Capítulo 8, onde se procuram pistas para a "big picture" da emergência do megalitismo atlântico
Recapitulando...
Como certamente já ficou claro, não
partilho daquele “pressuposto colonialista” que, na opinião de
Joaquina Soares, “tem vindo a contaminar o pensamento arqueológico atual”. Soares, 2020: 308
Por outro lado, não tenho dúvidas sobre o facto de, em diversos contextos históricos, as invasões e as colonizações, terem sido os motores da mudança e de, na neolitização da Europa, terem existido situações muito diferenciadas.
Seja como for, há vinte anos, expus uma série de argumentos, de claro pendor indigenista, que, no geral, considero ainda válidos, aos quais se juntaram novos dados que, do meu ponto de vista, vieram reforçar o essencial da proposta, Calado, 2004b: 243-255 embora introduzindo nuances importantes.
Escrevi, nessa altura que “como alternativa ao modelo de difusão démica e, sobretudo, à versão mais radical dos enclaves neolíticos, os dados disponíveis para a neolitização do Alentejo Central podem, com vantagem, ser interpretados como o resultado do dinamismo das últimas sociedades de caçadores-recoletores dos estuários do Tejo e do Sado. A singularidade dos menires alentejanos, exige um contexto singular.” Calado, 2004b: 251
Recapitulando, para avaliar o papel que o Alentejo
Central pode ter tido na neolitização do território português, procurei, entre outros aspetos, entender a relação espacial, nomeadamente em termos de acessibilidade,
mas também de complementaridade ambiental, entre esta região e os estuários adjacentes.
Para contextualizar a excecionalidade do fenómeno menírico centro-alentejano, chamei à colação a indiscutível concentração, sem paralelo na Península Ibérica, das últimas comunidades de caçadores-recoletores-mariscadores, nos limites superiores dos estuários do Tejo e do Sado, Carvalho, 2009; Araújo e Marchand, 2025; Peyroteo, 2016 e, em paralelo, a densidade excecional de sítios de ar livre, atribuíveis ao Neolítico antigo, no interior alentejano.
Casas Novas, coisas novas...
Como já sublinhei, a principal novidade, nas últimas duas décadas, com fortes implicações na neolitização do atual território português e, em particular, do Alentejo Central, foi a descoberta e escavação do sítio de Casas Novas, em Coruche, Gonçalves e Sousa, 2018
Quando, em 2017, tive a oportunidade de visitar a escavação, a convite dos responsáveis pelo estudo do sítio, ficou, para mim, muito clara a necessidade de integrar essa nova realidade, nos modelos interpretativos em discussão.
Desde logo, as dimensões incomuns (30 ha), que é preciso relacionar teoricamente com a excecionalidade dos outros fenómenos contemporâneos, já mencionados: os concheiros mesolíticos, os povoados "megalíticos" e os menires.
A par destes dados, de ordem arqueológica, volto a chamar a atenção para os elementos, de ordem geográfica, cuja excecionalidade, à escala peninsular, deve entrar na equação, nomeadamente o maior rio da Península e, por consequência, o maior (e melhor) caminho natural, para a ligação do litoral atlântico ao interior. O maior estuário da fachada atlântica europeia, em termos de biodiversidade, e, numa escala mais próxima, a maior mancha de rochas granitoides, diretamente acessível a partir dos estuários e atravessada por aquela via natural de trânsito.
Quanto às Casas Novas, a interpretação do
sítio como resultante de “ocupações curtas,
sazonais, eventualmente associadas com a exploração de recursos ligados ao meio
ribeirinho” Gonçalves e Sousa, 2015: 227
implica, obrigatoriamente, a existência de sítios
contemporâneos, algures na região.
As presumidas bases residenciais
permanentes, pelo menos as mais acessíveis, encontramo-las, dispersas pelo
território do Alentejo Central (e do Alto Alentejo), organizadas maioritariamente numa série de
pequenas quintas familiares (montes), que designei como "povoados megalíticos", em número suficiente e suficientemente
organizadas, para a realização de grandes obras públicas (menires e recintos
megalíticos).
