo, isto é, os sítios do Neolítico antigo (com destaque para Casas
Novas); na verdade, o mais próximo que temos são os sítios do Neolítico médio
da Comporta que foram interpretados como permanentes, no contexto de uma
economia agromarítima, mas onde, com base na presença de cerâmicas decoradas,
se considerou que “a
sua cultura material conservava ainda aspectos herdados do Neolítico antigo
evolucionado”. Soares
e Silva, 2013: 163
No que diz respeito à presumível relação de
(inter) dependência com o hinterland, foi proposto que a “interação se fizesse
através de trocas regulares de bens alimentares: peixe salgado e/ou fumado, sal
e moluscos disponibilizados pelas populações ribeirinhas, e, em sentido
inverso, pão e gado". Soares e Silva, 2013: 163-164
Para estes autores, com uma abordagem assumidamente marxista, o povoamento do interior (deduz-se que algures no interior alentejano), corresponderia ao “modo de produção doméstico evolucionado ou megalítico” que, na sua opinião, seria “claramente hegemónico”, enquanto o modo de produção “agro-marítimo estuarino”, seria “subordinado ao primeiro”. Soares e Silva, 2013: 164
"A partir da adopção da economia de produção de alimentos, os biótopos estuarinos foram explorados quer de forma complementar à prática da agro -pastorícia, quer como principal suporte da subsistência de grupos que poderíamos designar por neolíticos-recoletores, de tradição mesolítica, bem adaptados a esses ecossistemas" Soares e Silva, 2013: 108
Os dados, sobretudo faunísticos, que suportam este conceito, foram recentemente revistos por Joaquina Soares Soares, 2021
A meu ver, o conceito de economia agromarítima (e as vantagens económicas que daí resultaram) aplica-se, sem dificuldade, ao povoamento neolítico de interior (desde que suficientemente próximo do litoral/estuário), e permite-nos, como veremos, iluminar, em parte, a excecional monumentalidade do megalitismo alentejano, no Neolítico antigo/médio.
Porém, alterando um pouco a forma
como se pode interpretar a relação de subordinação entre o litoral e o interior, penso que, tal como no estuário do Tejo ou no litoral de Valencia, se pode colocar, também aqui, a hipótese de que a economia agromarítima
tenha sido protagonizada pelas mesmas populações, sediadas no interior e
desenvolvendo aí, desde o Neolítico antigo, uma economia agropastoril,
complementada, sazonalmente, por estadias em contexto estuarino.
É claro que a ligação da Comporta
ao interior “megalítico” mais próximo é menos direta que no caso do Tejo, uma
vez que havia que fazer a travessia do Sado.
As hipóteses para localizar, no
espaço regional, esse interior, estão em aberto. Se considerarmos a proximidade
geográfica, os sítios melhor colocados são o Casal da Cerca Silva e Soares,
2014 e
os restantes sítios conhecidos na Península de Setúbal, nomeadamente o Alcube,
Fonte de Sesimbra1, Casal do Meio, Roça do Casal do Meio 6, Pinheirinhos… Soares et al.,
1979; Serrão, 1994: 65; Calado et al., 2009
Porém, se compararmos a escassez de
sítios de ar livre, na Península de Setúbal, com a abundância comprovada, no Alentejo Central,
parece aconselhável considerar esta relação como prioritária. A distância, em
linha reta, seria na ordem do 50 Km, isto é, cerca de um dia de marcha, por
terrenos pouco acidentados, até às periferias do Maciço Antigo, onde se situam
os terrenos graníticos que, como já tive oportunidade de referir, foram os
preferidos (seguidos dos terrenos calcários) dos primeiros agricultores e
pastores neolíticos.
Esta hipótese exige uma revisão da
ideia, aceite desde há muito, de que os solos arenosos teriam sido os preferidos pelos primeiros grupos neolíticos, atendendo à “incipiente
tecnologia agrícola”, mas, sobretudo, por ser
essa a localização dos sítios, claramente neolíticos e claramente antigos, da
área de Sines. Silva e Soares, 1981;
Não tem sido considerada a hipótese de se tratar,
sobretudo no caso de Vale Pincel 1, de uma ocupação sazonal, como se propôs, com
base em critérios comparáveis, em Casas Novas ou, como vimos, também para os sítios do litoral de Valencia.
Porém, se tomarmos em conta a
densidade de materiais, apesar de não ter sido ainda publicado o grosso do
espólio proveniente de cerca de 2000 m2 escavados, tudo indica que seja muito
inferior a sítios de interior, como a Valada do Mato ou o Freixo do Meio 1.
