A descoberta
Finalmente, destaco a descoberta (e escavação Roque, n.p,) do “povoado” do Freixo do Meio 1, assim como as prospecções intensivas levadas a cabo, na área envolvente, que incluíram a identificação de um menir, decorado com covinhas, a escassas centenas de metros do “povoado”.
A descoberta do sítio merece uma descrição mais pormenorizada. Na primeira visita que fiz ao local fiquei, desde logo, certo da alta probabilidade de estar perante uma ocupação do Neolítico antigo.
A monumentalidade dos afloramentos graníticos (mais destacados no lado NW), delimitando uma plataforma bastante aplanada, aberta a Nascente-Sul, era, só por si, um elemento promissor Calado e Sarantopoulos, 1997; Diniz e Calado, 1997; Calado, 2002d; Albergaria, 2007; Gaspar, 2009b; Gonçalves et al., 2013.
Era Primavera e a erva estava crescida, tornando muito difícil a visualização de materiais de superfície. Felizmente, depois da quase extinção dos coelhos, ainda se mantêm, no Freixo do Meio, algumas tocas de texugos e raposas; foi precisamente numa dessas tocas que, nesse dia, encontrei os primeiros indícios de que a primeira impressão devia estar correta: um fragmento de cerâmica manual, sem decoração, e uma lasca de pedra siliciosa. Bastou para ter pedido ao Alfredo Sendim que limpasse a vegetação herbácea, para podermos observar a superficie do solo.
Ligou-me, uns dias depois, informando que, como se esperava, lá estava o que procurávamos: lamelas e cerâmica decorada.
Uma nota curiosa: soube, mais tarde, que o local tinha, uns tempos antes, sido escolhido por alguém que procurava um cenário bonito para uma sessão de yoga, ao ar livre. Isto é, mesmo sem nenhum viés arqueológico, o local tem, indiscutivelmente, uma beleza natural sugestiva.
O Freixo do Meio 1 (genericamente contemporâneo da Valada do Mato) localiza-se a cerca de 6 km a Norte do recinto megalítico de Cuncos Gomes, 1986, e a cerca de 10 km a Sul do Arneiro dos Pinhais, onde existiu, em tempos, outro destes monumentos. Mataloto, 2017
A paisagem, atualmente um montado de sobro e azinho, de relevo suave, pontuado por "ilhotas" graníticas, localmente designadas por arrifes, onde prospera uma vegetação mais diversa, nomeadamente o medronheiro, o sanguinho, o aderne e algum zambujeiro.
A escavação
Foram escavados apenas cerca de 40 m2, no total, em duas pequenas campanhas, em 2021 e 2022; foram, na primeira campanha, abertas 4 sondagens de 2mx2m, dispostas estrategicamente na plataforma onde se identificaram os materiais de superfície, tendo em vista a identificação de áreas especificas, com maior potencial arqueológico.
No lado Oeste, junto ao maior afloramento, o qual coroa a parte superior da plataforma, a sondagem forneceu escassos materiais, sugerindo que este espaço, com uma localização privilegiada, foi ocupado por uma cabana.
No lado Norte e no centro da plataforma, apesar da abundância de materiais, a indefinição estratigráfica foi interpretada como resultado da atividade agrícola, ao longo de séculos, a somar-se às perturbações de origem natural.
Atendendo aos resultados da primeira campanha, em 2022 a escavação concentrou-se na área localizada mais a Sul (Sondagem 4), uma vez que foi a única das quatro sondagens em que se identificou alguma complexidade estratigráfica, indiciando uma menor afetação, em termos tafonómicos.
Sem surpresa, por ser essa a norma habitual, em contextos comparáveis, a estratigrafia resume-se, em toda a área, a uma camada superficial, com materiais, mas claramente afetada quer pelas lavouras, quer por agentes naturais. Sob esta camada, foi identificada, com maior ou menor nitidez, conforme as sondagens, uma outra camada, de coloração mais escura, com espessura média de 30 cm. O substrato geológico é, em vários pontos, constituído por afloramentos graníticos ou por areão estéril, resultante da alteração da rocha-mãe.
Quanto à sondagem 4, o maior grau de preservação desta área explica-se, sobretudo, por se encontrar protegida por afloramentos, dificultando as lavouras.
Nesta área, foram identificados, sob a camada arqueológica melhor conservada, restos de estruturas negativas pouco profundas (silos ou fossas). A única vasilha cerâmica, quase integralmente reconstituída (Fig. 8.2, nº1), provém do fundo de uma destas estruturas.
A interpretação das estruturas negativas é, como habitualmente, problemática. Neste caso, tanto podem ser os fundos de silos (sem barro cozido) muito destruídos, no troços superiores, como podem corresponder a pequenas fossas, de função desconhecida, entretanto colmatadas ou reutilizadas.
Faltam evidências, mas à luz do pouco que sabemos sobre este tema, nesta época, podia inclusivamente tratar-se de fossas funerárias. Porém, faltam carvões ou ossos e, à parte o referido vaso em conexão, nada aponta para oferendas funerárias.