Casas Novas e os outros sítios
neolíticos do Baixo Tejo, localizados na margem esquerda do estuário, são
provavelmente todos, ou maioritariamente, complementares dos sítios plenamente
sedentários, instalados no interior, em áreas mais viáveis, em termos agrícolas e pastoris; essa
complementaridade, pode implicar, regular ou sazonalmente, expedições ao
estuário, com ou sem os rebanhos de ovicaprídeos, para abastecer a despensa com
os recursos aí disponíveis, tendo em conta as distâncias envolvidas (1 dia de
marcha, em média).
Esse modelo explicaria, como vimos, a área excessivamente ampla das Casas Novas (e a escassa densidade relativa de artefatos). Mais do que um povoado, seria um acampamento estival, portanto sem necessidade de estruturas permanentes; a presença de vestígios de cereal, cultivado presumivelmente noutro lado, assim como as mós, podem corresponder às provisões que os grupos levariam dos “montes” alentejanos, para processamento e consumo, durante a estadia. Tal como, segundo parece, levaram as vasilhas de barro Gonçalves e Sousa, 2018 (a não ser que se considerasse, por absurdo, que o que transitava do Maciço Antigo para o estuário, era o barro propriamente dito).
Indígenas q.b.
Assim, se excluirmos a hipótese dos
enclaves de colonos pioneiros (vindos algures de longe, como estranhos numa
terra estranha) e aceitarmos a neolitização a partir das sociedades mesolíticas
indígenas, podemos, em alternativa, considerar dois cenários principais.
Um deles, que corresponde à posição tradicional dos neolitistas que trabalham na Costa Sudoeste, considera os sítios mesolíticos litorâneos dessa área, como os protagonistas das primeiras experiências agropastoris. Essa perspectiva apoia-se, teoricamente, em fatores de ordem ambiental: nos Estuários, sem constrangimentos económicos, ter-se-ia mantido, irredutível, o modo de vida mesolítico; mas na costa Sudoeste, mais limitada economicamente, a transição teria sido mais atrativa... Silva, 2021; Silva e Soares, 2015; Silva et al., 2010; Soares e Silva, 2003
A apoiar esta leitura, tínhamos, no mesmo tipo de paisagem, na Costa Sudoeste, vários sítios mesolíticos, sugerindo uma neolitização mais ou menos in situ; por outro lado, os materiais exumados em Vale Pincel 1, nomeadamente cerâmicas impressas e uma indústria microlítica de recorte mesolítico, entretanto reforçados com datações radiocarbónicas, apontavam claramente para o Neolítico antigo.
Esta interpretação escorava-se, de forma implícita, na evidência, que todos partilhamos, de que a neolitização, de uma forma ou de outra, correspondeu a um movimento, por via marítima, de Oriente para Ocidente; ora, se considerarmos o velho modelo da “onda de avanço”, Ammerman e Cavalli-Sforza, 1984; Ammerman, 2020 linear e paulatina, é claro que o Algarve e a Costa alentejana, por esta ordem, seriam as primeiras áreas afetadas.
É justo reconhecer, também neste caso, que este modelo foi construído numa época em que os dados disponíveis eram ainda muito balbuciantes: o interior alentejano era, nessa altura, um território aparentemente vazio, onde, em termos de Neolítico antigo, apenas se conhecia um possível episódio funerário, num contexto excecional, a Gruta do Escoural. Santos, 1071.