Sobre o material lítico da primeira
fase das escavações em Vale Pincel, João Zilhão sugere que a densidade por m2
não permite concluir que se tratasse de um acampamento-base, isto é seria um
sítio de ocupação sazonal. Zilhão, 1998: 31
É certo que Carlos Tavares da Silva e
Joaquina Soares deixaram bem expressa a ideia de que, naquela área, a economia
assentava, fundamentalmente, na “pesca, na caça e na
recolecção (a agricultura ocupa um lugar francamente secundário),” Silva
e Soares, 1981: 97
No mesmo sentido, reconhecendo a fraca qualidade dos solos de Vale Pincel 1, sugerem que o povoado da Salema, que consideram posterior a Vale Pincel 1, se estabeleceu “a alguns quilómetros da costa e na proximidade de terrenos mais férteis;” Silva e Soares, 1981: 96
Regressando ao tema das diferenças entre o Estuário
do Sado e o Estuário do Tejo, em termos de mesolítico final e Neolítico
antigo/médio, a verdade é que podemos estar perante o resultado da escassez de
prospecções, no caso do Sado, tal como eventualmente no interior, a partir da
Costa Sudoeste, no território do Alto Sado; reconhecendo essa expectável
lacuna, Joaquina Soares propôs, recentemente, o “incremento da arqueologia de
campo cientificamente orientada”. Soares, 2020: 319
Esta necessidade já tinha, aliás, sido apontada no estudo percursor sobre a pré-história da área de Sines, onde se anotaram “lacunas da prospecção arqueológica na faixa oriental da região” Silva e Soares, 1981: 17 e, por extensão, no interior alentejano.
Economia agrofluvial
Dentro do Alentejo Central, a área de Reguengos de Monsaraz merece, neste contexto, um tratamento diferenciado.
Na perspectiva que tenho vindo a defender, esta área, com um importante complexo de menires e recintos megalíticos e o concomitante povoamento do Neolítico antigo, dificilmente poderia ser integrada no modelo interior/estuários que se aplica, sem dificuldade, às áreas de Mora, Montemor-o-Novo ou Évora. Por exemplo, o sítio da Casa Nova dista cerca de 30 Km do Freixo do Meio 1 e cerca de 60 Km da Valada do Mato. Os sítios de Reguengos de Monsaraz distam cerca de 120 Km...
Sem excluir que Reguengos de Monsaraz possa ter mantido relações regulares com os Estuários, é razoável supor que estas terão sido relativamente menos frequentes.
Porém, em comparação com os outros sítios do Neolítico antigo do Alentejo Central, concentrados sobretudo nas áreas das cabeceiras fluviais ou nas bordas ocidentais do Maciço Antigo, com uma rede hidrográfica incipiente, Reguengos de Monsaraz dispunha dos recursos cinegéticos e pecuários, proporcionados pelo rio Guadiana. Note-se que, até à construção da barragem do Alqueva, o leito do Guadiana, na época estival, era usado como pastagem, uma vez que era, na região, um oásis verde e com água, na secura do campo alentejano. O uso deste recurso, para além da dimensão cinegética que o rio potencia, foi possivelmente o pano de fundo para o complexo de arte rupestre do Alqueva.
Obelix
Publiquei, em 2002, num livro editado por Chris Scarre, um texto sobre "Standing Stones and Natural Outcrops" Calado, 2002d , em que comparei os menires do Alentejo Central e da Bretanha.
Para lá das semelhanças, em vários registos, existe, de facto, uma diferença enorme, em termos de escala, no que se refere à dimensão e à quantidade dos menires. Basta recordar que o Grand Menhir de Locmariaquer, só por si, pesa bastante mais que todos os menires dos Almendres juntos.
É lógico que “arrastar uma pedra de grandes dimensões por vários quilómetros exigiu organização, conhecimento técnico e uma força de trabalho substancial.” Scarre, 2020: 136
Para tentar explicar as diferenças entre as duas regiões propus que a "vantagem" da Bretanha seria uma neolitização costeira, com granitos (e solos adequados à agropastorícia) junto ao litoral, permitindo um crescimento demográfico muito mais sustentado, uma vez que a adoção das novidades neolíticas não implicava o distanciamento em relação aos recursos aquáticos. Eram agricultores, pastores, caçadores, pescadores e mariscadores, a tempo inteiro.
Nesse texto, anterior à descoberta dos sítios sazonais da margem esquerda do Baixo Tejo, atribuí os menires do Alentejo Central, a populações oriundas dos Estuários, mas que teriam prescindido dos recursos aquáticos. Por isso, com menores capacidades para investimentos coletivos com alto grau de exigência, em termos de mão de obra (número de participantes e tempo necessários), em comparação com a Bretanha.
Casas Novas e os outros novos sítios estuarinos vieram trazer à economia dos nossos construtores de menires, embora apenas sazonalmente, uma competência comparável à da Bretanha, em termos de recursos disponíveis.
Esta economia agromarítima (por cá, sobretudo, agroestuarina), comum, em graus diferentes, ao Alentejo Central e ao Golfo do Morbihan, traduziu-se, cá e lá, em menires e recintos megalíticos excecionais, nos mesmos territórios em que se conhecem os famosos concheiros funerários mesolíticos, também eles excecionais, em termos de fachada atlântica europeia.
“Estes padrões de movimento, no entanto, não revelam os mecanismos exatos de contacto; se, por exemplo, os ibéricos neolíticos visitaram a Bretanha ou o contrário.” Scarre, 2018c: 167
Em comum, para além da dimensão cultural, histórica, destaca-se, no que toca à paisagem, o "cruzamento" entre os granitos e o acesso aos recursos aquáticos.
Olhando para a geologia da Europa ocidental, verificamos facilmente que não abundam os granitos litorais e que, onde existem, faltam os concheiros mesolíticos...
A monumentalidade neolítica europeia (no caso dos menires mais monumentais) parece, pois, ser uma consequência da disponibilidade de terrenos graníticos, nas imediações de um forte substrato mesolítico, num gradiente, em termos dimensionais, que varia em função da proximidade/afastamento entre os granitos e os recursos aquáticos.
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