A continuação da escavação, nesta área, poderia eventualmente resolver algumas das dúvidas que subsistem e, com sorte, obter datações absolutas credíveis.
Os artefatos
Os artefatos recolhidos, quer à superfície, quer na escavação, constituem uma amostra bastante representativa do Neolítico antigo, atribuível à segunda metade do VI milénio, por comparação com os sítios que dispõem de datações absolutas e que já foram, no essencial, apresentados e discutidos, nos capítulos anteriores.
Quanto aos materiais cerâmicos (Fig. 8.2), dominam as decorações impressas, incluindo a cardial, mas estão igualmente bem representadas decorações incisas e plásticas. De assinalar que está ausente o caraterístico sulco abaixo do bordo, ficando descartada, à partida, uma continuidade pelo Neolítico médio.
A
B
CEm suma, apesar de a amostra ser
quantitativamente mais reduzida do que no povoado eborense, tudo aponta para uma contemporaneidade
genérica entre o Freixo do Meio 1 e a Valada do Mato, localizada a cerca de 30
km, a SE.
Comparando ambos, no contexto geográfico regional, pode afirmar-se que o sítio da Valada do Mato se implantou no centro do Alentejo Central, perto do ponto em que as três linhas de festo principais se encontram, rodeado por uma mancha densa de sítios contemporâneos e no aro imediato dos grandes recintos megalíticos, enquanto o Freixo do Meio 1 se localiza na periferia ocidental, em plena bacia do Tejo, com uma mancha de pequenos sítios em redor, associados igualmente aos afloramentos graníticos e alguns recintos megalíticos e menires, de menores dimensões.
Na verdade, se concebermos uma
penetração de grupos neolíticos ou em vias de neolitização, a partir do
estuário do Tejo, através do Almansor (ou do festo Almansor-Sorraia) Gonçalves e Andrade, 2020 , o
Freixo do Meio 1 estaria na primeira linha, isto é, entre as áreas mais
próximas, com condições indiscutíveis para prática da agricultura e da
pastorícia, assim como para a obtenção de matérias-primas tipicamente
neolíticas, como o granito, para as mós, ou o anfibolito para os machados.
De facto, em termos de acessibilidade,
a partir de ambos estuários, é na borda do Maciço Antigo, num arco que vai
desde Ponte de Sor, por Mora, Montemor-o-Novo, até Viana do Alentejo, que se
localizam, para além do Freixo do Meio 1, sítios do Neolítico antigo, como
Alminho, Chaminé, Cuncos ou Tojal.
Nesse mesmo arco, distribui-se igualmente, uma série de pequenos recintos e menires isolados.
Ao longo do texto, já fiz algumas
referências aos dois modelos interpretativos, para o arranque da neolitização, com maior destaque no panorama
recente português Zilhão, 1992, 2014,
2015; Carvalho, 2008 ; Silva
et al., 2010; Silva e Soares, 2020
Na verdade, algumas abordagens têm
procurado romper esta dicotomia, propondo soluções de compromisso, de tipo
híbrido.
Bernabeu, 2006; Diniz, 2007; Monteiro-Rodrigues,
2011
Qualquer posição sobre este tema, implica, naturalmente, um ponto de vista. Aquele em que conscientemente me coloco, parte do Alentejo Central e dos dados de que, sobre ele, dispomos.
Do ponto de vista mais teórico, já deixei claro que me integro no
“bloco” indigenista. Dentro deste, na variante Alentejo Central.
Os principais argumentos do modelo dos enclaves
neolíticos, assentava, em vários argumentos que, como se viu, foram perdendo
eficácia, com o desenvolvimento recente da investigação em Portugal.
1T Torna-se cada vez mais difícil defender que “pequenos grupos de navegadores do Neolítico Antigo — culturalmente atribuídos às tradições da Impressa ou da Cerâmica Cardial — parecem ter evitado rigorosamente zonas ocupadas, reforçando o fosso entre estes diferentes sistemas socioculturais.” Diniz, 2025: 637
É justo referir que a mesma autora não deixou de apontar uma brecha no modelo, ao lembrar que “os
vasos cardiais isolados do Cartaxo e de Santarém, recuperados na margem direita
do Tejo, em frente a concheiros mesolíticos, revelam a proximidade entre ambos
os grupos, apesar do silêncio arqueológico sobre as suas relações”
Diniz,
2025: 638
A instalação dos primeiros neolíticos em algumas áreas devolutas, não sendo exclusiva, continua a ser um facto, quer se considerem os sítios do Baixo Tejo, quer os sítios do interior, embora, no primeiro caso a proximidade seja flagrante.
Porém, essa aparente segregação pode, muito simplesmente, resultar das diferenças em termos de capacidade de uso agrícola e pecuário dos solos, tornando, por isso, a neolitização in situ pouco interessante para as bem sucedidas comunidades do mesolítico final; pode, por outro lado, ser o resultado clássico dos processos de fissão, em que uma parte da comunidade se afasta, para, com isso, resolver tensões e opções diferentes, para distâncias que garantem a autonomia, mas permitem a manutenção de laços sociais e familiares.