Entretanto, João Zilhão, propondo um avanço não linear (leapfrog migration), mais conforme com as datas disponíveis, fez um bypass pela Costa Sudoeste e propôs que os primeiros colonos se teriam instalado diretamente na Alta Estremadura, alegadamente para evitar o contato (e a competição) com os indígenas. Ou, numa versão alternativa, incluindo o Algarve ocidental. Araújo e Marchand, 2025; Carvalho, 2017
Nessa visão, os concheiros mesolíticos
dos Estuários teriam ficado fora do processo, suspensos durante séculos, até, finalmente,
se converterem. É aqui um dos pontos em que indigenistas e colonialistas coincidem.
Já da parte dos mesolitistas, o suposto imobilismo dos últimos caçadores-recoletores tende a ser visto de forma mais dinâmica. De facto, Rita Peyroteo-Stjerna, por exemplo, observa que a atividade funerária, nos concheiros, foi esmorecendo, ao longo da segunda metade do VI milénio a.C., em paralelo com a expansão do modo de vida agro-pastoril. A autora não relaciona explicitamente os dois fenómenos, mas o paralelo não deixa de ser sugestivo. Peyroteo-Stjerna, 2016
Num cenário alternativo, que há muito defendo e me parece o mais adequado, terão sido as populações dos Estuários do Tejo e do Sado a receber, através das suas extensas redes de contatos, os primeiros influxos neolitizadores, e dessa interação, terão saído os primeiros "convertidos".
Nesse caso, o Alentejo Central seria o
destino mais expectável, atendendo à contiguidade geográfica e à
transitabilidade, embora provavelmente a instalação desses pioneiros neolíticos
tenha atingido igualmente outras áreas, num processo que, perante a resolução
das datas de que dispomos, foi praticamente simultâneo. A Península de Lisboa, em particular, parece ter sido "colonizada" numa fase bastante precoce, atendendo à datas da primeira metade do VI milénio a.C., obtidas no sítio das Lameiras. Davis e Simões, 2016
As razões, de ordem económica, que justificam este movimento (que já apelidei de colonização interna, isto é, a ocupação de áreas próximas, até aí devolutas) Calado, 2004b, prendem-se, antes de mais, com a (in)disponibilidade de solos com potencial agrícola, nas margens dos Estuários, facto que tem vindo a ser reconhecido, por vários autores, mas apenas a propósito dos sítios neolíticos da margem esquerda do Baixo Tejo. Gonçalves e Sousa, 2018; Neves, 2023: 24, 25, 206
Esta limitação ambiental implica só por si, que as comunidades mesolíticas ribeirinhas não dispunham das condições necessárias para uma efetiva neolitização in situ.
Crescei e multiplicai-vos
A comparação entre as datas
disponíveis, nomeadamente com base em amostras de vida curta (as mais fiáveis), aponta para uma neolitização muito rápida, de Oriente para
Ocidente, ao longo do Mediterrâneo e do Atlântico, mas igualmente rápida na
progressão do litoral para o interior da Península Ibérica.
A rapidez da disseminação, cada vez mais evidente, no interior peninsular, nomeadamente no Alentejo Central, é dificilmente compaginável com os pequenos grupos de colonos pioneiros que, supostamente, estariam na origem da neolitização; o potencial demográfico do povo dos concheiros parece, pelo contrário, constituir uma base mais sólida para a rápida ocupação de extensos territórios, no interior.
A chave para entender a velocidade dessa progressão é
preciso procurá-la, primeiro que tudo, na alta conectividade das comunidades
mesolíticas, denunciada através de relações de longa distância, como as que
testemunham, tendo como centro o Tejo/Sado, as semelhanças notórias com a
Bretanha Roche, 1989; Marchand, 2001b; Araújo e Marchand, 2025, por um lado, e com a região valenciana (La Cocina) Marti et al, 2009; Carvalho, 2009,
pelo outro.
De resto, as capacidades náuticas
mesolíticas têm sido apontadas por muitos autores, com base em dados de
diversos contextos geográficos europeus, que implicam “viagens de longa distância” e que “eram obviamente realizadas para
estabelecer e manter redes sociais, para trocar notícias e inovações e para
abastecer de matérias-primas.” Holst, 2025: 548
Porém, convém ter em mente o expectável crescimento demográfico, no Mesolítico final, que, segundo parece, foi uma consequência do aumento da fertilidade feminina e da redução do intervalo entre nascimentos, graças ao incremento da diversidade alimentar e da estabilidade residencial. Jackes and Meiklejohn, 2008; Soares, 1995, 2013a
É provável que o aumento da população tenha desempenhado um papel importante na rapidez e na extensão da neolitização do interior peninsular, até porque a redução da atividade dos concheiros, a partir de 5500 a.C. Peyroteo-Stjerna, 2016 é, à primeira vista, contraditória com o crescimento demográfico dessas comunidades.
De facto, esse putativo crescimento poderia ter alimentado o contingente de pioneiros agropastoris e, simultaneamente, mantido ativos, mesmo em declínio, os concheiros mesolíticos.
Em paralelo, há que considerar a
provável alta taxa de crescimento demográfico dos primeiros grupos neolíticos,
dispondo de solos virgens, portanto extremamente férteis, sem constrangimentos
territoriais, florestas até aí pouco perturbadas (onde não faltaria a caça, nem
a bolota, por exemplo) num ambiente de paz e estabilidade, praticando uma
economia (agromarítima) em que a caça/pesca/recolecção deve ter mantido uma importância significativa.
A expansão do povoamento neolítico relaciona-se,
naturalmente, com “a nova intensificação económica
proporcionada pela integração da agricultura no sistema de subsistência de
largo espectro mesolítico” e “ampliou aquela anterior dinâmica de crescimento
demográfico, bem expressa na cartografia do povoamento neolítico”, Soares,
2020: 308 ou, dito de outro modo, na “aparente explosão de povoados a céu aberto que ocorreu no último terço do 6º milénio a.C.”, se não antes". Alonso
Fernandez e Jímenez Echevarria, 2015: 542
E, na maior parte do território
português, mas concretamente no Alentejo Central, a interiorização do
povoamento provavelmente nunca implicou um corte radical com as áreas litorais
e estuarinas mais próximas, cuja ocupação seria, nesta fase, apenas sazonal ou,
no mínimo, esporádica.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra
É curioso, regressando à nossa Hécate, senhora das Encruzilhadas de Três Caminhos, que, na obra de Hesíodo, a deusa abençoe os pescadores e os pastores (em conjunto com Poseidon e Hermes) von Rudloff, 1999: 16
O conceito de economia agromarítima, a que já fiz referência, Soares, 2008; Soares e Silva, 2013; Soares, 2021 pode, com algumas adaptações, (sobretudo se considerarmos as variantes agroestuarina e agrofluvial) ser aplicável, a partir do Neolítico antigo, supondo que a interação entre litoral e interior “se fizesse através de trocas regulares de bens alimentares: peixe salgado e/ou fumado, sal e moluscos disponibilizados pelas populações ribeirinhas, e, em sentido inverso, pão e gado". Soares e Silva, 2013: 163-164
Para os criadores do conceito, o povoamento do interior (deduz-se que o interior alentejano), corresponderia ao “modo de produção doméstico evolucionado ou megalítico” que, na sua opinião, seria “claramente hegemónico”, enquanto o modo de produção “agro-marítimo estuarino”, seria “subordinado ao primeiro”. Soares e Silva, 2013: 164
Apesar de o termo "megalítico" ter sido aplicado, neste contexto, apenas ao megalitismo funerário, parece-me perfeitamente aplicável, mutatis mutandi, aos menires alentejanos que correspondem, na verdade, aos mais antigos monumentos megalíticos, nesta região.
O caráter "subordinado" dos sítios ribeirinhos, considerando duas comunidades diferentes, mas interligadas por laços de troca, equivale, de certo modo, ao proposto caráter sazonal (ou pontual), considerando, neste caso, que se trataria basicamente da mesma comunidade.