A velocidade do avanço da neolitização, de Leste para Oeste, só seria viável, alegadamente, através da instalação de colonos, por via marítima. Porém, a mobilidade reconhecida, precisamente por via marítima, das populações do mesolítico final e as redes de contatos de longa distância, comuns, aliás, a outras regiões europeias, seriam, perfeitamente suficientes, para, com base na exogamia, “contaminarem”, genética e culturalmente, rapidamente, de Leste para Oeste, os últimos caçadores-recoletores.
Se uma mulher de uma comunidade já neolitizada fosse parar (patrilocalidade) a uma comunidade ainda não neolitizada, é fácil entender que a neolitização estaria eminente ou já em curso.
“Dating Women and
Becoming Farmers”, foi o título sugestivo de um artigo sobre os famosos
concheiros de Hoedic e
Téviec, na Bretanha, Schulting e Richards,
2001
Esse
modelo, simples e claro, aplicou-se, aparentemente com mais propriedade, a
outro dos grandes sítios mesolíticos europeus, Lepenski Vir Diniz,
2025: 634
Primus
inter pares?
Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, a partir dos trabalhos desenvolvidos na Costa Sudoeste e, em particular, a partir das datações obtidas no sítio de Vale Pincel 1 e do estudo de sítios mesolíticos naquela área, têm vindo a sugerir que, estaríamos aqui e, eventualmente, no Algarve ocidental, perante as mais antigas manifestações da neolitização do atual território português. Soares, 1996a, b, 1997
Num texto recente, foi usada a
expressão “Neolítico antigo arcaico ou pré-cardial” e, desta vez, foram incluídos
nessa categoria, ex-equo, os sítios da
Costa Sudoeste, do Ribatejo e da Baixa Estremadura, com datas mais antigas
(além de Vale Pincel 1), Samouqueira 1, Cabranosa, Padrão, Casas Novas e
Lameiras. Soares, 2020: 305
É evidente que, para uma interpretação cabal do
processo de neolitização, não é irrelevante a área onde esse fenómeno ocorreu em primeiro lugar.
Existe atualmente uma espécie de
competição surda nesse domínio, qualquer que seja o modelo adoptado; de facto,
os neolitistas, com raras exceções, tendem a considerar os sítios que estudaram (e as respetivas
regiões) como os mais antigos.
João Zilhão, que concentrou os seus estudos nas grutas da Alta Estremadura, defendeu, e continua a defender, que se localizaram aí os primeiros enclaves neolíticos, com cerâmica cardial e as datas mais antigas; recordo que o modelo nasceu numa época em que, por um lado, dispúnhamos de muito menos evidências e o paradigma cardial parecia ainda uma hipótese cronológica aceitável, sem discussão.
Seguindo os mesmos critérios, António
Faustino de Carvalho, que se focou no estudo da Estremadura e do Algarve, vê,
nestas duas áreas, sinais dos mais antigos colonos neolíticos, também em
contexto cardial. Carvalho, 2008
Entretanto, a publicação do sítio das
Casas Novas, em Coruche, trouxe um novo candidato sério ao título de povoado
neolítico mais antigo. Os autores, a propósito, escreveram que “a
homogeneidade da cultura material pode, no entanto, suportar uma proposta de
antiguidade para o Neolítico de Casas Novas, num enquadramento eventualmente
pré‑cardial” Gonçalves e Sousa, 2015: 227,
colocando este sítio em paralelo com Vale Pincel 1 e Lameiras.
De facto, em Sintra (no lapiás de Lameiras),
Teresa Simões e Simon Davis, com datas sobre amostras de vida curta, incluindo espécies
domésticas, colocaram, sem grande alarde, essa área no arranque do processo de
neolitização. Davis e Simões, 2016
Finalmente, a escavação do povoado
neolítico antigo da Senhora da Alegria, permite afirmar que este “se conta entre as mais antigos
para o início do Neolítico no Centro de Portugal.”
Valera
et al., 2020
Recordo ainda que a escavação do
povoado do Prazo Monteiro-Rodrigues
e Angelucci, 2004; Monteiro-Rodrigues, 2011, tal como no Xarez 12 Gonçalves
et al., 2013, ou no Alminho Deus, 2008 levou os respetivos
escavadores a assumir a possibilidade de ocupações mesolíticas, sem hiatos, pelo que estes sítios seriam teoricamente
integráveis entre os mais antigos.
A exceção a esta tendência é a Valada do Mato, o
sítio centro-alentejano mais citado na bibliografia específica, que foi arrumado no
chamado Neolítico antigo evolucionado ou epi-cardial e até, como se viu, no
Neolítico médio.
Os dados e
interpretações acima apresentados (enquanto não dispomos de datações mais
fiáveis) pretendem trazer o Neolítico antigo centro-alentejano para o grupo
seleto dos mais antigos em Portugal e, para não ser exceção à regra, destacar a hipótese
de, nesse grupo, o Freixo do Meio 1 (seguido da Valada do Mato), ser um dos
mais antigos.




















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