É evidente que o conceito de economia agromarítima perde eficácia, à medida que nos afastamos do litoral, mas permite encarar uma base económica diferenciada para explicar a densidade e dimensão dos monumentos megalíticos mais antigos, no Alentejo Central.
A complementaridade económica, implícita na economia agromarítima, foi igualmente sugerida, a respeito dos sítios do Neolítico antigo litorâneo da área de Valencia; segundo Pascual Benito, "não é descabido pensar que pelo menos alguns dos sítios neolíticos costeiros eram sazonais, dedicados a alguma tarefa específica, e que estes grupos passavam a maior parte do ano em povoações situadas no interior.” Concluindo que “o consumo de produtos do mar pode ter ocorrido de forma esporádica, possivelmente durante períodos muito curtos, e como complemento de dietas em que os cereais e os produtos cárneos eram a componente principal.” Pascual Benito, 2014: 220
Alguns sítios do Neolítico antigo,
mais interiores, como é o caso de Los Barruecos, Canaleja 2, Cerro de la Horca,
Cerrillo et al., 2011 ou La
Paleta Jímenez et al., 2008
localizados ao longo do caminho natural, que liga o Cabo Espichel ao centro da
Península Ibérica (com o qual, aliás, se relacionam também os principais
menires e sítios neolíticos antigos do Alto Alentejo) fazem provavelmente parte
de uma sequência, cujos pontos de partida são, no limite, os estuários do Tejo
e do Sado, e cujo ponto de chegada coincide, em Ambrona, com uma outra grande
via ligando o Mediterrâneo e a Meseta, través do festo que delimita, a Oeste, a
bacia do Ebro (Fig.3.3). Soares, 2020: 310
Talvez não seja coincidência o facto de, ao longo desse percurso, os menires (e as respetivas dimensões) se irem reduzindo, num gradiente notório, de Oeste para Leste, até ao interior da Meseta, enquanto, noutros aspetos da cultura material, as diferenças são pouco perceptíveis.
O modelo agromarítimo, por outro lado, exige uma revisão da
ideia, aceite desde há muito, de que os solos arenosos teriam sido os preferidos pelos primeiros grupos neolíticos, atendendo à “incipiente
tecnologia agrícola”. Silva e Soares, 1981;
No mesmo sentido, creio que faz sentido colocar a hipótese,
sobretudo no caso de Vale Pincel 1, de uma ocupação sazonal ou periódica, como se propôs, com
base em critérios comparáveis, para Casas Novas ou, como vimos, também para os sítios do litoral de Valência.
Note-se que, se tomarmos em conta a
densidade dos materiais exumados, apesar de não ter sido ainda publicado o grosso do
espólio proveniente de cerca de 2000 m2 escavados, tudo indica que seja muito
inferior a sítios de interior, como a Valada do Mato ou o Freixo do Meio 1.
Aliás, a propósito do material lítico recolhido na primeira
fase das escavações, em Vale Pincel 1, João Zilhão sugere que a quantidade de peças por m2
não permite concluir que se trata de um acampamento-base; isto é, seria um
sítio de ocupação sazonal. Zilhão, 1998: 31
É certo que Carlos Tavares da Silva e
Joaquina Soares deixaram bem expressa a ideia de que, naquela área, a economia
assentava, fundamentalmente, na “pesca, na caça e na
recolecção", acrescentando que "a agricultura ocupa um lugar francamente secundário”. Silva
e Soares, 1981: 97
Indiretamente, reconhecendo o fraco potencial agrícola dos solos de Vale Pincel 1, sugerem que o povoado da Salema, que consideram posterior a Vale Pincel 1, se tenha estabelecido “a alguns quilómetros da costa e na proximidade de terrenos mais férteis;” Silva e Soares, 1981: 96
Para além da Salema e dos sítios do Alto Sado, relacionáveis geograficamente com a Costa Sudoeste, talvez falte ainda localizar os sítios do Neolítico antigo, no interior; reconhecendo essa expectável
lacuna, Joaquina Soares propôs, recentemente, o “incremento da arqueologia de
campo cientificamente orientada”. Soares, 2020: 319
Esta necessidade já tinha, aliás, sido apontada no estudo percursor sobre a pré-história da área de Sines, onde se anotaram “lacunas da prospecção arqueológica na faixa oriental da região” Silva e Soares, 1981: 17 e, por extensão, no interior alentejano.
Economia agrofluvial
Dentro do Alentejo Central, a área de Reguengos de Monsaraz merece, neste contexto, um tratamento diferenciado.
Na perspectiva que tenho vindo a defender, esta área, com um importante complexo de menires e recintos megalíticos e o concomitante povoamento do Neolítico antigo, dificilmente poderia ser integrada no modelo interior/estuários que se aplica, sem dificuldade, às áreas de Mora, Montemor-o-Novo ou Évora. Por exemplo, o sítio das Casas Novas dista cerca de 30 Km do Freixo do Meio 1 e cerca de 60 Km da Valada do Mato. Já a Baixa do Xarez, em Reguengos de Monsaraz, dista cerca de 120 Km...
Sem excluir que Reguengos de Monsaraz possa ter mantido relações regulares com os Estuários, é razoável supor que estas terão sido relativamente menos significativas.
Porém, em comparação com os outros sítios do Neolítico antigo do Alentejo Central, concentrados sobretudo nas áreas das cabeceiras fluviais ou nas bordas ocidentais do Maciço Antigo, com uma rede hidrográfica incipiente, Reguengos de Monsaraz dispunha dos recursos cinegéticos e pecuários, proporcionados pelo rio Guadiana.
Note-se que, até à construção da barragem do Alqueva, o leito do Guadiana (onde se localiza a maioria das gravuras rupestres), na época estival, era usado como pastagem, uma vez que era, na região, um oásis verde e com água, na secura do campo alentejano. O uso deste recurso, para além da dimensão cinegética que o rio potencia, foi possivelmente o pano de fundo para o complexo de arte rupestre do Guadiana, de cronologia maioritariamente holocénica. Calado, 2004b
Reguengos seria pois o resultado de uma economia agrofluvial bem sucedida, em que o potencial agrícola dos solos graníticos se somou ao potencial cinegético e pastoril do rio. E onde o Mesolítico, de um modo ou outro, está presente. Gonçalves et al., 2013
Há mais de três décadas, antes das intervenções relacionadas com a Barragem do Alqueva, Gonçalves et al., 2013 escrevi que a "distribuição da cerâmica cardial, presente na Valada do Mato, no Escoural e em Cuncos e, até à data, perfeitamente desconhecida em Reguengos" podia implicar uma anterioridade da neolitização da área de Évora em relação à de Reguengos. Calado, 1995a: 121
Hoje, apesar de a situação não se ter alterado, em relação à cerâmica decorada, penso que as duas áreas podem ser contemporâneas e que, mesmo havendo alguma décalage, ela seria irrelevante.
Obelix
Publiquei, em 2002, num livro editado por Chris Scarre, um texto sobre "Standing Stones and Natural Outcrops" Calado, 2002d , em que comparei os menires do Alentejo Central e da Bretanha.
Para lá das semelhanças, em vários registos, a que já fiz menção, existe, de facto, uma diferença enorme, em termos de escala, no que se refere à dimensão e à quantidade dos menires. Basta recordar que o Grand Menhir de Locmariaquer, só por si, pesa bastante mais que todos os menires dos Almendres juntos.
É lógico que “arrastar uma pedra de grandes dimensões por vários quilómetros exigiu organização, conhecimento técnico e uma força de trabalho substancial.” Scarre, 2020: 136
Para tentar explicar as diferenças entre as duas regiões, propus que a "vantagem" da Bretanha seria, numa leitura estritamente economicista, uma neolitização costeira, com granitos (e solos adequados à agropastorícia, em terrenos pouco declivosos) junto ao litoral, permitindo um crescimento demográfico muito mais sustentado, uma vez que a adoção das novidades neolíticas não implicava o distanciamento em relação aos recursos aquáticos. Eram agricultores, pastores, caçadores, pescadores e mariscadores, a tempo inteiro.
Nesse texto, anterior à descoberta dos sítios sazonais da margem esquerda do Baixo Tejo, atribuí os menires do Alentejo Central, a populações oriundas dos Estuários, mas que, ao contrário da Bretanha, teriam prescindido dos recursos aquáticos. Por isso, com menores capacidades para investimentos coletivos com alto grau de exigência, em termos de mão de obra (número de participantes e tempo necessários), em comparação com a Bretanha.
Casas Novas e os outros novos sítios estuarinos vieram trazer à economia dos nossos construtores de menires, embora apenas sazonalmente (ou pontualmente), uma competência comparável à da Bretanha, no que diz respeito aos recursos disponíveis.
Esta economia agromarítima, comum, em graus diferentes, ao Alentejo Central e ao Golfo do Morbihan, traduziu-se, cá e lá, em menires e recintos megalíticos excecionais, nos mesmos territórios em que se conhecem os famosos concheiros funerários mesolíticos, também eles excecionais, no quadro da fachada atlântica europeia.
Nas gravuras patentes nos grandes menires do Morbihan, Serge Cassen e Jacobo Vaquero -Lastres viram uma mistura de temas mesolíticos e neolíticos que poderia ser vista como uma síntese gráfica de uma economia agro-marítima. Cassen e Vaquero-Lastres, 2003
Tendo em mente as relações entre os megalitismo de ambas as regiões, Chris Scarre observou que os “padrões de movimento, no entanto, não revelam os mecanismos exatos de contacto; se, por exemplo, os ibéricos neolíticos visitaram a Bretanha ou o contrário.” Scarre, 2018c: 167
Esta mesma questão pode ser colocada em relação aos mesolíticos e, como alternativa, podemos admitir que esses movimentos existiram nas duas direções.
Na comparação entre os dois contextos, importa realçar as semelhanças, em termos ambientais,entre o Golfo do Morbihan, o pequeno mar interior (junto com a Baía de Quiberon) e os nossos estuários, em particular, o do Tejo, o maior da Península Ibérica e considerado por muitos como o mais importante da Europa ocidental, em termos de biodiversidade (e o segundo maior, em termos absolutos, depois do Estuário da Gironda que, sendo maior, não apresenta o "fechamento" ao mar que caracteriza o do Tejo).
Têm em comum a proximidade (ecótono) em relação a diferentes ambientes aquáticos (agua salgada, água salobra e água doce) e terrestres, numa escala sem paralelos, na fachada atlântica europeia.
Deixo aqui, entre parêntesis, uma menção especial a Skateholm, no Sul da Suécia, instalado nas margens de uma lagoa litoral, junto ao Mar Báltico, portanto num ambiente comparável ao dos estuários ou do "pequeno mar" interior e com um Mesolítico final também comparável, nomeadamente por se tratar de um cemitério (concheiro) e ter fornecido um elevado número de esqueletos. Porém, neste caso, não há os menires (e os granitos estão relativamente longe), mas talvez não seja irrelevante o facto de a neolitização, nessa área, ter arrancado cerca de um milénio depois, numa época em que, um pouco por todo o lado, a monumentalidade se tinha deslocado dos menires para o megalitismo funerário...
A monumentalidade neolítica europeia (no caso dos menires mais monumentais) parece, pois, ser uma consequência da disponibilidade de terrenos agrícolas (com destaque para os granitos), nas imediações de um forte substrato mesolítico, num gradiente, em termos quantitativos, que varia em função da proximidade/afastamento entre os bons solos agrícolas e os recursos aquáticos.
Terceira via
Apresentei, em várias passagens, de forma intencionalmente simplificada, as duas principais correntes que, de perspectivas opostas, têm tentado modelizar a neolitização do sudoeste peninsular.
É claro que essa imagem a preto e branco tem, como seria de esperar, alguns cinzentos, expressos, designadamente, no chamado "modelo dual" que admite a chegada de grupos alógenos, mas dá algum protagonismo aos indígenas, por um lado, e identifica diferentes modalidades de neolitização, por outro. Bernabeu, 2006; Cabanilles, 1990; van Willigen, 2006
A proposta que apresento pretende integrar, de forma coerente, os dados relativos ao Alentejo Central que, como se viu, têm sido negligenciados; esta perspectiva teve, como principal consequência, a criação de um modelo de neolitização alternativo, (re)colocando os concheiros mesolíticos do Tejo/Sado no epicentro do fenómeno.
As semelhanças entre o golfo do Morbihan e os estuários do Tejo/Sado, tinham já uma forte tradição, nos estudos sobre o Mesolítico final; quanto às semelhanças, no que diz respeito ao megalitismo menírico, nas duas áreas, permitem-nos esboçar uma "big picture", aplicável à fachada atlântica europeia, em que o protagonismo dos fatores ambientais parece incontornável: ambientes excecionalmente ricos, em termos de biodiversidade, concentrando as populações dos últimos caçadores-recoletores, com solos aptos para a agricultura, nas proximidades.
Ou, dito de outro modo, os menires são a primeira expressão de monumentalidade megalítica que floresceu, na Europa atlântica, nas áreas que dispunham das melhores condições ambientais para o desenvolvimento de uma florescente economia agromarítima. E as raízes do fenómeno mergulham, aparentemente, no fundo cultural das últimas comunidades de caçadores-recoletores
Para terminar
A construção do conhecimento arqueológico faz-se por avanços e recuos, à medida que novos dados o exijam e, muitas vezes, é necessário desconstruir, para avançar.
Reconheço, para terminar, que as ideias que tenho vindo a defender são devedoras do contributo de muita gente.
Menciono apenas aqueles que trabalham no Centro/Sul de Portugal e que mais vezes citei nas páginas anteriores, correndo o risco de deixar, involuntariamente, de fora, contributos igualmente importantes.
Por exemplo, devemos a Carlos Tavares da Silva e a Joaquina Soares, para além da imensidão de dados sobre o Mesolítico e o Neolítico antigo da Costa Sudoeste (artefatos e ecofactos), o conceito de economia agromarítima que considero particularmente operativo para explicar a monumentalidade neolítica alentejana.
A João Zilhão, devemos o trabalho meticuloso de análise das datas publicadas e, com base nisso, a proposta de movimentos de longa distância (leapfrog), na progressão do Neolítico, do Mediterrâneo ocidental até ao território português.
Devemos-lhe, igualmente, uma ordenação cronológica bastante firme, no que diz respeito à neolitização das grutas da Alta Estremadura.
A Vitor Gonçalves e Ana Catarina Sousa devemos o estudo exemplar sobre a Baixa do Xarez e sobre o extraordinário sitio do Baixo Sorraia, abrindo duas janelas fundamentais para a compreensão do Neolítico regional.
A Mariana Diniz, devemos o estudo aprofundado dos materiais da Valada do Mato, de que destaco a comparação entre as indústrias microlíticas do sítio e as dos concheiros.
Devemos-lhe, e isso não é pouco, as únicas datações disponíveis para o Neolítico antigo centro-alentejano e a forma honesta como as apresentou.
Pessoalmente, devo a todos eles (exceto a Joaquina Soares e Ana Catarina Sousa, que estiveram muito bem representadas...) a participação no júri de oito elementos que, há vinte anos, aprovou, por unanimidade, a tese de doutoramento que foi um dos pontos de partida deste livro.


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